Verão nem sempre azul
É triste no outono concluir
que era o verão a única estação
“A Mão no Arado”, Ruy Belo
O Verão presta-se à ociosidade, à descontração, ao repouso. É um convite à boa-vai-ela e, por isso, muitos preferem esta estação para gozar as “férias grandes”. Entre junho e setembro, aproveitam-se os favores da meteorologia para espairecer, quebrar rotinas e repor energias depois de um ano de trabalho.
No nosso país, não faltam bons destinos para veranear e ir a banhos. Mas o Verão português é agridoce. Se de facto são muitas as opções turísticas e o setor do turismo é um dos mais dinâmicos da Europa, também é verdade que, em 2024, 35,2% dos portugueses admitia não ter condições financeiras para passar uma semana de férias fora de casa.
As férias caseiras de muitas famílias são consequência dos baixos salários em Portugal. Incluindo no setor do turismo, que, apesar do extraordinário crescimento dos últimos anos, oferece salários 25% abaixo da média nacional. À semelhança de muitos outros setores, o turismo ainda privilegia o volume sobre o valor acrescentado, embora haja sinais de que esta tendência esteja a ser invertida.
O salário médio português é o 10.º mais baixo da UE: 1700€ brutos para 3.300€ na média dos 27. E a explicá-lo está, em grande medida, o crónico problema da produtividade. Em Portugal, a cada hora, um trabalhador gera em média 29€, contra 44€ na Europa. No final de um dia de trabalho de oito horas, estamos a falar de uma diferença de 120€.
Sabemos que a produtividade é menor nas micro e pequenas empresas, que constituem o grosso do tecido empresarial. Mas também é mais baixa nos setores de mão de obra intensiva, baixo valor acrescentado e foco no mercado interno. Para se ter uma ideia, nos setores das finanças, energia e telecomunicações a produtividade é de 60€/hora e no setor das tecnologias da informação de 52€/hora. Muito diferente é a produtividade nos setores da construção civil e do turismo: 22€/hora e 17€/hora, respetivamente.
Quando a produtividade aumenta, as empresas podem pagar salários mais elevados sem comprometer a sua competitividade. Esta lapalissada esconde, porém, o quão complexo é tornar o esforço humano produtivo. A produtividade é exponenciada se o trabalhador estiver integrado numa empresa com cultura organizacional, eficiência e investimento contínuo em qualificação, equipamentos, tecnologia e inovação.
Em suma, vamos ter de mudar estruturalmente o tecido empresarial português. Isto significa elevar o perfil de especialização da economia, para que nela predominem os setores de maior valor acrescentado e intensidade tecnológica. Com este propósito, importa acelerar a simplificação administrativa, fazer da fiscalidade um incentivo ao investimento, capacitar as empresas para a transição digital e verde e tornar o mercado de trabalho mais flexível e adaptado às transformações tecnológicas. Tudo isto para que os portugueses ganhem poder de compra e possam usufruir, condignamente, do nosso Verão azul.
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