Eurodigital: a oportunidade que a banca não deve ignorar
O rumo encontra-se definido e o Eurosistema tem a ambição de uma emissão do Euro Digital em 2029, antecedida de uma fase piloto já a partir de 2027. Para a Banca Portuguesa em particular, considero que o tempo de acompanhar o tema à distância chegou ao fim.
Durante algum tempo, o Euro Digital foi catalogado como algo negativo para a Banca em geral, pela perceção da pressão nas comissões, redução de depósitos e o peso de mais uma regulação de carácter obrigatório. É uma reação compreensível, mas, na minha leitura, um pouco redutora. Temos vindo a defender uma perspetiva distinta, que posiciona o Euro Digital como uma oportunidade para os Bancos usarem esta regulação para inovar na forma como disponibilizam aos seus clientes alguns dos seus produtos e serviços.
Adicionalmente, convém olhar para o que está de facto em causa. Na base desta regulação está a dependência da Europa de infraestruturas de pagamentos críticas que não controla. Segundo o Banco Central Europeu, os esquemas internacionais de cartões representavam cerca de 61% dos pagamentos com cartão na área do euro em 2022, evidenciando a dependência europeia de infraestruturas de pagamentos não controladas por entidades europeias. Nesta perspetiva, o Euro Digital assume-se como um instrumento de soberania.
Na perspetiva do cliente bancário, que ainda utiliza maioritariamente a aplicação do seu banco para consultar saldos e movimentos, o surgimento do Euro Digital pode alterar em parte esse padrão, ao trazer serviços de valor acrescentado que dão aos Bancos espaço para se diferenciarem, seja em cross-selling, em fidelização ou em novas fontes de receita. As possibilidades são muitas, como por exemplo pagamentos offline entre dois dispositivos, pagamentos condicionados que só se concretizam quando determinadas condições se verificam, pagamentos automáticos contra-entrega ou liquidação instantânea, sem dependência dos horários SEPA.
Nos próximos anos, a questão deixará de ser meramente técnica. Cumprir o regulamento será apenas o ponto de partida para todos os bancos. De acordo com a minha experiência, o que vai distinguir cada Banco é o que decidir fazer a partir daí, ou seja, tratar o Euro Digital como mais uma obrigação regulamentar, ou usá-lo como base para lançar produtos e serviços que hoje não existem. É na prática uma escolha de ambição e de estratégia.
Há, contudo, uma realidade que nenhum banco pode ignorar. A programabilidade, a liquidação instantânea e a integração de novos serviços assentam numa capacidade que muitas instituições ainda não possuem em pleno, isto é, plataformas core modernas capazes de operar verdadeiramente em tempo real.
Grande parte dos sistemas core atualmente em funcionamento foi concebida para uma realidade muito diferente da atual, assente em processamentos noturnos e não na resposta imediata exigida pelo mercado. Estes sistemas continuam a desempenhar de forma fiável as funções essenciais do negócio, mas o desafio é que já não respondem com a mesma eficácia às exigências estratégicas da banca moderna, onde velocidade, flexibilidade através de arquiteturas modulares e capacidade de adaptação são fatores críticos de competitividade e de geração de valor.
A dimensão da oportunidade é assim muito significativa e estudos da EY apontam para ganhos de eficiência operacional entre 20% e 35% através da adoção de processamento em tempo real e de níveis acrescidos de automação. Ao mesmo tempo, a capacidade de lançar novos produtos pode passar de ciclos de vários meses para apenas algumas semanas, permitindo uma resposta muito mais rápida às necessidades dos clientes e às exigências regulatórias.
Neste contexto, o Euro Digital vem também contribuir para acelerar uma decisão que muitas instituições têm vindo a adiar: a modernização do core bancário. Felizmente, o cenário atual é substancialmente diferente daquele que existia há alguns anos. Tenho observado nos últimos tempos que a evolução tecnológica reduziu de forma significativa os riscos associados a estes programas de transformação. Modelos assentes em arquiteturas modulares e em infraestruturas cloud oferecem hoje uma maior flexibilidade e menor complexidade do que as abordagens tradicionais, frequentemente marcadas por programas de implementação longos, dispendiosos e difíceis de controlar.
Além disso, a modernização deixou de implicar obrigatoriamente uma substituição integral da plataforma existente. As abordagens mais eficazes seguem uma lógica evolutiva, permitindo transformar componentes específicos de forma faseada, gerar benefícios ao longo do percurso e introduzir ajustes sempre que se justificar. Esta evolução gradual reduz o risco, facilita a gestão da mudança e acelera a geração de valor para o Banco.
Embora 2029 possa parecer distante, na realidade não o é. Acresce que os trabalhos de preparação do Eurosistema já estão em andamento e os pilotos previstos para os próximos anos, com o envolvimento de três entidades financeiras Portuguesas, irão criar exigências para o setor. As instituições que iniciarem desde já uma avaliação da sua prontidão tecnológica, definirem uma arquitetura de longo prazo e construírem um plano de modernização consistente estarão significativamente melhor preparadas para competir num novo ecossistema em que o dinheiro passará a existir também sob a forma digital.
A experiência da EY ao longo de mais de 130 programas de modernização de core bancário em diferentes geografias, identifica uma conclusão recorrente. Os projetos que geram mais valor raramente começam pela escolha da tecnologia. Começam sim pela definição clara do modelo de negócio futuro, pela compreensão dos benefícios a capturar e por uma visão estratégica partilhada pela gestão. A tecnologia é um facilitador crítico e fundamental, mas a transformação é, antes de mais, uma decisão de negócio.
Nas últimas semanas, a Europa deu passos decisivos para aproximar a moeda digital do Banco Central dos cidadãos. A Banca portuguesa enfrenta agora uma decisão estratégica. Pode encarar o Euro Digital como mais um exercício de conformidade regulatória ou utilizá-lo como catalisador para acelerar a sua transformação e modernização. A tecnologia existe, o calendário é conhecido e os sinais vindos da Europa são evidentes. A questão já não é se a mudança vai acontecer. É quem estará melhor preparado para tirar partido dela quando chegar.
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