A saudosa última viagem do Táxi mais rápido da Madeira: Quando o 190E 2.3-16 pendurou o Taxímetro
Haverá, por certo, quem defenda que o transporte público de passageiros deve pautar-se pela prudência, pela suavidade na travagem e pelo estrito cumprimento dos limites de velocidade. Mas essa gente manifestamente nunca cruzou a ilha da Madeira a bordo do Mercedes 190 E 2.3-16 de António Freitas.
Durante uma década inteira, as estradas florestais e o asfalto abrasivo da “Pérola do Atlântico” assistiram a um fenómeno sociológico e desportivo sem igual: o lendário “Taxi Driver português”, um homem que decidiu que a melhor forma de ligar um ponto A a um ponto B a uma velocidade estonteante era aos comandos de um sedã alemão com ‘manias’ de bólide de rali e alma de praça de praça de táxi.
Pois bem, tudo o que é bom acaba — ou, pelo menos, ganha direito a reforma com direito a indemnização por desgaste de pneus. O adeus definitivo ao Rali Vinho Madeira deu-se em 2004, e marcou também a derradeira viagem oficial desta máquina lendária, que se preparou para trocar as estradas encrespadas por uma vénia silenciosa e um futuro de “teias de aranha” numa qualquer garagem insular. Foram mais de 50 ralis disputados, dezenas de troços devorados a pneu queimado e um arquivo infindável de memórias dignas de comédia de costumes.
Como o próprio proprietário recordava, com o orgulho legítimo de quem nunca teve medo de usar o travão de mão em pleno empedrado madeirense, as anedotas acumulavam-se de cronómetro na mão: era vê-los, invariavelmente, no meio dos troços, com os espetadores a fingir acenar à beira da estrada para “chamar o táxi” ou a perguntar com a maior das calmas, nos controlos horários, quanto é que marcava o taxímetro depois de uma especial feita a ‘fundo’. A troça popular era o reflexo exato da cumplicidade entre o público e um carro que parecia ter saído direto de uma praça da cidade para a luta com os monstros do Grupo N e dos Kit Car.
Contudo, contra os factos não há argumentos e, por muito bom gosto que o motor Cosworth tenha demonstrado ao longo de mais de 50 provas, a idade pesa para todos — sobretudo quando o relógio insiste em andar mais depressa do que os cavalos-vapor sob o capot. A hora da reforma chegou, mas com uma estipulação contratual estritamente sagrada: o simpático Mercedes só sairia de cena para as mãos certas. Ou seja, seria vendido exclusivamente “a um taxista”, numa bela homenagem poética à vocação imaginária da máquina, e com um objetivo financeiro muito nobre: ajudar a apadrinhar a compra de um novo e reluzente Mercedes “CLK”.
Adeus, 190! Obrigado pelas ‘atravessadelas’, pelas curvas de traseira a fugir e por provar que, com o condutor certo, até uma viatura de serviço de praça pode fazer corar de vergonha os ases do cronómetro europeu. Que o taxímetro descanse em paz.
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