Mudar para ter sucesso
O processo de privatização da Azores Airlines foi relançado para cumprir uma das medidas centrais do Plano de Reestruturação acordado entre o Governo Português, o Governo Regional dos Açores, a SATA e a Comissão Europeia. Depois de tentativas anteriores sem êxito, a última das quais no início de 2026, era essencial aprender com o passado e incorporar essas lições no novo processo. E foi isso que fizemos.
A primeira mudança está no próprio modelo de alienação. A experiência demonstrou que o concurso público internacional, rígido e burocrático, é pouco adequado à venda de um ativo desta natureza. Os investidores internacionais estão habituados a processos de compra e venda standard. Optámos, por isso, pela negociação particular, mantendo integralmente as regras de transparência e de concorrência. A privatização de empresas públicas por concurso público é, aliás, a exceção e não a regra.
A segunda mudança é a clareza sobre o papel futuro do acionista público. Os potenciais parceiros privados podem ter no acionista público um parceiro minoritário, mas a Azores Airlines precisa de gestão privada. Por isso, o Governo Regional dos Açores afirma de forma taxativa que está disponível para vender, pelo menos, 75% do capital. Parece um detalhe, mas faz toda a diferença para quem avalia o ativo numa fase inicial.
A terceira mudança, porventura a mais relevante, é a redefinição do próprio objeto da venda. O ativo foi limpo dos seus principais fatores históricos de complexidade: a dívida financeira intragrupo será assumida pela SATA Holding, as responsabilidades futuras com pré-reformas ficam salvaguardadas e os recursos humanos serão ajustados à real dimensão da Azores Airlines. Esta última medida corrige uma distorção histórica, já que a maioria do backoffice do Grupo SATA estava concentrado na companhia. O resultado é um balanço equilibrado e uma demonstração de resultados que permite vislumbrar o break-even, refletindo uma situação operacional normalizada.
A estas medidas somam-se os princípios standard de mercado adotados nas recentes privatizações em Portugal: assunção de parte da dívida a fornecedores e garantia de um fundo de maneio mínimo, alinhado com os indicadores dos principais concorrentes europeus.
O acionista público tomou decisões corajosas e atuou como atuaria um privado na preparação da venda. O mais confortável seria nada mudar. Fez-se o contrário: assumiram-se responsabilidades e riscos para maximizar as probabilidades de sucesso e garantir um futuro para a SATA.
O contexto é exigente. A consolidação do setor aéreo europeu é um fator positivo e o ativo continua a despertar bastante interesse, o enquadramento macroeconómico é desafiante e a privatização simultânea da TAP acrescenta incertezas, mas também oportunidades. Acreditamos ter feito tudo o que estava ao nosso alcance, até porque podemos não ter outra oportunidade.
Uma palavra final para os trabalhadores do Grupo SATA, cuja resiliência ao longo de anos de incerteza merece reconhecimento exemplar. Juntos asseguraremos o futuro das empresas do Grupo, sejam públicas ou privadas.
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