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EurAfrican Forum 2026: O talento existe. As oportunidades é que continuam por construir

EurAfrican Forum 2026: O talento existe. As oportunidades é que continuam por construir

“Talento é a única coisa que existe de forma igualitária em todo o mundo. O que não há são as mesmas oportunidades.” A frase de Maria Mota, líder de grupo e CEO do Instituto Gulbenkian de Medicina Molecular, resumiu uma parte essencial do primeiro dia de trabalhos do EurAfrican Forum 2026. O ponto de partida não foi a falta de capacidade humana, de ideias ou de ambição. Foi a distância que ainda separa o talento das condições necessárias para que este possa desenvolver-se, competir e produzir resultados nos lugares onde nasce.
Sob o tema “Africa Rising: A Ascensão de África e a Prosperidade no Centro da Recuperação Global”, a nona edição do encontro reúne em Nova Business School, em Carcavelos, responsáveis políticos, empresários, investidores, académicos e representantes de instituições internacionais para discutir o lugar de África na economia, na inovação e na transformação geopolítica globais. A organização apresenta a cooperação internacional como um instrumento para converter o crescente peso do continente em prosperidade sustentável e estabilidade partilhada.
Na sessão dedicada ao capital humano, subordinada ao tema “Reforçar a Investigação em Saúde através da Cooperação Global”, tornou-se claro que a mobilidade dos investigadores e a participação em programas internacionais continuam a ser importantes, mas não podem substituir a criação de capacidade científica nos próprios países.
A questão não está apenas em permitir que investigadores africanos acedam às melhores universidades, laboratórios ou redes internacionais. Está também em garantir que o conhecimento adquirido se transforma em instituições locais, equipas permanentes e centros com massa crítica suficiente para competir, captar financiamento e responder às necessidades das suas populações.
“Programas globais. Criar estruturas locais”, defendeu Maria Mota, apontando para a necessidade de construir instituições capazes de sobreviver aos ciclos de financiamento, às mudanças políticas e à saída de investigadores. Sem essa base, a cooperação corre o risco de produzir percursos individuais relevantes, mas poucos efeitos estruturais.
A ideia foi reforçada por uma mensagem de urgência: “Temos de começar já. Não podemos ficar à espera.”
A investigação científica exige tempo. Formar equipas, criar laboratórios, consolidar redes de colaboração e desenvolver instituições credíveis não acontece num mandato político nem através de um único programa internacional. É precisamente por isso que o investimento deve começar antes de as próximas crises tornarem visíveis as fragilidades existentes.
O painel reuniu especialistas ligados à investigação, à saúde, ao financiamento climático e à cooperação internacional, procurando analisar de que forma o investimento nas pessoas, na ciência e nas parcerias pode contribuir para sociedades mais resilientes. Antes do encontro, a organização destacara precisamente a relação entre investigação científica, inovação, talento e desenvolvimento sustentável, apontando a cooperação global como meio para reforçar a investigação e criar oportunidades entre África e Europa.
Mas reconhecer a existência de talento obriga também a perguntar onde estão as condições para o fixar. Sem perspetivas de carreira, financiamento previsível, equipamentos, redes científicas e instituições estáveis, os países formam profissionais que acabam por desenvolver o seu trabalho noutros mercados.
O desafio não é impedir a mobilidade, que faz parte da ciência e da circulação internacional do conhecimento. É criar ecossistemas suficientemente fortes para que partir não seja a única forma de crescer e para que regressar não represente uma perda de condições profissionais.
Da capacidade humana à confiança económica
A mesma necessidade de criar condições surgiu no painel sobre comércio e investimento, dedicado à construção de confiança num mundo multipolar.
Num cenário em que os países africanos diversificam relações económicas e diplomáticas, entre Europa, China, Estados Unidos, Médio Oriente e outras geografias, o investimento deixou de depender apenas da disponibilidade de capital. Depende da existência de projetos estruturados, enquadramentos regulatórios previsíveis, instituições credíveis e relações que não se esgotem numa operação isolada.
A confiança não pode ser entendida como uma declaração de intenções. Constrói-se através da continuidade das políticas, do cumprimento dos contratos, da transparência nos processos e da capacidade de executar.
Para os investidores, isso significa perceber o risco real de cada mercado, em vez de aplicar ao continente uma leitura uniforme. Para os governos, significa melhorar a preparação dos projetos e reduzir as incertezas que dificultam a entrada de capital. Para as empresas, implica conhecer os territórios, estabelecer parcerias locais e assumir compromissos de longo prazo.
A questão central já não é apenas saber se existe interesse em investir em África. É perceber como transformar esse interesse em operações que criem emprego, desenvolvam cadeias de valor e reforcem a capacidade produtiva dos países.
Energia com impacto económico
Na sessão dedicada à energia, o debate afastou-se da ideia de que a transição pode ser conduzida através de uma única solução ou de um modelo igual para todos os países.
Construir futuros resilientes, sustentáveis e inclusivos implica reconhecer que os pontos de partida são diferentes. Em muitos mercados africanos, o desafio continua a ser garantir acesso à energia, aumentar a capacidade de produção, melhorar as redes e reduzir a dependência de sistemas pouco fiáveis.
A transição energética terá, por isso, de conciliar metas ambientais com industrialização, competitividade e inclusão. A energia não pode ser apenas produzida; tem de chegar às famílias, às empresas, aos hospitais, às escolas e às unidades industriais.
Também neste domínio o talento depende da infraestrutura. Engenheiros, técnicos, investigadores e empreendedores pouco podem fazer sem redes, financiamento, equipamentos e capacidade institucional. Do mesmo modo, novos projetos energéticos terão um efeito limitado se não contribuírem para formar profissionais, integrar fornecedores locais e criar conhecimento nos mercados onde são instalados.
O primeiro dia do Fórum foi, assim, aproximando dois debates que por vezes são apresentados separadamente: o investimento nas pessoas e o investimento nos sistemas que lhes permitem trabalhar.
Construir melhor e com propósito
Foi no painel sobre infraestruturas que essa ligação ganhou uma expressão mais concreta.
A mensagem principal não se concentrou na quantidade de obras, mas na qualidade das decisões que as antecedem. O foco deve ser construir melhor e com propósito.
Uma estrada, um porto, uma rede de abastecimento, um hospital ou um sistema de transportes não devem ser avaliados apenas pelo momento da inauguração. O seu valor depende da utilidade para as populações, da integração no território e da capacidade de continuar a funcionar ao longo do tempo.
Pensar nas pessoas, e não nos votos, significa ultrapassar a lógica de curto prazo que frequentemente conduz à escolha de projetos com maior visibilidade política, mas menor impacto económico ou social.
Neste sentido, três palavras atravessaram o debate: planear, executar e manter.
O planeamento permite definir prioridades, antecipar necessidades e integrar os projetos numa estratégia de desenvolvimento. A execução exige capacidade técnica, financiamento e coordenação. A manutenção garante que o investimento não se degrada poucos anos depois de concluído.
Sem esta visão de ciclo completo, as infraestruturas tornam-se mais caras, menos eficientes e menos atrativas para o capital privado.
A presença de empresas com atividade em construção, engenharia, indústria, logística e energia permitiu discutir as infraestruturas não apenas como obra física, mas como motor de conectividade, industrialização e soberania económica. A organização do Fórum apresentou-as como um fator de transformação, resiliência e prosperidade a longo prazo, capaz de fortalecer economias e aproximar territórios.
A entrada de capital privado depende, contudo, de projetos tecnicamente sólidos, modelos de financiamento credíveis e receitas suficientemente previsíveis. Os investidores procuram retorno, mas também estabilidade, clareza contratual e capacidade de gestão.
É por isso que a sustentabilidade das infraestruturas não se limita aos materiais utilizados ou ao impacto ambiental. Inclui a forma como são financiadas, operadas e mantidas.
Atrair investimento privado sustentado exige projetos sustentáveis: úteis, bem planeados, integrados numa estratégia e capazes de gerar valor económico e social durante décadas.
O talento como princípio e resultado
O primeiro dia do EurAfrican Forum começou, para efeitos do debate temático, com uma afirmação sobre a distribuição universal do talento e terminou com uma reflexão sobre as estruturas necessárias para lhe dar espaço.
Entre uma ideia e outra, surgiu uma conclusão: o capital humano não é apenas mais um setor da agenda. Está presente em todos os restantes.
Não há comércio sem gestores, logística e conhecimento dos mercados. Não há investimento sem instituições e equipas capazes de preparar projetos. Não há transição energética sem engenheiros, técnicos e empresas locais. Não há infraestruturas duradouras sem planeamento, manutenção e capacidade de gestão.
O talento existe. A tarefa política, económica e institucional é garantir que as oportunidades também existem e que não ficam concentradas apenas nos países, cidades ou organizações que já dispõem de mais recursos.
Para isso, não bastam programas temporários nem declarações de cooperação. É necessário criar instituições locais com massa crítica, financiar projetos a longo prazo, reforçar a capacidade de execução e construir infraestruturas orientadas para as necessidades das pessoas.
Começar já, como defendeu Maria Mota, significa aceitar que os resultados não serão imediatos. Mas significa também reconhecer que continuar à espera apenas prolongará as desigualdades que o talento, por si só, não consegue ultrapassar.

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