Banca angolana está mais sólida mas ainda presa ao crédito de curto prazo e ao setor público, segundo Sidney Magalhães do Millennium Atlântico
Na conferência “Doing Business Angola 2026”, que decorre hoje em Lisboa, no “Painel: Capital e confiança: os motores do investimento entre Angola e Portugal”, participaram Emanuela Vunge, Managing Partner Prime Advogados da VdA Legal Partners, Sidney Magalhães, Administrador Executivo Banco Millennium Atlântico, Carlos Firme, CEO Fortaleza Seguros e Eline Feijão, Administradora Executiva Banco Atlântico Europa.
O administrador executivo do Banco Millennium Atlântico, Sidney Magalhães, considerou que a banca em Angola está a progredir no caminho para uma maior estabilidade, embora sublinhe que esse processo ainda não está concluído.
O administrador executivo do Banco Millennium Atlântico assinalou que Angola está a “atingir esta estabilidade” de forma progressiva, apontando a melhoria dos indicadores nominais do sistema financeiro: a taxa de referência do Banco Nacional de Angola (BNA) desceu de 70% para 15,7%, ao mesmo tempo que o país se aproxima de uma inflação de um dígito, esperada nos 8,6%. Sublinhou ainda que o rating soberano angolano “tem estado bastante estável nos últimos anos”.
Na sua perspetiva, estes indicadores demonstram que o país está a consolidar a estabilidade necessária para atingir os objetivos definidos para 2030.
Apesar destes progressos, Sidney Magalhães alertou para os desafios estruturais da economia angolana, em particular a forte dependência do setor petrolífero. Embora o petróleo represente atualmente cerca de 20% do Produto Interno Bruto (PIB), continua a ser responsável por aproximadamente 60% das receitas fiscais e 90% das exportações, o que mantém uma elevada exposição das contas públicas à evolução deste setor.
O gestor defendeu que a consolidação da estabilidade dependerá também do avanço das reformas estruturais e da diversificação da economia, considerando que o trabalho em curso nesta área deverá prosseguir nos próximos anos.
No que respeita ao sistema financeiro, Sidney Magalhães afirmou que o setor bancário está hoje “muito mais estável”, salientando que os rácios de solvabilidade rondam os 24%, bastante acima do mínimo regulamentar de 10%. Na sua opinião, esta solidez constitui uma base importante para apoiar o desenvolvimento económico e o processo de diversificação da economia angolana. No entanto, alertou que apesar de os ativos da banca angolana corresponderem a cerca de 21% do PIB, o crédito ao setor privado representa apenas cerca de 8%, refletindo uma forte concentração no financiamento de curto prazo.
“É necessário, naturalmente, começarmos a olhar para o crédito mais a médio ou a longo prazo”, defendeu, apontando também o papel do mercado de capitais — ainda muito ligado ao financiamento do Estado — e do setor segurador na diversificação das fontes de financiamento da economia angolana.
O administrador executivo defendeu portanto um maior desenvolvimento do crédito de médio e longo prazo, de forma a apoiar o investimento produtivo e a diversificação da economia.
Sidney Magalhães considera que o mercado de capitais deverá assumir um papel mais relevante no financiamento da economia. Referiu que o mercado continua muito dependente do financiamento ao Estado e defendeu uma maior participação de investidores privados, bem como o desenvolvimento de novos instrumentos financeiros e de maior liquidez. Acrescentou ainda que o setor segurador também poderá contribuir para o fortalecimento do sistema financeiro e para o financiamento da economia, apelando ao papel das seguradoras como investidor institucional.
O Banco Millennium Atlântico (resultante da fusão do Millennium Angola com o Banco Atlântico) tem como acionistas, a Interlagos Equity Partners: 29,77%; o BCP África (Millennium BCP) com 22,53%; o Sotto Financial Group com 19,80%; a Jasper Capital Partners com 18,12%; e outros investidores com 9,78%.
A estabilidade do sistema financeiro angolano e a necessidade de aprofundar o crédito de médio e longo prazo, os mercados de capitais e o setor segurador estiveram no centro do painel “Capital e Confiança: os motores do investimento entre Angola e Portugal”, que decorreu hoje em Lisboa, no âmbito da conferência “Doing Business Angola 2026”.
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