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“Em 10 anos o cavalo Lusitano será o melhor do mundo”

“Em 10 anos o cavalo Lusitano será o melhor do mundo”

Nasceu rodeado de cavalos, mas não de oportunidades. Na Figueira da Foz, o seu avô António Santos deslocava-se a cavalo — não por luxo, mas por necessidade. Era o seu único meio de transporte. “Ele nunca teve uma bicicleta, nem um carro”, relembra Leonel Santos. No entanto, essa herança não passou para a geração seguinte. O seu pai, José Santos, com seis filhos para criar, não podia alimentar esse encargo. Assim, durante anos, os cavalos ficaram à margem do ex-campeão nacional e europeu de equitação de trabalho, estando presentes nas suas memórias de infância, mas incansáveis.
Só aos 17 anos, quando muitos desistem dos seus sonhos, é que Leonel realizou o seu. Na época já ganhava o suficiente para pagar as aulas. Os primeiros galopes foram dados no Norte, na terra natal do avô. Foi nesse período que cruzou caminho com professores como João Moura Costa e Luís Valença, nomes de referência mundial no mundo equestre que lhe ensinaram que a base não se salta. Constrói-se dia a dia com muito treino e persistência.
Para ganhar a vida dedicava-se ao setor imobiliário, e à construção, enquanto a paixão pelo cavalo Lusitano cavalgava no seu peito. Foi viver para o Algarve, mais concretamente para Vilamoura. Então aconteceu algo que mudaria tudo. Conheceu Pedro Torres, campeão do mundo e da Europa de equitação de trabalho com o seu cavalo Oxidado, hoje ambos reformados, que o aliciou a participar em concursos. “Foi aí que vi algo que nem sei explicar. O cavalo movia-se como se tudo parecesse fácil. Sem esforço. Só com o entendimento e a união com o cavaleiro. É isto que quero para a minha vida!”, pensou. E fez!
“Deitava-me e ficava a magicar como superar algo que não tinha conseguido fazer com o cavalo. Telefonava aos “mestres” e a meio da noite, às escuras voltava ao picadeiro e treinava até conseguir atingir a excelência”. E conseguiu.
Os resultados começaram a aparecer. No ano seguinte, ganhou medalha de bronze, depois tornou-se vice-campeão nacional e, a seguir subiu duas vezes ao pódio como campeão nacional. Acabou por representar Portugal com mais quatro cavaleiros, tendo sido campeão da Europa por equipas, ganhando várias provas internacionais. Porém, quando fala, não se refere às medalhas. Exalta o cavalo lusitano. “Tem alma. Dá tudo! Quer sempre agradar. Seja um miúdo, um idoso ou um cavaleiro de topo”, garante, vaticinando: “Em dez anos, o cavalo Lusitano será o melhor do mundo”.
Júlio Vilhena é criador de puros lusitanos há 15 anos e proprietário do centro hípico Quinta das Cabreiras, em Azeitão e concorda com Leonel Santos. “O cavalo lusitano é incrível e acredito que será reconhecido como o melhor do mundo. Tem um carácter extraordinário e provou o seu valor nos Jogos Olímpicos”, relembra. Também João Ralão Duarte, Secretário-geral da Associação do Cavalo Lusitano (APSL), garante que o cavalo lusitano tem uma boa cabeça e uma boa moral. “É um cavalo profissional, mas também ideal para lazer. É escolhido por pessoas que querem segurança ao montar”, acrescenta, referindo que “consegue estar entre garanhões sem problemas. Ao contrário de outras raças”. O cavalo lusitano é bom para equitação de trabalho, dressage, atrelagem e toureio.
Na Quinta das Cabreiras, este ano nasceram vinte poldros entre fêmeas e machos que agora estão com as mães até aos seis meses para serem desmamados. A seguir vão para o campo onde ficam até aos três anos. Só depois é que serão ensinados pelo seu filho, Fábio Vilhena que se dedica à equitação de trabalho na escola, a qual tem 400 alunos rotativos. As melhores fêmeas nascidas poderão um dia substituir as mães. Questionado sobre o custo de criação de um cavalo, Vilhena adiantou que “para conseguir sémen de um garanhão topo de gama, o valor cifra-se entre os 1500 e os 2000 euros”, acrescentando que o investimento vai sendo colhido com o tempo. “Já vendemos garanhões treinados para a modalidade de equitação de trabalho para o Dubai, América, Canadá e Europa”.
João Ralão Duarte, também afirma não ser possível atribuir um preço fixo ao cavalo lusitano. “Há muitos fatores que influenciam o valor, como a idade, a genealogia, a aptidão e a capacidade” e diz que o preço vai dos 5 mil euros até um milhão. O responsável afirma que Portugal é o maior produtor mundial, seguido da Espanha, Brasil e França, sendo o Ribatejo e o Alentejo as zonas tradicionais de criação. No entanto, o Norte está a assistir cada vez mais ao nascimento de novos criadores. Contudo, o responsável da APSL garante que Portugal continua a ser quem dá o selo da raça. É o guardião.
Voltemos à coudelaria Leonel Santos situada em Vales de Pera. Foi com o apoio de Pedro Torres e do cavaleiro olímpico Carlos Pinto, que lecionou ali que o conhecimento e a técnica ajudaram na fundação do projeto.
Leonel chegou a ser criador e a não ter mãos para as encomendas, mas o clima algarvio seco e quente com pouco pasto levou-o a mudar de rumo. Mas ainda tem um cavalo do seu ferro, o Dólar em competição com a jovem cavaleira Constança Portugal. Gosta de ver os cavalos livres. Tem 27. “Todos estão soltos. Seja verão ou inverno. Têm água, palha e espaço”, diz, com um sorriso. Também não usam ferradura, o que permite que os cascos fiquem livres. Sem apertos.
Neste espaço tem um picadeiro onde treina e dá aulas particulares. “Não gosto de grupos porque não consigo prestar atenção a cada aluno. A equitação é sentimento”. É assertivo, mas exigente. Enquanto ensina está sempre a dar dicas: “Olhar sempre entre as orelhas do cavalo. Posição base, costas direitas, ombros para trás… Atenção aos calcanhares”, afirma, convicto. “ Agora, sem as mãos nas rédeas… Acredita. O cavalo tem de ser dominado por ti, desde a ponta dos cascos até à cabeça”, diz e continua: “Boa moça. Isso mesmo. Guarda as boas sensações”. No final, o aluno dá sempre um abraço ao cavalo em sinal de gratidão e um banho de recompensa para criar vínculo com o animal.
O espaço funciona também com programas semanais de férias, pensados sobretudo para quem procura uma imersão na equitação. “As pessoas vêm uma semana e vivem isto”, explica. Para colocar em prática a sua ideia construiu uma habitação própria para receber este tipo de turistas. Os participantes alternam entre aulas em picadeiro, trabalho no campo e passeios, incluindo saídas à praia, com um ritmo ajustado a cada pessoa. O programa inclui ainda um dia livre para explorar outras atividades no Algarve. Nem todos chegam com objetivos técnicos. “Alguns vêm só para passear o cavalo, escová-lo, dar-lhe banho. Às vezes não é sobre montar. É sobre estar”, afirma.
Mas é ao amanhecer e ao entardecer, que a coudelaria Leonel Santos faz a magia acontecer com os passeios “sunset” e “sunrise” com um custo entre os 65 e os 75 euros por pessoa. Filipe Guerra é quem leva os turistas a Vale do Lobo e com um sorriso rasgado vai chamando a atenção para as maravilhas que o Algarve tem para oferecer. Já na praia, Adam, um sueco que nunca tinha montado estava fascinado e teimava em galopar no Pombinho dando-lhe pequenos toques… Um pormenor: estava a montar a Glória. Claro, que a égua ciosa do seu nome resolveu não lhe obedecer, criando um momento divertido no grupo.
Quando perguntamos a Leonel o que quer do futuro, diz: “ter boas recordações, desfrutar das pequenas coisas e ter a humildade de aprender com quem sabe”. Sempre ao lado do cavalo lusitano. “São a minha fonte de felicidade”, confessa, enquanto faz uma festa na cabeça do majestoso Eros.

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