O calor e a cidade
Com o tempo quente aproxima-se dias sucessivo de calor, com noites tropicais, a que os especialistas chamam ondas de calor.
De acordo com os cenários climáticos para a Cidade de Lisboa, constantes do Projeto Ondas de Calor, concluído em 2020, o número de dias de onda de calor no clima atual é de 10,7 dias por ano, passando a ser de 38,3 dias a médio prazo e de 63,5 dias a longo prazo.
De acordo com estudos de Saúde Pública, o limiar de tolerância das populações ao calor varia de acordo com a Geografia, tendo em conta a capacidade de adaptação da espécie humana. Em Lisboa esse limiar situa-se nos 29,3ºC, sendo que por cada grau centígrado acima há um acréscimo de episódios de doença para todas as causas em 5,6%, sendo que no grupo de população idosa esse acréscimo eleva-se para os 6,5%. Entre os idosos, no caso de episódios correlacionados com doenças respiratórias, o acréscimo atinge os 9,49%.
Há cerca de um ano o Jornal Público noticiava que a Direção-Geral de Saúde registava 69 mortes em excesso no País por efeito direto da ocorrência de uma onda de calor e, recentemente, o Jornal El País citava um estudo que estima o falecimento de 43.000 pessoas por ano na Europa por falta de zonas verdes.
Os efeitos sentidos pelas populações em resultado do aquecimento do planeta e pelo aumento de episódios de ondas de calor são potenciados pelo efeito de ilha de calor urbano, que correspondem a áreas urbanas onde se concentram temperaturas mais elevadas.
Em Lisboa, de acordo com o citado Projeto, o efeito de ilha de calor urbano, no período de verão, ao entardecer, corresponde a uma diferença de temperatura entre os locais mais quentes e o Parque de Monsanto na casa dos 4ºC. Num cenário futuro, que se projeta até ao final deste século, esse efeito será particularmente severo nas zonas da Baixa Pombalina e Parque das Nações, com um diferencial que pode ultrapassar os 5ºC.
O mapeamento da vulnerabilidade à pobreza energética em Lisboa, estudado na mesma altura, caracteriza geograficamente a capacidade da população residente dispor de rendimento suficiente para pagar a fatura da energia que seria necessária para manter a sua casa quente no inverno e fresca no verão. Esse mapeamento mostra-nos uma particular vulnerabilidade nas freguesias onde se concentram famílias em situação de maior vulnerabilidade social e população mais idosa.
A fraca qualidade da generalidade das nossas construções, aliada a um rendimento médio baixo, elevadas tarifas energéticas e a um processo de envelhecimento populacional, constituem um caldo explosivo, que potenciam um forte impacto das alterações climáticas sobre as populações mais vulneráveis, designadamente população idosa e com problemas crónicos de saúde, nomeadamente cardiovasculares e respiratórias.
O mapeamento do clima urbano evidencia o efeito da presença significativa de vegetação no meio urbano enquanto regulador de temperatura. Esse efeito expressa-se de forma diferenciada no inverno e no verão.
No inverno a copa das árvores ameniza o frio intenso, através do efeito de subida da temperatura de contorno, que confere uma experiência de maior conforto que todos nós já experienciamos quando transitamos a pé em ruas arborizadas.
No verão a evapotranspiração das plantas promove o abaixamento da temperatura ambiente. No entanto, esse efeito depende em grande medida da dimensão e densidade de vegetação presente, sendo preponderante a continuidade da estrutura verde em meio urbano.
Por esse motivo é tão importante a concretização dos corredores verdes urbanos, pelo efeito conjugado de amenização climática, de promoção da permeabilidade do solo (com diminuição dos impactes de inundações), de formalização de corredores de ventilação (que diminuem os efeitos de concentração de poluentes), de aumento da biodiversidade, e de promoção da coesão e justiça social, ligando setores urbanos diferenciados, com diferentes perfis socioeconómicos.
Neste pressuposto, torna-se crucial, no caso de Lisboa, a concretização dos espaços verdes e dos corredores ecológicos programados no seu Plano Diretor Municipal, numa lógica de redesenho da paisagem, concretizando uma dinâmica de despavimentação, cujo caso mais evidente correspondeu à transformação da Praça de Espanha, enquadrada por uma unidade de execução aprovada em 2016, que se inscreve num corredor verde, onde se inclui o já concretizado Parque Urbano da Quinta da Bela Flor, na margem do Vale de Alcântara, e que falta completar até alcançar o Rio, conforme preconizado no Plano de Urbanização de Alcântara, em vigor.
Com base nestas evidências, recebemos com estranheza a notícia da extinção do Serviço Municipal responsável pela estrutura verde da Cidade de Lisboa, acompanhada de uma aparente reorientação das prioridades de investimento do Município para a conservação de espaços verdes de enquadramento, com é exemplo os recentes arranjos florais na rotunda do Marquês de Pombal, que, sem desprimor para a melhoria da qualidade visual do espaço público e recuperação cénica da conceção do espaço, nada acrescenta para os desígnios de sustentabilidade ambiental, de coesão e de justiça social.
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