Abrir uma empresa em Portugal demora horas…
… aprender a geri-la pode demorar anos.
Em Portugal, criar uma empresa é um processo surpreendentemente simples. Em poucas horas é possível escolher um nome, obter um NIF, abrir uma conta bancária e sair de uma conservatória com uma sociedade pronta a funcionar.
O problema é que ninguém entrega o manual de instruções.
Ninguém explica como gerir pessoas. Como controlar a tesouraria. Como definir preços. Como interpretar uma demonstração de resultados. Como construir uma estratégia comercial. Como tomar decisões quando o dinheiro não chega para tudo. Como liderar uma equipa quando os colaboradores já não respondem apenas a ordens, mas procuram propósito, desenvolvimento e reconhecimento.
E depois admiramo-nos com os resultados.
Os números são preocupantes. Cerca de um quarto das empresas portuguesas desaparece ainda durante o primeiro ano de atividade. Ao fim de três anos, mais de metade já fechou portas. Todos os anos assistimos ao nascimento de milhares de novas empresas, mas também ao desaparecimento silencioso de milhares de projetos, sonhos e investimentos.
Não porque os portugueses sejam menos capazes. Mas porque confundimos demasiadas vezes competência técnica com competência de gestão.
Um excelente cozinheiro abre um restaurante e descobre que cozinhar é apenas uma pequena parte do negócio.Um excelente mecânico abre uma oficina e percebe que saber reparar carros não o ajuda a liderar equipas.
Um excelente fisioterapeuta abre uma clínica e conclui que o seu maior desafio não está nos pacientes, mas na gestão financeira.
Um excelente vendedor cria uma empresa e descobre que vender é muito diferente de gerir.
O sistema educativo também não ajuda. Passamos mais de uma década na escola sem aprender praticamente nada sobre dinheiro, investimento, gestão financeira, negociação, vendas, liderança ou empreendedorismo.
Sabemos resolver equações complexas, mas não sabemos interpretar um balanço. Conhecemos acontecimentos históricos importantes, mas não fazemos ideia de como funciona um fluxo de caixa. Decoramos fórmulas, mas raramente desenvolvemos competências de comunicação, influência ou liderança.
E num país onde falar de dinheiro continua a ser quase um tema proibido, acabamos por entrar na vida adulta com uma enorme iliteracia financeira e empresarial. Depois exigimos que os empresários saibam aquilo que nunca lhes ensinámos.
Mas existe um problema ainda mais desconfortável. Em Portugal, nem todas as empresas nascem porque alguém identificou uma oportunidade de mercado. Muitas nascem porque o sistema fiscal empurra as pessoas para isso. Temos uma carga fiscal elevada, regras complexas e um enquadramento que frequentemente torna mais vantajoso criar uma empresa do que exercer a mesma atividade enquanto trabalhador independente.
O resultado é que uma parte significativa das sociedades existe menos para criar valor e mais para otimizar impostos. São empresas criadas por razões fiscais antes de serem criadas por razões empresariais. E quando o objetivo principal é sobreviver ao sistema tributário, torna-se mais difícil construir uma cultura de crescimento, inovação e profissionalização.
Isto não é uma crítica aos empresários. É precisamente o contrário!
Quem consegue criar e manter uma empresa em Portugal demonstra frequentemente uma resiliência extraordinária. Mas a resiliência não substitui conhecimento. Trabalhar 14 horas por dia não substitui estratégia. Sacrifício não substitui gestão. Boa vontade não substitui competência.
Durante anos ouvi empresários dizerem que ninguém os avisou. Ninguém lhes explicou. Ninguém lhes mostrou o que significava verdadeiramente gerir um negócio. E têm razão. A maioria dos empresários portugueses aprendeu através do método mais caro que existe: errar.
Errar em contratações. Errar em preços. Errar em investimentos. Errar em marketing. Errar em gestão financeira. Errar em liderança.
O mercado acaba por ser a universidade mais cara do mundo.
Por isso, quem quer construir uma empresa sustentável tem hoje apenas duas opções. Pode continuar sozinho e aprender através dos seus próprios erros. Ou pode rodear-se de quem já percorreu esse caminho, procurar mentoria, formação, partilha de experiências e aprendizagem contínua.
Porque ninguém nasce empresário. Ser empresário é uma competência que se aprende. E talvez esteja na altura de admitirmos uma verdade desconfortável: o maior problema de muitas empresas portuguesas não é a falta de financiamento, nem a concorrência, nem sequer os impostos. É acreditarmos que abrir uma empresa transforma automaticamente alguém num empresário. Não transforma. Abre apenas a porta para uma das aprendizagens mais difíceis da vida.
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