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Macau quer ligar China e mercados hispânicos onde é “largamente desconhecido”

Macau quer ligar China e mercados hispânicos onde é “largamente desconhecido”

Depois do universo de língua portuguesa, Macau quer ser ponte entre a China e os países que falam espanhol, mas, enquanto se procuram acordos para dar forma à estratégia, os académicos dividem-se sobre a viabilidade da política.
Carlos Martin, professor associado de Relações Internacionais na Universidade Europeia de Valência, considera que Macau tem “um potencial ainda por explorar” e “bases para se tornar o conector natural” entre as duas partes, mas continua a ser “largamente desconhecido nesses mercados”, disse à Lusa.
Para Martin, a ligação cultural entre Macau e os países hispanófonos é relevante, fruto da experiência lusófona, mas não é suficiente: “A dimensão das empresas, os setores envolvidos, a mão de obra necessária” são fatores que influenciam a “perspetiva dos governos regionais e a forma como consideram a cooperação e o equilíbrio do envolvimento”, alertou.
O Governo da região administrativa especial chinesa deve “executar uma estratégia inteligente para ativar as ligações certas”, de modo a que os setores civil e empresarial olhem para o território “como a melhor opção para operar na China”, sugeriu ainda.
Questionado sobre se Macau tem capacidade de ser essa ponte, Juan Enrique Serrano Moreno, professor associado do Instituto de Estudos Internacionais da Universidade do Chile, foi perentório: “Não creio”.
“Não penso que Macau venha a tornar-se um centro de negócios para empresários latino-americanos. Há formas mais eficazes através de centros de negócios na China continental e, em menor medida, em Singapura”, indicou à Lusa o analista chileno.
Laura Botta é uma ‘influencer” espanhola com quase um milhão de seguidores no TikTok. Veio a Macau para tratar do visto e regressar à China, onde está a viajar há já alguns meses. Antes de planear a viagem, pouco sabia da cidade, para além de uma campanha do Turismo de Macau, que viu ainda em Madrid.
Conseguir ler os letreiros das ruas de uma cidade chinesa foi para a ‘influencer’ a maior surpresa. “É tão fixe virmos e vermos tudo em português, porque conseguimos perceber algumas coisas”, disse à Lusa, acrescentando que “a cidade tem muito para oferecer” e que “voltará, sem dúvida”, se surgirem “oportunidades de negócio”.
A língua é vista como uma via importante na estratégia de aproximação e Macau está a preparar esse terreno, mas a determinação das políticas tem ainda caminho por percorrer.
A Direção dos Serviços de Educação e de Desenvolvimento da Juventude (DSEDJ) indicou à Lusa que, nos últimos anos, as instituições de ensino superior de Macau introduziram o espanhol como disciplina principal ou opcional, acrescentando que incentiva as instituições a oferecerem programas relacionados com a cultura e economia dos países de língua espanhola, com vista a formar “profissionais completos e com uma mentalidade internacional em várias áreas”.
No ano letivo de 2025/2026, quase 180 estudantes de vários países de língua espanhola, incluindo Espanha, Argentina e Chile, vieram para Macau estudar em instituições de ensino superior locais, ainda segundo a DSEDJ.
Nuno Gomes, professor de espanhol na Universidade de Macau (UM), faz uma descrição mais objetiva e menos positiva dessa formação. A universidade “só abre dois cursos de nível 1 e um curso de nível 2”, disse à Lusa, acrescentando que falou com os superiores diretos sobre a possibilidade de alargar o currículo “em várias ocasiões, mas mantêm-se sem interesse em desenvolver o espanhol”.
Na UM, os cursos de espanhol estão sob a alçada do Departamento de Português. O antigo diretor desta unidade, João Veloso, disse, porém, à Lusa, em maio, que a decisão de desenvolver o espanhol “não cabe ao Departamento de Português”, mas sim à liderança da universidade.
No entanto, “faria algum sentido”, considerou, notando que a aposta em línguas estrangeiras por parte da UM permanece “pouco diversificada”.
“Há uma visão um bocadinho fechada do ensino de línguas estrangeiras em Macau”, observou ainda em declarações à Lusa.
O Governo chinês definiu em 2003 Macau como uma ponte entre a China e os países de língua portuguesa, papel que foi alargado em 2025 pelo atual chefe do Executivo, Sam Hou Fai, para abranger também os 21 países de língua espanhola.
O interesse de Macau em atrair negócios provenientes do mundo hispânico tem como principal braço o Instituto de Promoção do Comércio e do Investimento (IPIM), que manifestou à Lusa a intenção de continuar a “atrair investimento dos países de língua espanhola para Macau”, com visitas ao exterior.
Até ao final de junho, o IPIM registou mais de uma dezena de propostas de investimento em Macau de Espanha, Argentina, México, Uruguai e Panamá, três das quais concretizadas, no valor de 27 milhões de patacas (3,1 milhões de euros).
O Governo de Macau oferece financiamento até um milhão de patacas (cerca de 115 mil euros) para o estabelecimento de uma marca em Macau, campanha que atraiu mais de duas dezenas de manifestações de interesse por parte de empresas espanholas.
Por outro lado, a Feira Internacional de Macau em outubro próximo contará, “pela primeira vez”, com um pavilhão espanhol e fóruns sobre a China, com o objetivo de “reforçar a rede de negócios de Macau”, ainda segundo o IPIM.
A China é atualmente o segundo maior parceiro comercial de toda a América Latina, tendo o comércio bilateral atingido o recorde de 518 mil milhões de dólares (cerca de 450 mil milhões de euros) em 2025.

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