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Famílias lideram buscas na Venezuela e revoltam-se com autoridades

Famílias lideram buscas na Venezuela e revoltam-se com autoridades

Este era, até há quatro dias, o destino de descanso, a praia dos moradores de Caracas, a apenas uma hora de carro da capital da Venezuela.
Agora, ainda que com o mesmo azul intenso do mar do Caribe ao fundo, o cenário é de destruição. O odor, de corpos há dias em decomposição. E o som, de tratores operando e de familiares em desespero. Os números oficiais dizem que até aqui há pelo menos 1.450 mortos.
No edifício Aguja Azul, uma folha A4 colada numa das únicas paredes ainda em pé diz: “lista de pessoas presas”. Foi a forma improvisada que familiares encontraram para juntar telefones de contato aos nomes dos seus parentes que podem estar naqueles escombros.
As famílias são quem está na linha de frente das buscas por corpos em La Guaira, a região mais afetada pelos terramotos gémeos, de magnitude 7,2 e 7,5, que assolaram o país em 24 de junho. A data era o feriado nacional da Batalha de Carabobo, fundamental para a independência do país. Boa parte dos venezuelanos estava em casa a descansar.
Dajameles Ramires estava no que restou do Aguja Azul com cerca de dez membros de sua família buscando os parentes. Eles não tinham experiência em resgate de vítimas, mas equiparam-se como podiam e começaram o trabalho que parece incessante.
Nos escombros estão a sua irmã, a sobrinha que havia celebrado o aniversário de 15 anos no fim de semana anterior e a amiga de escola de uma sobrinha de sete anos que, “por milagre”, foi encontrada viva e resgatada no sábado (27). Ela estava agarrada ao pai, já morto.
A família foi encontrada no corredor do andar onde moravam há dois anos. Foram apanhados pelo desmoronamento ao tentar sair do prédio. “Já vieram equipas de resgate, mas muitas foram transferidas para outras partes, e algumas vieram e foram embora quando viram que não deve haver mais vivos”, diz Dajameles à Folha. “No final ficamos nós, as famílias, porque precisamos de um desfecho.”
Não muito longe dali, familiares entraram em confronto com agentes de segurança que tentavam organizar o tráfego de motos e carros que levam voluntários, mantimentos, tratores e pás. Eles afirmam que tem sido lento e insuficiente os trabalhos de busca num dos edifícios que mais chama a atenção em La Guaira.
Parte de um complexo residencial construído pelo Estado na era em que Hugo Chávez era o presidente, o edifício Luiza Cáceres de Arismendi está prestes a cair. A estrutura está tombada para o lado, e toda a parede lateral desabou.
Como se aquilo fosse uma enorme casa de bonecas, de longe é possível ver todos os apartamentos. Aquele com o carrinho de bebé rosa, o que tem a parede estampada com árvores pintadas à mão, aquele outro com a dupla de sofás laranja fluorescentes.
Indignados, os moradores fazem um cordão humano para impedir que carros e a maquinaria pesada deixem o local. Exigem das autoridades que continuem as buscas por suas irmãs, sobrinhas e primos cujos corpos ainda estão ali.
“Até quando vamos esperar?”, grita uma mulher. “Estamos sozinhos, sem ajuda de ninguém, estamos cansados”, diz outra.
Moradores dizem que o Estado tem sido insuficiente, e que a população tem de atuar por conta própria se quiser dar dignidade aos parentes que morreram.
Ainda surgem relatos de resgates de sobreviventes depois de tantos dias. Neste domingo (28), dois meninos de 11 anos foram retirados com vida do meio da destruição. Um deles teve os olhos protegidos pelos socorristas para evitar o choque da luz do sol depois de dias sob a escuridão.
A líder interina, Delcy Rodríguez, partilhou um vídeo que mostra o outro rapaz a ser resgatado. “Nessas horas, cada vida representa esperança para a Venezuela”, escreveu.
Mas esses casos são exceções, e em La Guaira o que se viu foi uma esperança quase nula de encontrar sobreviventes.
Enquanto a reportagem estava na cidade, um corpo foi encontrado. De forma improvisada, foi envolto em lençóis e cobertores infantis achados nos próprios escombros e depois retirado num saco preto pela polícia numa pequena camionete.
As famílias nunca param. Em muitos locais, elas já sabem onde estão os corpos, mas não conseguem aceder a eles devido aos destroços. As moscas e o mau cheiro são um triste chamariz que orientam onde concentrar as buscas, indicando que ali há uma vítima.
Nas praças de La Guaira, centenas de desalojados acomodam-se como podem. Pilhas de roupas estão espalhadas e são vasculhadas por quem precisa de peças de tamanho adequado e que protejam do forte sol caribenho —mais de 30°C, o que também intensifica o odor e o cansaço generalizado.
No centro da cidade, o comércio está fechados e com avisos colocados nas portas: “Já nos roubaram”. Os locais foram roubados pouco após os terramotos e deixaram de operar. Muitos também tiveram a estrutura comprometida.
Uma equipa do Plano de Contingência Nacional do Ministério de Moradia estava ali a fazer inspeções iniciais. O engenheiro civil Guillermo Bonilla explicou que muitas avaliações são prematuras, mas a projeção é que mais de 90% das estruturas tenham sido comprometidas. Mesmo as que não foram abaixo tiveram danos sérios e potencialmente serão esvaziadas.
Num comunicado oficial neste domingo, o presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, irmão de Delcy e nome forte do chavismo, disse que pelo menos 189 edifícios colapsaram em todo o país, e mais de 580 sofreram danos.
Nas redes sociais, ativistas e membros da oposição pedem que todos que forem engenheiros civis entrem em contato para formar um grande grupo de avaliadores que visitem as residências e digam se é ou não seguro continuar a viver ali. Muitos prédios, mesmo em Caracas, estão a operar mesmo que com rachas e danos estruturais ainda desconhecidos.
Cidade com cerca de 25 mil habitantes, La Guaira sabe como é ser devastada por um desastre natural. Em 1999, uma semana de intensas chuvas levou a enchentes e deslizamentos de terra que mataram milhares de pessoas e destruíram a cidade. Sempre houve uma incómoda dúvida sobre o número real de vítimas, com dados que variavam de 15 mil a 50 mil mortos.
Agora, neste novo capítulo de tragédia, o cenário de destruição cresce a galope. O regime chavista afirma que ao menos 3.150 pessoas ficaram feridas, mas a cifra contabiliza apenas o que foi registado nos hospitais. A Organização das Nações Unidas diz que projeções iniciais mostram que pelo menos 6,7 milhões de pessoas devem ter sido afetadas entre mortos, feridos, desalojados. A entidade também estima que haja mais de 50 mil desaparecidos.
O trabalho de buscas não tem prazo para terminar.

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