Moradores do concelho de Almada à beira de um ataque de nervos com falta de água e criticam autarquia
A ministra do Ambiente e da Energia respondeu hoje à autarca de Almada garantindo que há dinheiro para a renovação da rede de água, mas que é preciso concorrer aos fundos.
O concelho de Almada tem sido assolado pela falta de água, com a autarquia a justificar a escassez pelo disparo no consumo de água.
“Os serviços municipais são os responsáveis tanto em baixa como em alta do sistema de água. Há uma coisa que é evidente: os investimentos não têm sido feitos. Existe financiamento nos vários programas operacionais. Mas é preciso concorrer”, disse esta quarta-feira Maria da Graça Carvalho em resposta à autarca.
Inês de Medeiros criticou a falta de dinheiro no programa PTPR, mas a ministra responde que, apesar de não existir neste programa que está agora a arrancar, tem existido dinheiro disponível, como no Sustentável 2030. “Os programas europeus têm a disponibilidade para financiar projetos de água. Agora, é preciso preparar as candidaturas, é preciso submetê-las e preciso negociá-las. É preciso pôr a concurso, é preciso monitorizar. É preciso planear, é preciso fazer, é preciso trabalhar”.
“Isto dá tudo muito trabalho e é assim que se consegue fazer, a preparar o futuro, e o futuro da água tem de ser preparado. Há um esforço muito grande de planear, de investir, de procurar fundos, é isso que é necessário todos fazerem”, afirmou em declarações na inauguração de uma ETAR em Vilamoura, no Algarve.
Olhando para a atual situação, a ministra garantiu que serão feitos “dois furos extraordinários” para o abastecimento, “já estão identificados” e que vai haver “toda a flexibilidade da Agência Portuguesa do Ambiente para utilização imediata dos furos”, mas só estarão disponíveis daqui a duas semanas, sendo necessárias “soluções de emergência” para que as pessoas e empresas tenham água.
“É preciso também fazer restrições dos consumos extraordinários”, defendeu a ministra, tal como foi feito no Algarve em anos recentes, com corte no uso de água nas piscinas, jardins, lavagem de viaturas.
A autarquia de Almada decretou hoje a situação de alerta no município, reforçando as medidas em curso para “garantir o abastecimento à população e aos serviços essenciais”.
Os Serviços Municipalizados de Água e Saneamento de Almada (SMAS de Almada) disseram esta quarta-feira que a “situação que o concelho enfrenta é excecional e resulta de um aumento muito significativo do consumo de água, que exerceu uma pressão sem precedentes sobre o sistema de abastecimento. Neste momento, é fundamental reduzir rapidamente os consumos para permitir a recuperação dos níveis de segurança dos reservatórios e garantir a continuidade do abastecimento”.
O SMAS disse que o consumo médio em Almada ultrapassa os 300 litros por habitante/dia, enquanto a média nacional é de cerca de 180 litros por habitante/dia. E que até junho de 2026, o consumo aumentou, em média, 4,3% no concelho, com os maiores aumentos nas freguesias: Charneca de Caparica: +15,2%; Sobreda/Lazarim: +15%; Costa da Caparica: +14,2%.
A falta de água tem afetado o dia-a-dia dos residentes do concelho, tal como o de João Garrido: “Hoje, em minha casa, abri uma torneira e a água simplesmente deixou de correr. Não foi um episódio isolado. No concelho de Almada, a falta de água deixou de ser uma ocorrência pontual e passou a fazer parte do quotidiano de muitos munícipes. Todos os dias surgem novos relatos, novas queixas e novas notícias. A situação tornou-se insustentável. Em dias de calor intenso, numa altura em que o acesso à água é ainda mais crítico, esta realidade é absolutamente inaceitável”, escreveu o munícipe nas redes sociais, deixando críticas aos argumentos da autarquia.
“Oss próprios serviços estão a admitir que o sistema não está dimensionado para responder às necessidades reais do concelho. Isto não é apenas um problema técnico. É uma falha de planeamento, de gestão, de investimento, de manutenção e de responsabilidade política. O acesso à água não é um luxo. Não é um serviço acessório. Não é uma comodidade que possa falhar diariamente sem consequências. É um bem essencial, ligado à saúde pública, à dignidade das pessoas, à segurança das famílias, ao funcionamento das empresas e à vida normal de uma comunidade”.
Também o jornalista Miguel Szymanski deixou críticas à autarquia. “Estamos há semanas com falta de água na Costa da Caparica. O problema tem-se agravado, de ano para ano. As explicações da empresa/serviço municipal responsável são tardias e patéticas. A falta de água na rede pública é uma consequência da falta de planeamento e de noção das prioridades: construir uma estação de dessalinização de água do mar para abastecer as populações da Trafaria, Costa da Caparica, Sobreda etc. (no Algarve está uma grande central em construção) terá aproximadamente o custo das obras de ampliação do IC20/Via Rápida feitas ao longo de oito km entre Almada e a Costa da Caparica e terminadas no ano passado”.
“O projeto duma central de dessalinização deveria ter sido aprovado há três anos, quando os problemas começaram a agudizar-se. E poderia estar a funcionar hoje. Quanto ao local onde ir buscar a água do mar para dessalinizar, tenho uma sugestão que gostaria de passar aos responsáveis políticos: que tal o Oceano Atlântico aqui mesmo à porta de casa?”, segundo o também comentador e escritor residente neste concelho da Margem Sul do Tejo.
Por sua vez, o município de Almada anunciou que estão assim “proibidas todas as utilizações de água da rede pública que não correspondam a usos domésticos ou essenciais”, como:
· a rega de jardins público e privados, e de campos de golf;
· a lavagem de viaturas;
· o enchimento de piscinas;
· a utilização de chuveiros e lava-pés nas zonas balneares;
· o funcionamento das fontes ornamentais, lagos artificiais e outros elementos de uso estético de água;
· a lavagem de pavimentos exteriores, logradouros, paredes e telhados, com exceção de intervenções de conservação do edificado;
· outras utilizações recreativas ou não indispensáveis.
A autarquia anunciou várias medidas, incluindo o “reforço permanente da monitorização do sistema de abastecimento e dos níveis dos reservatórios; reforço das equipas técnicas para deteção e reparação urgente de fugas e roturas; reforço das equipas de fiscalização para prevenir consumos abusivos, utilizações ilegais de água e desperdícios; garantia do abastecimento aos equipamentos e serviços essenciais, nomeadamente hospitais, centros de saúde, lares, bombeiros e restantes infraestruturas críticas; disponibilização de meios alternativos de abastecimento, incluindo camiões-cisterna, nas zonas onde tal venha a revelar-se necessário; reforço da articulação com municípios vizinhos e restantes entidades competentes para assegurar toda a capacidade de resposta disponível”.
Share this content:



Publicar comentário