AEP: Empresas antecipam melhoria da atividade no segundo semestre
As empresas portuguesas antecipam uma ligeira melhoria da atividade no segundo semestre de 2026, tanto no mercado nacional como internacional, segundo indica um inquérito coligido pela Associação Empresarial de Portugal (AEP). “Esta perspetiva mais favorável surge, contudo, depois de um primeiro semestre particularmente difícil, marcado por fenómenos climáticos extremos, como a tempestade Kristin, e por um contexto internacional de forte instabilidade, nomeadamente com os impactos associados ao encerramento do Estreito de Ormuz”.
Os resultados do inquérito mostram, ainda assim, um tecido empresarial mais resiliente e capaz de acomodar, em parte, os impactos extremamente adversos, de origem interna e externa, que têm condicionado a atividade das empresas. Persistem, porém, constrangimentos significativos, com a burocracia a assumir-se como o principal obstáculo ao desenvolvimento da atividade empresarial.
Esta é uma das principais conclusões do Inquérito – Perspetivas de evolução da atividade empresarial, realizado pela AEP – Associação Empresarial de Portugal durante o mês de julho, que auscultou 400 empresários e gestores sobre a evolução do volume de negócios, os principais constrangimentos à atividade e as medidas que consideram necessárias para ultrapassar as dificuldades identificadas.
No mercado nacional, 53,9% das empresas perspetivam um aumento do volume de negócios no segundo semestre, 51,3% antecipam um aumento ligeiro e 2,6% um aumento significativo, contra 48,7% que tinham registado crescimento no primeiro semestre. Paralelamente, diminui de 25,7% para 20,5% a percentagem de empresas que antecipam uma redução da atividade.
Também no mercado internacional as perspetivas melhoram, embora de forma mais moderada: 30,8% das empresas esperam aumentar o volume de negócios no segundo semestre, face a 25,7% que registaram crescimento nos primeiros seis meses do ano. A percentagem de empresas que prevê uma diminuição mantém-se, contudo, nos 28,2%.
“Depois de um primeiro semestre muito difícil, é positivo verificar que as empresas encaram a segunda metade do ano com uma perspetiva de alguma melhoria da atividade. Mas estes resultados devem ser lidos com prudência: estamos a falar de uma recuperação ligeira, que surge depois de um período marcado por fortes adversidades, desde fenómenos climáticos extremos até à elevada instabilidade internacional e aos impactos provocados pelo encerramento do Estreito de Ormuz. O que os resultados do inquérito também mostram é que temos hoje um tecido empresarial mais resiliente e capaz de acomodar, em parte, impactos extremamente adversos, de origem interna e externa”, afirma Luís Miguel Ribeiro, presidente do conselho de administração da AEP.
“Esta maior capacidade de resistência não significa, contudo, que as empresas estejam a operar num contexto menos exigente. A instabilidade geopolítica, os custos energéticos e das matérias-primas e a crescente fragmentação do comércio internacional continuam a condicionar decisões e a exigir capacidade de adaptação. É importante que a ligeira melhoria das expectativas se confirme, mas também que sejam criadas condições para que as empresas possam transformar essa expectativa em crescimento efetivo”, acrescenta o presidente da AEP.
A burocracia surge destacadamente como o principal constrangimento, apontado por 84,2% dos inquiridos. Seguem-se os custos dos bens energéticos (82,1%), as tensões geopolíticas, incluindo conflitos militares e medidas protecionistas (79,5%), os custos das matérias-primas, excluindo bens energéticos (75%), e os preços dos transportes (73%).
A fiscalidade é identificada por 65,8% das empresas como um fator que está a afetar o desenvolvimento da atividade, enquanto a concorrência internacional e a falta de mão-de-obra são apontadas, respetivamente, por 57,9% dos inquiridos. O financiamento, com 28,6%, é o fator menos referido entre os constrangimentos avaliados.
Para além destes fatores, os empresários identificam um conjunto de riscos que continuam a condicionar as decisões empresariais, entre os quais a instabilidade e incerteza internacional, a crescente fragmentação geopolítica e criação de novas barreiras aduaneiras, a instabilidade fiscal, a manutenção dos preços dos combustíveis, a inflação, a falta de agilidade dos organismos públicos, os custos de contexto e o excesso de legislação. São ainda referidos a falta de confiança dos consumidores, a diminuição do consumo, a escassez de matérias-primas associada a condições climatéricas e os prazos de entrega.
Questionadas sobre as medidas que poderiam contribuir para resolver estes constrangimentos, as empresas colocam no topo da lista a eliminação de burocracias, a melhoria do sistema de Justiça e a simplificação das leis.
A simplificação da fiscalidade e redução da carga fiscal sobre as empresas é igualmente apontada como uma prioridade, a par do investimento em digitalização e automação aduaneira, com o objetivo de tornar os processos mais rápidos e eficientes.
Num contexto internacional marcado por maior instabilidade e fragmentação, os empresários defendem ainda o reforço de acordos comerciais bilaterais e regionais, a diversificação de mercados, de forma a reduzir a dependência de determinadas rotas ou blocos económicos, e uma maior flexibilidade logística, através de soluções multimodais e rotas alternativas.
O reforço do diálogo entre empresas, entidades reguladoras e instituições, bem como a aposta em parcerias estratégicas estáveis e fiáveis, são também apontados como fatores importantes para aumentar a capacidade de resposta das empresas perante futuras disrupções.
O perfil das empresas que participaram no inquérito evidencia uma forte exposição aos mercados externos: 46% exportam e importam, enquanto 28% apenas exportam e 10% apenas importam. Apenas 16% das empresas participantes não desenvolvem atividade de exportação ou importação.
Quanto à dimensão, 39% são médias empresas, 33% pequenas empresas, 23% microempresas e 5% grandes empresas, assegurando uma representação diversificada do tecido empresarial.
O inquérito da AEP mostra, assim, um tecido empresarial que, depois de um primeiro semestre particularmente exigente, entra na segunda metade de 2026 com expectativas de ligeira melhoria da atividade, mas ainda sujeito a fortes pressões e riscos. A resiliência demonstrada pelas empresas é um sinal positivo, mas a sua capacidade para investir, crescer e competir continuará dependente da criação de condições mais favoráveis, nomeadamente através da redução da burocracia, da simplificação fiscal e legislativa e de uma maior previsibilidade do contexto económico e regulatório.
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