Conflitos do Irão e da Ucrânia aproximam-se
A Ucrânia afirmou este fim de semana ter atacado rotas de longo alcance que transportavam equipamentos militares russos ligados ao Irão, ao mesmo tempo que o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, alegou que Moscovo forneceu a Teerão dados de satélite que auxiliam as suas forças a preparar ataques contra alvos norte-americanos no Oriente Médio. Ucrânia atingiu navios no Mar Cáspio envolvidos no transporte de artigos militares do Irão para a Rússia, segundo o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky. O país “obteve resultados muito bons com ataques de longo alcance no Mar Cáspio”, disse Zelensky nas redes sociais.
É desta forma que o campo de batalha da guerra que envolve o Irão está a expandir-se – apesar de as notícias não coincidirem na totalidade: algumas agências afirmam que o navio atacado transportaria material russo para o Irão, mas outras dizem precisamente o contrário: que o material transportado seria iraniano com destino à Rússia. Para todos os efeitos, há uma ligação estabelecida entre os dois cenários de guerra – Kiev fica a três mil quilómetros de Teerão – o que de alguma forma pode ‘mundializar’ os conflitos.
Só para piorar, a Roménia passou o fim de semana a abater drones russos (três) que estavam no espaço aéreo romeno – país da costa do Mar Negro que faz fronteira com a Ucrânia e com a Moldávia (país de que faz parte a Transnístria, onde vivem muitos russos e russo-descendentes).
Esses acontecimentos acrescentaram novas dimensões à crise entre o Irão e os Estados Unidos e vincularam o confronto entre Teerão e Washington à guerra entre a Rússia e a Ucrânia, colocando novamente em evidência o papel de Moscovo no apoio ao Irão, disseram analistas citados pela agência Euronews.
Nas redes sociais, o presidente ucraniano afirmou que, desde o início de julho, satélites russos têm monitorizado ativamente os países do Golfo e instalações militares norte-americanas na região, e têm passado as imagens obtidas ao Irão. Segundo Zelensky, existe uma “clara correlação” entre as imagens de satélite russas desses locais e os ataques iranianos. Zelensky também afirmou que, nos dias 19 e 20 de julho, bases aéreas norte-americanas no Bahrein (duas), Jordânia (uma) e Kuwait (uma) estavam dentro do alcance de observação dos satélites russos. “As forças do mal estão sempre a tentar piorar a situação e ampliar o alcance da crise”.
O Irão afirma que uma das embarcações visadas no Mar Cáspio era um navio mercante iraniano e que um marinheiro foi morto e vários outros ficaram feridos no ataque. Em resposta ao ataque da Ucrânia, Teerão convocou o encarregado de negócios interino da Ucrânia para comparecer no Ministério das Relações Exteriores iraniano para apresentar um protesto formal contra o ataque. A agência iraniana de notícias IRNA informou que, durante essa reunião, o Irão enfatizou que “a República Islâmica defenderá firmemente a sua segurança e os seus interesses nacionais e não deixará sem resposta os ataques contra a vida e a propriedade dos seus cidadãos”.
O ex-parlamentar iraniano Nezameddin Mousavi reagiu ao que descreveu como um ataque militar ucraniano contra um navio comercial iraniano no Mar Cáspio, afirmando que “a resposta a esse espetáculo de fogos de artifício no Mar Cáspio deve vir do Mar Negro”, e acrescentou que a suposta ação da Ucrânia deveria levar o Irão a reconsiderar o seu limite autoimposto de dois mil km para o alcance dos seus mísseis balísticos.
No entanto, a Ucrânia apresentou uma versão diferente do incidente. O embaixador ucraniano em Israel, Yevgen Korniychuk, afirmou que a embarcação alvejada pela Ucrânia no Mar Cáspio no sábado transportava componentes para drones e mísseis que seriam enviados para o Irão. Korniychuk rejeitou a alegação do Irão de que o navio transportava carga civil, afirmando que a Ucrânia considera tais carregamentos alvos militares legítimos. E acrescentou que esta não foi a primeira vez que a Ucrânia teve como alvo o que descreveu como fornecimento militar ligado ao Irão, e disse que Kiev espera que operações semelhantes continuem no futuro. “Israel e Ucrânia estão a lutar contra o mesmo inimigo”, disse Korniychuk.
Ao mesmo tempo, o Ministério das Relações Exteriores do Irão afirmou que o ministro, Abbas Araghchi, condenou o ataque num telefonema com a principal diplomata da União Europeia, Kaja Kallas, e pediu uma resposta do Conselho de Segurança da ONU, da União Europeia e da comunidade internacional. A ligação entre Araghchi e Kallas ocorreu apenas dois dias depois de a União Europeia ter imposto novas sanções ao Irão por violação dos direitos humanos.
Os comentários de Zelensky surgiram um dia depois de o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ter assegurado que a Rússia e a China não fornecem armas ao Irão. E alegou que tanto Xi Jinping como Vladimir Putin lhe afirmaram que não o fariam. “Portanto, os dois países que são frequentemente mencionados em relação ao seu papel com o Irão, na minha opinião, não estão envolvidos nesta questão”, acrescentou Trump. Se a Rússia ou a China tomassem tal medida, “seria muito mau para elas” e “não seria do seu interesse”. As declarações de Trump não são de molde a descansar os analistas, dado que, como dizia há umas semanas o chanceler alemão, o presidente dos Estados Unidos é, no cenário internacional, frequentemente enganado. “Os iranianos andam a gozar com Trump”, disse, despoletando um conflito diplomático entre Berlim e Washington que ajudou à decisão de Trump de retirar tropas norte-americanas estacionadas na Europa.
Entretanto, nos céus da Roménia
O Ministério Público da Roménia determinou que um drone interceptado pelas forças romenas na sexta-feira era do tipo Shahed, usado pela Rússia na guerra contra a Ucrânia. O presidente romeno, Nicușor Dan, anunciou que um terceiro drone foi abatido pelas forças romenas em apenas três dias, somando-se a uma série de incidentes relacionados a drones no país.
Em comunicado, Dan afirmou que um caça F-16 da Força Aérea Romena intercetou um drone sobre as águas territoriais da Roménia por volta das 10h13 da manhã de domingo. O incidente teria ocorrido na região de Sulina-Chilia, no Delta do Danúbio, próximo com a fronteira da Ucrânia. As autoridades romenas informaram que um caça F-16 abateu outro veículo aéreo não tripulado na manhã de sábado, a cerca de 10 km a oeste da vila de Sfântu Gheorghe, no leste da Roménia. Um terceiro drone foi abatido por um F-16 romeno por volta das 11h da manhã da passada sexta-feira.
Embora as investigações sobre os drones abatidos no sábado e no domingo ainda estejam em andamento, o presidente afirmou ser “intolerável que a Federação Russa continue a violar o espaço aéreo da Roménia”. “Tais ações são inaceitáveis e estamos a tratá-las com a máxima seriedade, juntamente com os nossos aliados”, acrescentou.
Bucareste registou um aumento nos incidentes relacionados a drones e incursões no espaço aéreo romeno nos últimos meses, o que levou as autoridades a prometerem medidas de segurança reforçadas em todo o país. Em maio, um drone russo carregado com explosivos caiu num prédio de apartamentos em Galați, cidade romena, provocando um incêndio no telhado e ferindo duas pessoas. No mês seguinte, um drone ucraniano também explodiu no porto romeno de Constança. Os militares ucranianos afirmaram que a aeronave se desviara da rota devido à interferência de guerra eletrónica russa.
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