Custos energéticos reforçam atratividade de Portugal e Espanha para a indústria, conclui estudo da McKinsey
Portugal e Espanha estão entre os países europeus mais bem posicionados para atrair novos investimentos industriais, beneficiando de custos energéticos competitivos e de níveis de investimento produtivo superiores aos de várias das principais economias europeias, segundo um estudo divulgado hoje pelo McKinsey Global Institute.
O relatório “Catalyzing competitiveness: Where investment happens and why” conclui que a Europa enfrenta um défice estrutural de investimento de cerca de 800 mil milhões de euros por ano, num contexto em que as decisões de localização de novos projetos industriais são cada vez mais influenciadas por fatores como os custos de produção, a produtividade e a rapidez de execução.
“Na Europa, o investimento estagnou, com a região a apresentar um défice estrutural de investimento de cerca de 800 mil milhões euros por ano, ou seja, o investimento atual está muito abaixo do necessário para sustentar crescimento e competitividade no longo prazo. Nos Estados Unidos, a prioridade é reforçar o investimento na indústria para reduzir dependências externas. Já a China continua a expandir a sua capacidade produtiva a um ritmo muito superior, acrescentando cerca de três vezes mais capacidade produtiva por ano do que os Estados Unidos e a Europa combinados, embora com níveis de rendibilidade por unidade de capital investido cerca de 40% inferiores”, lê-se no comunicado.
O McKinsey Global Institute considera que a Península Ibérica reúne condições para reforçar a sua posição nas cadeias de valor industriais, apoiada em vantagens estruturais associadas aos custos da energia e à recuperação do investimento produtivo.
De acordo com o estudo, a Península Ibérica destaca-se no panorama europeu devido ao acesso a energia renovável a custos mais competitivos, o que favorece a instalação de indústrias intensivas em eletricidade. O documento refere que vários projetos industriais estão já a deslocar-se para a Península Ibérica e para os países nórdicos, em detrimento de centros industriais tradicionais europeus.
O relatório identifica Portugal como um dos casos de maior recuperação do investimento produtivo na Europa após a crise da dívida soberana da Zona Euro. Em 2024, a taxa de investimento produtivo líquido atingiu 4,6% do Produto Interno Bruto (PIB), acima da registada em Espanha, superior a 2%, e bastante acima da Alemanha, onde este indicador se situou em cerca de 0,2%, segundo o estudo.
A análise aponta ainda que produzir na Europa ou nos Estados Unidos pode custar pelo menos mais 50% do que em países que atualmente captam mais investimento, devido sobretudo a custos laborais mais elevados que não são compensados por ganhos de produtividade. Acrescem diferenças nos custos da energia e das matérias-primas, bem como nas políticas públicas de incentivo ao investimento.
A estes fatores somam-se as diferenças nos custos energéticos e de matérias-primas, particularmente relevantes em indústrias intensivas, que penalizam a competitividade europeia. Paralelamente, as políticas públicas também têm impacto direto na competitividade, sendo que os apoios podem variar até oito vezes entre regiões, criando condições significativamente diferentes para atrair investimento.
“Em média, nas indústrias analisadas, produzir na Europa ou nos Estados Unidos pode custar pelo menos mais 50% do que em países que atualmente atraem mais investimento. No caso da indústria, este diferencial está sobretudo associado a custos laborais mais elevados que não são compensados por maior produtividade, o que reduz diretamente a atratividade para novos investimentos industriais. Em investigação e desenvolvimento, essa diferença pode chegar a cerca de 300%, refletindo processos mais longos e menor rapidez no lançamento de novos produtos no mercado”, lê-se no comunicado.
Ainda assim, o reforço da competitividade europeia, incluindo nas regiões mais bem posicionadas, exigirá uma transformação estrutural profunda, defende a McKinsey. Uma análise prospetiva indica que ganhos de produtividade na ordem dos 30%, aliados à convergência dos custos de equipamentos, energia e materiais e a uma maior rapidez na execução de projetos e no tempo de chegada ao mercado, poderão reduzir entre 30% e 80% do diferencial de custos, aproximando a Europa das economias mais competitivas.
O estudo defende igualmente uma maior especialização em indústrias estratégicas, reforço da inovação e ajustamento das políticas industriais para melhorar a capacidade de atração de investimento.
O estudo identifica sete alavancas para reforçar a competitividade e reequilibrar o investimento, incluindo a otimização do capex (com industrialização da construção e simplificação burocrática), o aumento da produtividade via automação e inteligência artificial e o acesso a energia limpa e competitiva.
Destaca ainda a necessidade de acelerar o “time-to-market”, reforçar a inovação para competir em valor, apostar em setores estratégicos menos sensíveis ao custo (como semicondutores, biotecnologia e supercomputação) e garantir maior transparência nas políticas industriais para reduzir distorções e atrair investimento.
O estudo destaca assim o papel da transparência das políticas industriais na criação de condições de concorrência mais equilibradas, através de instrumentos que possam mitigar distorções nos mercados internacionais e apoiar a atração de investimento.
A Península Ibérica surge, para a McKinsey, como um polo competitivo na Europa, com Portugal a evidenciar potencial de captação de investimento industrial, apesar de partir de níveis mais baixos de capital e produtividade por trabalhador.
“Neste novo mapa global da competitividade, a Península Ibérica surge assim não apenas como uma oportunidade conjuntural, mas como um dos poucos exemplos na Europa onde vantagens estruturais, em particular no acesso a energia competitiva, estão já a traduzir-se numa maior capacidade de atrair investimento e de reposicionar a região nas cadeias de valor industriais do futuro”, defende o estudo que sublinha que “para Portugal, esta tendência é particularmente relevante, pois embora parta de uma base histórica de capital produtivo por trabalhador relativamente reduzida – cerca de 60 a 70 mil euros por trabalhador, abaixo de muitas economias europeias mais desenvolvidas – e de níveis de PIB por trabalhador em torno de 35 a 45 mil euros, o país destaca-se atualmente pela forte recuperação do investimento produtivo e pelas condições favoráveis para captar novos projetos industriais”.
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