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Buraka Som Sistema: o regresso do kuduro

Buraka Som Sistema: o regresso do kuduro

Depois de dez anos de ausência, os Buraka Som Sistema regressaram aos palcos e conseguiram agitar os corpos dos festivaleiros no Nos Alive. Numa noite quente, que mais quente ficou com o kuduro dos Buraka.
Esta banda internacionalizou o género musical angolano mais exportável e de maior penetração mundial, precisamente o kuduro. O kuduro nasceu no âmago do exaspero de um povo mergulhado numa guerra sem fim à vista. Constituindo-se como o clamor de liberdade e de expressão livre do corpo confinado a um espaço de violência.
O kuduro abrigou o choro das almas desabrigadas do sofrimento das mortes.  A cura das dores agudas das nossas almas esquecidas pelo tempo. A felicidade em tempo de tristeza e de dor. A resistência dos corpos que não aceitaram ser enterrados pelo coveiro filipado, o cadáver se meteu em pé e “o padre morreu”.
O kuduro foi e é o grito de liberdade de um corpo em vibração da dança livre, em busca da batida única e das paranoias e das noias das noites ensombradas de Luanda. O kuduro é transgressor das normas e das regras sociais convencionais impostas pela alta cultura, do bem-vestir, cantar, falar e estar. Impondo-se, efectivamente, contra o regaste dos valores tradicionais e dos puritanismos sociais. Porque é o ku que está duro. É a escrita registada das línguas africanas, onde a letra kapa resiste à toponímia reinscrita dos nomes em português oficial. O kuduro inventa, reinventa e reapropria a língua portuguesa sem o padrão rigoroso da norma do bem.
O kuduro dos Buraka é da casta de Angola, que no ambiente de Lisboa ganha substância. É a síntese da criação, invenção da reinterpretação do engenho e da arte do ser angolano em Lisboa.
O kuduro dos Buraka é o substracto artístico da matriz cultural angolana, sem a fronteira ou a nacionalidade purista. Porque o kuduro é cosmopolita, que não se limita às fronteiras e à pureza nacionalista do género que clama pelo solo pátrio. É, pois, uma expressão de liberdade e de transgressão da norma cultural autêntica que não se ajusta às normas ou às regras estéticas rígidas. Porque o kuduro é a arte de ser angolano, excessivamente.
Em boa hora regressam os Buraka, com o seu kuduro de Lisboa. Porque o kuduro é a exaltação do impossível em tempos difíceis, é nascido na guerra e formado no sofrimento dos guetos de Luanda. É a arte dos homens e mulheres livres que enaltecem o direito ao movimento do corpo ao som do vento em busca do sonho do amanhã.

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