A carregar agora

Michael Burry aposta contra setor dos semicondutores. Vem aí um novo colapso?

Michael Burry aposta contra setor dos semicondutores. Vem aí um novo colapso?

Micron, Applied Materials, ambas fabricantes de semicondutores, e um external traded funds (ETF) de semicondutores (SOXX). Estes são alguns dos novos shorts (aposta na queda de um ativo) de Michael Burry o investidor norte-americano, conhecido por lucrar com a queda do mercado imobiliário norte-americano de 2008. As duas ações e o ETF contam com crescimentos explosivos desde o início do ano. Mas no último mês estão com fortes desvalorizações.
No último mês a Micron teve uma queda acentuada de 23,3% enquanto que a Applied Materials desvalorizou 12,4%. Já o SOXX desceu 17%. Mas se agulha for mudada para um período que vai do início do ano até hoje verifica-se que a Applied Materials já disparou 108,4% enquanto que a Micron valorizou 194,3% [valores retirados durante a sessão bolsista de 21 de julho]. No caso do SOXX subiu 73,2%.
No caso dos semicondutores entraram oficialmente num bear market, na sexta-feira 17 de julho, ou seja acumularam uma desvalorização de 20% face a um pico.
Numa altura em que a inteligência artificial (IA) e os semicondutores estão em voga no mercado será que existem fundamentos que justifiquem os novos shorts de Michael Burry? Ou estará o investidor norte-americano à beira de acumular perdas significativas apostando contra um setor em forte valorização? Os analistas consultados pelo Jornal Económico (JE) encontram motivos que justificam um short mas alertam: estar certo cedo demais pode sair caro.
“Michael Burry é bastante conhecido pela sua abordagem de investimento contra a direção do mercado (contrarian investing), mas a abertura de posições curtas (shorts) não garante uma desvalorização iminente dos ativos. Nos últimos anos, várias das suas estratégias semelhantes revelaram-se prematuras ou incorretas, resultando em perdas muito avultadas”, referem os analistas da XTB, Vítor Madeira e João Cruz.
No entender de Vítor Madeira e de João Cruz o elevado perfil mediático de Michael Burry introduz um “risco técnico”, uma vez que o mercado, especialmente investidores institucionais e algoritmos, “podem aproveitar a visibilidade” destas posições para forçar um short squeeze, “empurrando os preços para cima” antes de ocorrer qualquer correção fundamental e assim, liquidar as posições dele e daqueles que seguem as suas recomendações dele. “É igualmente crucial salvaguardar que estas posições podem não ser direcionais puras, mas sim instrumentos de cobertura (hedging) para mitigar o risco da carteira”, alertam.
Relativamente aos shorts que Michael Burry realizou à Micron, Applied Materials e o respetivo ETF de semicondutores, a análise fundamental demonstra que os resultados financeiros “têm suportado as fortes valorizações, impulsionados pela procura agressiva” na cadeia de valor da Inteligência Artificial, como as memórias HBM e os equipamentos de fabrico avançados, referem os analistas da XTB.
“Contudo, o setor de semicondutores é historicamente cíclico e o risco atual reside no facto de o mercado estar a cotar num cenário de “perfeição”, empurrando os múltiplos de avaliação para máximos históricos. Sob a perspetiva técnica, os indicadores de curto prazo começam a emitir sinais claros de sobrecompra (overbought), sugerindo que o mercado poderá atingir um ponto de inflexão ou de exaustão do atual movimento ascendente, sendo que isso significa que o mercado pode ficar lateral, não têm que necessariamente cair”, adiantam Vítor Madeira e João Cruz.
Os analistas da XTB adiantam que esta incerteza reflete-se na “elevada” volatilidade intradiária, com variações frequentes na ordem dos 5% tanto em sentido ascendente como descendente, o que demonstra o “nervosismo, a especulação e a falta de consenso” quanto à sustentabilidade destes preços no médio prazo. “Neste ambiente de expectativas muito elevadas, a margem de erro para estas cotadas é praticamente nula. Por conseguinte, qualquer catalisador negativo, seja uma revisão em baixa das projeções futuras (guidance), dados macroeconómicos que apontem para uma recessão ou sinais de abrandamento no investimento das empresas em IA, poderá desencadear uma correção agressiva e em cadeia, validando, eventualmente, a tese macroeconómica de Michael Burry”, explicam Vítor Madeira e João Cruz.
Para o analista da ActivTrades, Henrique Valente, em termos fundamentais, existem motivos para perceber a posição de Michael Burry. “As valorizações destas empresas já incorporam um cenário muito otimista, em que o investimento em data centers continua a acelerar e se traduz em receitas e margens elevadas durante vários anos”, adianta.
“A Micron beneficiou da forte procura por chips de memória para IA, mas continua a estar inserida num setor historicamente cíclico, vulnerável a excesso de oferta, pressão nos preços e reversão de margens”, refere Henrique Valente.
No caso da Applied Materials “também depende do ciclo de capex da indústria e pode ser penalizada” se surgirem sinais de excesso de capacidade, adianta o analista da ActivTrades.
“Do ponto de vista técnico, estes ativos estiveram em descoberta e só nas últimas semanas começaram a corrigir. Para quem partilha a visão de Michael Burry, há oportunidades de venda com risco relativamente bem definido pelos máximos recentes. Ainda assim, apostar contra este setor continua a ser arriscado. A narrativa da IA está em força e muitos investidores veem estas correções como oportunidades de compra. Burry pode ter argumentos fundamentais para estar short, mas o ponto decisivo continua a ser o timing. Numa bolsa americana dominada por momentum, estar certo cedo demais pode sair caro”, alerta Henrique Valente.
Os novos shorts de Michael Burry incluem ainda a Nvidia, Caterpillar, a Tesla. E adicionou uma posição longa (aposta na subida da empresa) na Lululemon.
Apesar da Nvidia ter exposição ao setor dos semicondutores está longe de ter as valorizações expressivas da Micron e da Applied Materials e também do ETF SOXX.
A Nvidia, que é a cotada mais valiosa do mundo, acumula uma subida de 8,6% desde o início do ano e cai 1,6% no último mês.
No caso da Caterpillar sobe 47% desde o início do ano e quebra 13,9% no último mês. Esta tem beneficiado com a procura que tem existido das empresas por inteligência artificial e centros de dados (data centers). A fabricantes de veículos elétricos Tesla desce 13,6% desde o início do ano e quebra 6,6% no último mês. E a marca desportiva Lululemon desce 45,2% desde o início do ano e sobe 9,5% no último mês.

Share this content:

Publicar comentário