Portugal e Moçambique querem transformar afinidade histórica em poder económico
A relação entre Portugal e Moçambique entra num novo ciclo — menos assente na memória histórica e mais orientada para resultados concretos. A mensagem foi clara ao longo do painel que ocorreu hoje no Eurafrican Forum 2026, na Nova School of Business and Economics, que reuniu António José Seguro, Presidente da República de Portugal, e Daniel Francisco Chapo, Presidente da República de Moçambique: é tempo de transformar uma ligação simbólica numa parceria estratégica com impacto económico, tecnológico e social.
“Esta nova relação tem de ser orientada para resultados muito concretos”, afirmou António José Seguro, sublinhando a necessidade de dar execução prática aos acordos bilaterais. A ideia foi repetida várias vezes ao longo do debate: menos declarações, mais implementação.
Do lado moçambicano, o tom foi convergente. “O nosso foco agora tem que ser a cooperação económica e comercial virada para resultados”, disse Daniel Francisco Chapo, apontando para o potencial ainda por explorar entre os dois países. “Somos duas famílias, Portugal e Moçambique. As nossas lutas foram comuns. Temos uma relação histórica e de amizade. Estamos ligados pela língua e também por laços sanguíneos”, acrescenta.
Os números humanos reforçam a ligação: cerca de 13 mil moçambicanos vivem em Portugal e aproximadamente 40 mil portugueses residem em Moçambique, criando uma base social sólida para aprofundar a cooperação.
Do comércio ao investimento produtivo
Um dos eixos centrais da discussão foi a necessidade de evoluir da simples troca comercial para relações económicas mais profundas. “Precisamos passar de trocas comerciais para parcerias estratégicas”, defendeu António José Seguro, acrescentando que o objetivo deve ser “transformar comércio em investimento produtivo”.
Os números mostram já uma base sólida: mais de 1100 empresas portuguesas operam atualmente em Moçambique, que se posiciona como o 8.º principal destino do investimento português no exterior, com cerca de 2100 milhões de euros de investimento direto. Ainda assim, ambos os líderes reconhecem que há margem para crescer — e rapidamente. “Precisamos, por isso de trabalhar juntos. Este é o momento e convido os empresários portugueses a investir em Moçambique”, apela o chefe de estado moçambicano. “Estes números mostram confiança, mas também mostram que podemos ir mais longe”, afirmou Seguro.
Moçambique surge como uma economia em transformação, com especial destaque para o setor energético. “No setor do gás natural, Moçambique tem em curso investimentos avaliados em vários biliões de dólares, representando uma das maiores oportunidades económicas do país e que estão a ser realizados por empresas ligadas à União Europeia, caso da Eni”, afirmou Daniel Francisco Chapo, avançando ainda que irá ser assinado o maior projeto de investimento privado em África com a Exxon no valor de 20 biliões de dólares. “Portanto, nos próximos 5 ou 10 anos, há um investimento estimado no setor do gás de cerca de 50 biliões de dólares. Este é o momento certo para as empresas portuguesas investirem em Moçambique”, reforça.
A energia destacou-se como um dos pilares da cooperação futura. Para além do gás natural, Moçambique aposta em hidroelétricas e energia solar, beneficiando de condições naturais favoráveis. “Temos recursos e temos mercado. O que precisamos é de cooperação estratégica”, afirmou Chapo.
O Presidente moçambicano referiu ainda o apoio português através de uma linha de crédito de cerca de 500 milhões de euros destinados a apoiar projetos e investimento empresarial português em Moçambique — anunciada em dezembro de 2025 pelo Governo Português, sublinhando que estes instrumentos ainda se encontram em fase de desenvolvimento. “Estamos bastante avançados. É um trabalho que estamos a fazer entre os dois Governos. E é muito importante para o financiamento das empresas portuguesas que estão a investir em Moçambique”, considera.
“E ainda esta semana o senhor primeiro-ministro, Luís Montenegro, me transmitiu que estamos já, não diria nos pormenores técnicos, porque estas questões não são de pormenor, mas estamos muito próximos de uma decisão final para que essa linha possa ser concretizada. E isso é excelente e cumprimento o senhor ministro do Estado e dos Negócios Estrangeiros, que aqui está presente”, adiantou.
A diversificação da economia foi também apontada como prioridade, com apostas em setores como agricultura, turismo, logística e economia azul. “A nossa visão não é apenas a indústria extrativa”, garantiu, sublinhando a importância de criar valor sustentável e emprego.
A economia moçambicana apresenta sinais de crescimento, com o PIB a crescer cerca de 3%. “Este crescimento de 3% demonstra que estamos num caminho de consolidação, mas queremos mais”, afirmou o Presidente moçambicano.
Juventude, conhecimento e tecnologia
Se há consenso absoluto entre os dois países, é na centralidade da juventude. “O futuro é a juventude”, afirmou Daniel Francisco Chapo, defendendo um investimento forte em educação, ciência e tecnologia. “Não há desenvolvimento sem capital humano”, reforçou, destacando o papel da formação e da inovação.
Também Portugal vê neste campo uma oportunidade de aprofundar a relação. “Temos centros de investigação fabulosos e ensino superior de excelência”, afirmou António José Seguro, defendendo uma maior integração entre universidades, investigadores e estudantes dos dois países. No entanto, o presidente português destacou que “não se pode manter a cooperação exclusivamente em relações históricas e em relações de que falamos a mesma língua porque isso vai-se perdendo ao longo de gerações”. Por isso, destaca o papel da cultura como o vínculo entre os dois países e os mais jovens.
A confiança foi identificada como condição essencial para o investimento. António José Seguro sublinhou que “o investimento precisa de previsibilidade e estabilidade”, enquanto Chapo garantiu que o país vive um momento de maior equilíbrio. “Só com diálogo podemos garantir paz, segurança e confiança”, afirmou, reforçando que o país goza neste momento de uma estabilidade política, económica e social. E garante que tem mantido diálogo com a socideade civil, ONGs e com todos os partidos políticos. Quanto a Cabo Delgado onde têm ocorrido ataques terroristas, diz estarem já mais controlados e que os projetos do gás que tinham sido suspensos já retomaram.
Alterações climáticas e cooperação
Outro tema incontornável foi o impacto das alterações climáticas, que afetam ambos os países. Cheias, ciclones e eventos extremos têm colocado desafios crescentes.
“Precisamos de infraestruturas resilientes e melhor planeamento”, defendeu o Presidente moçambicano. Do lado português, foi destacada a importância do conhecimento científico e da prevenção. “Hoje temos modelos que permitem reduzir os impactos destas catástrofes”, afirmou Seguro.
Num mundo cada vez mais instável, os dois países defendem uma maior coordenação internacional, nomeadamente no quadro da lusofonia.
“A língua portuguesa é uma vantagem comparativa”, afirmou Daniel Francisco Chapo, defendendo uma presença mais forte nos fóruns globais.
O horizonte temporal mais referido ao longo do debate foi o de uma década. A ambição é clara: aprofundar a cooperação económica, reforçar a mobilidade de pessoas e empresas e criar valor partilhado.
“Se conseguirmos manter esta relação já seria importante. Mas devemos ser mais ambiciosos: temos que aprofundar”, afirmou António José Seguro.
Entre energia, investimento, juventude e inovação, ficou a ideia de que a relação entre Portugal e Moçambique está a entrar numa nova fase — uma fase em que a história continua presente, mas deixa de ser o principal argumento. Agora, o foco está no futuro — e nos resultados.
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