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Rearmar a Europa não é reindustrializá-la

Rearmar a Europa não é reindustrializá-la

À medida que a indústria automóvel europeia definha e o rearmamento europeu ganha fôlego político e financeiro, começa a desenhar-se um caminho preocupante: o de reconverter capacidade industrial civil em capacidade de defesa, como se isso fosse uma resposta ao declínio industrial do continente. Não é, e importa dizê-lo com clareza.
O plano europeu de rearmamento “Readiness 2030” mobiliza mais de 800 mil milhões de euros. Os sinais acumulam-se: a Renault associou-se à Thales para produzir veículos táticos e munições-drone; a Volkswagen negoceia a reconversão da sua fábrica de Osnabrück, cuja produção automóvel termina em 2027, para fornecer componentes do sistema de defesa aérea israelita Iron Dome. E os exemplos multiplicam-se. O que era residual começa a parecer uma tendência.
Convém começar pelos factos económicos, porque eles são elucidativos. Na Alemanha, o coração da indústria automóvel europeia, o setor da defesa tem hoje cerca de 6% da dimensão do automóvel. Em 2024, a indústria automóvel alemã faturou perto de 536 mil milhões de euros; as cinco maiores empresas de defesa alemãs somaram pouco mais de 30 mil milhões. A proporção vai mudar: os conflitos às portas da Europa e a vontade de reduzir dependências externas abrem ao setor uma janela real de crescimento. Mas mesmo em expansão, a defesa não terá escala para substituir o que o setor automóvel representa. Pode suavizar a queda, mas não pode ocupar o seu lugar.
A própria Renault faz questão de garantir que não pretende tornar-se um ator relevante na defesa, que estes projetos não afetam a sua atividade principal. Ou seja: nem quem avança nesta direção acredita que ela substitui o que se está a perder.
O problema não é apenas económico, é também político e identitário. A Europa nasceu contra a guerra. A sua génese, a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, em 1951, foi concebida precisamente para tornar a guerra materialmente impossível entre as nações europeias. Reconverter agora a indústria civil que melhor simbolizou a prosperidade pacífica do continente em indústria de armamento não é apenas uma aposta económica frágil. É uma contradição com a matriz identitária do próprio projeto europeu.
Talvez seja inevitável, num mundo mais perigoso e mais instável. Mas não deve ser feito sem consciência do que está em causa, nem, sobretudo, sem que esgotemos primeiro as alternativas.
Para a indústria eletrodigital, a resposta ao declínio industrial passa pela inovação, pelo digital, pela transição energética inteligente, pela captura das fases de alto valor que a cadeia industrial do futuro exige. É esse o papel que nos cabe, e é essa a direção que devemos exigir das políticas públicas europeias e nacionais.
O Industrial Accelerator Act, ainda com todas as suas hesitações e ambiguidades, aponta precisamente para essa direção. Que a Europa o siga com coerência e com urgência. E sem ceder à tentação mais fácil: a de procurar resolver um problema económico ao preço da sua própria identidade. Essa seria, de longe, a mais cara das transações.

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