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Eça, Os Maias e as janelas digitais

Eça, Os Maias e as janelas digitais

Eça viu como ninguém o mundo que o rodeava e descreveu-o com tal acutilância que o seu poder de observação e crítica parecem, muitas vezes, intemporais, aplicáveis a qualquer período da nossa história. Basta lembrar que a marca de um grande escritor é quando o nome dele passa a ser um adjetivo. Ao dizermos “isto é muito queirosiano” estamos a reforçar essa importância. Como dizer que um dado processo é ‘kafkiano’. Mais. A verve com que retratou a sociedade oitocentista extravasou para o discurso mundano através de expressões usadas pelas suas personhagens, como “está um calor de ananases”, tão oportuna então como agora por estes dias de estio.
Publicado em 1888, o romance “Os Maias” é considerado um dos mais importantes da literatura portuguesa e está integrado nas leituras obrigatórias do ensino secundário. É a pensar nos jovens de 14, 15 anos que enfrentam a escalada deste Kilimanjaro que o diretor editorial da Quetzal, Francisco José Viegas, enquadra este projeto. Mas não só, também se dirige aos professores “que dão Os Maias por obrigação”, e a todos os leitores que pretendam “caminhar pelo romance como se pertencessem àquele mundo”, explicou por ocasião da apresentação desta nova edição. A ideia é devolver aos leitores do século XXI o contexto histórico, político, cultural e social que os leitores de 1888 possuíam naturalmente.
É aqui que Carlos da Maia, Maria Eduarda, João da Ega, Tomás de Alencar e muitas, muitas outras personagens se cruzam com a tecnologia. Mais concretamente com códigos QR. Ou seja, sempre que se justifique, no final da página, o leitor encontrará o já famoso ‘quadradinho’, que o ajudará a esclarecer as múltiplas referências espalhadas ao logo da narrativa, que remetem para assuntos tão diversos como figuras históricas, geografia, toponímia, política, literatura, música, pintura, moda, gastronomia, instituições e até objetos do quotidiano oitocentista.
O teaser da Quetzal esgrime perguntas, a título de exemplo. O que foi o Centro Progressista?, e o que significava ser bonapartista. Ou quem foram Guizot, Mendelssohn, Michelet, Byron e Renan? Para que servia um coupé? Porque são importantes o Colares e o Bucelas? Para que servia um Wedgewood? E o xarope de codeína? E o Rappel? E quem eram os niilistas ou «um 93, como em França»?
Francisco José Viegas explica como surgiu esta ideia. “Foi depois de ler uma entrevista de Vladimir Nabokov. Ele dava um curso numa universidade americana sobre «Ulisses», de James Joyce, que é um livro extremamente complexo e um grande emblema da modernidade europeia.” Numa entrevista à publicação francesa ‘Paris Review’, “o jornalista, muito culto, pergunta-lhe: ‘as suas aulas sobre o Ulisses falam sobre o quê? O tempo, o mito…’. Não, responde Nabokov. A primeira coisa que peço aos meus alunos é que comprem o mapa de Dublin. E a segunda, o mapa dos transportes de Dublin daquela altura”. Daí o responsável da Quetzal insistir que “conhecer a geografia da Lisboa de «Os Maias» é uma das formas de entrar no romance.”
Tal como é essencial que os alunos de hoje não se desinteressem e passem “à frente” por não conhecerem o contexto, as referências normais “para um autor culto como Eça” e também para os leitores oitocentistas. “Mas que não são normais hoje, que hoje não conhecemos, que os nossos filhos não conhecem, e desculpem, muitos professores também não, e que levantam dificuldades para ler um livro de leitura obrigatória. Um livro que é central no nosso cânone, que é central na nossa memória cultural”, explica Francisco José Viegas.
O seu entusiasmo não é inocente. Eça de Queirós é o autor das duas obras que mais leu até hoje: “A Cidade e as Serras” e “Os Maias”. Por esta ordem. E por razões tão diversas que vão do humor à utilização da linguagem. Mérito de Eça, que foi quem criou o português moderno. Não admira, por isso, que este projeto queira recuperar dimensões da obra que frequentemente passam despercebidas – e em particular a quem a tem de estudar, os mais novos –, entre elas o humor, a ironia e a riqueza das personagens criadas por Eça.
Com a ajuda das janelas digitais, leia-se códigos QR, os leitores podem aceder a uma rede de notas explicativas digitais, que remetem para fontes abertas, desde páginas institucionais, arquivos, museus e enciclopédias, a plataformas de consulta pública e, em muitos casos, a conteúdos multimédia.
Se a opção fosse colocar todas as referências em livro, teríamos “uma edição de três mil páginas”, esclarece Francisco José Viegas. “O que pretendemos é que as pessoas tenham acesso à informação.” Com os códigos abrem-se mundos. “Como ouvir os trechos musicais referidos no episódio da récita do São Carlos, ou ver a pintura do Velázquez de que há uma cópia no Ramalhete”, acrescenta. Não esteve só nesta empreitada. O historiador André Canhoto Costa definiu mais de duas centenas de links para todos os leitores poderem desbravar “Os Maias”.
“Chique a valer” – outra expressão imortalizada nesta obra pelo excêntrico Dâmaso – é o quiz com 100 perguntas que acompanha a obra. Lúdico, sim, mas pensado para os leitores testarem os seus conhecimentos sobre episódios, personagens, diálogos, refeições, locais e outros detalhes do universo de “Os Maias”. Divertindo-se, claro. E aprendendo. É essa a ideia do quizz, cujas respostas, acessíveis através dos códigos QR, têm, também, a ‘mão’ de André Canhoto Costa, autor publicado pela Quetzal.
No início do próximo ano, deverão ser publicadas novas edições de “Amor de Perdição”, de Camilo Castelo Branco, e de “Viagens na Minha Terra”, de Almeida Garrett. Outras se seguirão, estando já pensadas “As Pupilas do Senhor Reitor” ou “Os Fidalgos da Casa Mourisca” de Júlio Dinis, revelou Francisco José Viegas. Usando a tecnologia como aliada para abrir janelas para os muitos mundos que habitam estas obras.

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