Combinar eletricidade e gases renováveis pode gerar poupanças até 10 milhões de euros
Uma estratégia energética que combine eletrificação com o uso de gases renováveis poderá representar uma das soluções mais eficientes para Portugal, tanto do ponto de vista económico como da segurança de abastecimento. A conclusão é de um estudo apresentado esta segunda-feira em Lisboa, que defende uma abordagem integrada para evitar custos elevados associados a uma aposta exclusiva na eletrificação.
A APIEE – Associação Portuguesa dos Industriais de Engenharia Energética, em parceria com a EY-Parthenon, apresentou o estudo “Sustentabilidade da Rede Nacional de Distribuição de Gás”, onde conclui que uma estratégia equilibrada entre eletricidade e gases renováveis pode gerar poupanças até 10 mil milhões de euros face a um cenário de eletrificação total.
Segundo a análise, estes ganhos resultam sobretudo da redução da necessidade de investimentos massivos na rede elétrica e na adaptação dos edifícios, que seriam inevitáveis num modelo totalmente eletrificado.
“A análise evidencia que uma abordagem integrada do sistema energético permite ganhos significativos de eficiência, podendo evitar até 10 mil milhões de euros de custos adicionais face a cenários de eletrificação total, principalmente através de menores necessidades de investimento na rede elétrica e na adaptação dos edifícios.”, afirma Hermano Rodrigues, Principal na EY-Parthenon.
O estudo destaca ainda o papel da atual rede nacional de distribuição de gás, considerada uma das mais modernas da Europa, com níveis elevados de fiabilidade e capacidade de adaptação aos objetivos de descarbonização. Entre as conclusões mais relevantes está a possibilidade de os gases renováveis, em particular o biometano, substituírem até 60% do consumo atual de gás natural, reforçando a autonomia energética do país.
Para os autores, a preservação de um sistema energético integrado — que articule eletricidade e gás — é fundamental para garantir eficiência económica, segurança de abastecimento e flexibilidade no futuro.
“A análise evidencia que a transição energética em Portugal não deve ser vista como uma escolha entre eletrificação ou gás, mas sim como uma combinação inteligente de soluções. Preservar a rede de gás e apostar nos gases renováveis é essencial para garantir custos mais baixos, segurança energética e uma transição equilibrada.”
O documento alerta, no entanto, para o impacto de algumas medidas legislativas recentes, como o Decreto-Lei n.º 11/2023 e o Programa E-Lar, que aceleram a eletrificação sem alinhamento com a estratégia europeia de sistemas energéticos integrados.
De acordo com o estudo, estas políticas podem levar à redução da base de consumidores de gás, aumentando a pressão tarifária sobre os utilizadores remanescentes, ao mesmo tempo que comprometem o aproveitamento de uma infraestrutura considerada estratégica. Além disso, poderão limitar a integração futura de gases renováveis na economia e nos edifícios.
Apesar da tendência de diminuição da procura de gás, os dados apontam para a manutenção da relevância do Sistema Nacional de Gás até, pelo menos, 2040, com níveis de consumo ainda significativos e compatíveis com investimento contínuo.
Os autores sublinham também que cortes excessivos no investimento não se traduzem necessariamente em tarifas mais baixas, defendendo que um nível estável de investimento é essencial para garantir a sustentabilidade do sistema.
O estudo surge num contexto de profundas transformações no setor energético nacional, marcado pela descarbonização e por uma crescente pressão para a eletrificação dos consumos. Ainda assim, os responsáveis defendem uma visão de longo prazo, tecnologicamente neutra e alinhada com as orientações europeias, que evite decisões precipitadas e preserve opções estratégicas para o futuro.
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