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Rali Vinho da Madeira 1982: o ano da estreia de um símbolo, e do ‘Vinho’

Rali Vinho da Madeira 1982: o ano da estreia de um símbolo, e do ‘Vinho’

Há anos que não começam apenas um novo capítulo — inauguram uma identidade. Em agosto de 1982, a velha Volta à Ilha da Madeira vestiu, pela primeira vez, o nome que se tornaria quase eterno: Rali Vinho da Madeira. Mais do que uma designação comercial, foi um selo de ambição e de maturidade, como se a prova assumisse, de vez, o seu lugar no mapa europeu.
A ilha, já habituada ao eco dos motores nas encostas e ao perfume quente dos travões nas descidas, recebia um pelotão de 75 equipas, num traçado exigente, todo em asfalto. Era verão, mas não havia férias para o rali: o coeficiente europeu elevava a fasquia, e com ela chegavam nomes e máquinas de outro calibre.
O futuro à vista: estreia do Lancia 037Entre Escort, Ascona e Porsche, havia um protagonista silencioso, ainda por provar: o Lancia Rallye, o futuro 037. Pela primeira vez em Portugal — e numa configuração inovadora com injeção, capaz de debitar 304 cv — surgia como promessa de uma nova era.
Andrea Zanussi levou-o para a estrada com o peso da expectativa. E, durante os primeiros troços, confirmou-se o que muitos suspeitavam: o Lancia tinha andamento para vencer. Alternando no comando com Tony Fassina, protagonizou o duelo mais puro da prova.Mas a Madeira raramente concede finais previsíveis. Um motor partido retirou o 037 da equação, interrompendo não só uma luta intensa, mas também um vislumbre do futuro. “Veio roubar muito interesse ao rali”, notava-se então — e com razão.
Fassina, McRae e a arte de controlarCom o abandono de Zanussi, Tony Fassina herdou a liderança e nunca mais a largou. No Opel Ascona 400, fez do controlo uma virtude, gerindo distâncias com precisão quase clínica face a Jimmy McRae. A primeira etapa decidira praticamente tudo. A segunda, longa e dura, foi um exercício de resistência. Fassina limitou-se a vigiar, McRae a esperar por uma oportunidade que nunca surgiu.
Atrás, Joaquim Santos ainda tentou intrometer-se na luta pelo pódio. Num Escort menos potente — penalizado pela ausência de injeção —, bateu-se com determinação. “Não se impressionou com a concorrência estrangeira”, escrevia-se, num reconhecimento claro do seu momento de forma. Mas um furo e a prudência da Diabolique acabariam por travar o assalto ao terceiro lugar.
Entre erros, dureza e sobrevivênciaSe a frente estabilizou cedo, o rali fez-se, como tantas vezes, na margem do imprevisto. Logo na classificativa inaugural, com 31 quilómetros, oito equipas ficaram pelo caminho. Aly Kridel, vencedor de 1981, foi uma das vítimas.Houve despistes violentos, como o de Rui Souto, com o acelerador bloqueado, ou a saída de estrada da dupla Henn/Wuensch, que caiu dezenas de metros abaixo da estrada. E houve também resistência quase teimosa, como a de equipas que seguiram em prova após embates ou com problemas mecânicos graves.Nem a organização escapou. Excesso de zelo nas verificações, erros de cronometragem, penalizações mal atribuídas — episódios que marcaram a prova, mas não apagaram o essencial: a dureza única do rali madeirense.
A força da casa e o eco do tempoNum pelotão internacional, os madeirenses voltaram a afirmar-se. Marco Abreu brilhou com um sexto lugar absoluto e vitória no Grupo 2, enquanto Carlos Reis, Paulo Oliveira e Cristiano Sousa impuseram a lei da casa nos respetivos agrupamentos.
E depois havia o público. Sempre o público. Nas bermas estreitas, nas curvas cegas, nas noites húmidas da serra, incansável — como com Antonella Mandelli, cuja popularidade resistia ao resultado. No final, apesar das falhas, a FISA tomou uma decisão reveladora: elevou o coeficiente da prova ao máximo. Um reconhecimento claro de que, ali, havia algo especial — uma mistura rara de exigência, espetáculo e identidade.
Hoje, olhar para 1982 é perceber quando tudo se alinhou: o nome, o prestígio, a projeção internacional. E também quando o futuro — sob a forma de um Lancia ainda em construção — passou pela Madeira. Ficou a vitória de Fassina nos registos. Mas ficou, sobretudo, a sensação de que aquele rali já não era apenas uma prova: era um destino.
FOTO criada por IA
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