Freedom24 considera que grandes tecnológicas “entraram numa nova fase” na IA
A corretora Freedom24 considera que as grandes tecnológicas entraram numa nova fase no ciclo da inteligência artificial (IA), com esta tecnologia a se afirmar como uma fonte efetiva de receitas e crescimento dos lucros.
“Microsoft, Alphabet, Amazon, Meta e Apple enviaram uma mensagem clara ao mercado nesta época de resultados. A época de apresentação de resultados das maiores empresas tecnológicas voltou a confirmar o papel da Big Tech como principal motor do mercado acionista norte-americano. Microsoft, Alphabet, Amazon, Meta e Apple não só superaram as expectativas dos analistas na maioria dos indicadores financeiros, como transmitiram um sinal ainda mais relevante aos investidores: a inteligência artificial (IA) está a deixar de ser apenas um destino para investimentos de milhares de milhões de dólares e começa a afirmar-se como uma fonte efetiva de receitas e crescimento dos lucros”, salientou.
Há apenas um ano, a “principal dúvida” do mercado era saber quando os investimentos recorde em centros de dados, modelos próprios de IA e capacidade de computação “começariam a traduzir-se” em resultados financeiros concretos. “Os resultados do segundo trimestre indicam que esse ponto de viragem já foi alcançado”, sublinhou.
“Ao mesmo tempo, esta época de resultados mostra que a corrida à IA entrou numa nova fase. Mais do que avaliar a dimensão dos investimentos, os investidores começam agora a concentrar-se na capacidade das empresas para rentabilizar essas apostas”, referiu a corretora.
O especialista de mercado na Freedom24, João Lampreia, refere que esta mudança atribui “especial relevância” à guidance das equipas de gestão sobre algumas métricas operacionais – despesas de investimento (CAPEX) de IA, estimativas de margens e de fluxos de caixa (Cash Flows), capacidade computacional, entre outros –, “amplamente mais importantes” do que a mera simples evolução do EPS (lucro por ação) ou receitas geradas no trimestre.
“Importa salientar que a divulgação dos resultados das Big Tech americanas ocorreu pouco depois de um sell-off agressivo em julho que se abateu sobre o setor tecnológico, em particular no Universo de semicondutores. O motivo para esta correção do mercado deveu-se a uma multiplicidade de fatores, entre os quais: o receio da real capacidade de monetização dos investimentos de IA; o newsflow sobre financiamento circular em torno da indústria de IA que fomentou dúvidas quanto a sustentabilidade do atual Boom; o nível de avaliação eventualmente excessivo das métricas fundamentais em que os preços subiram demasiado rápido; e o aumento da competição por parte da China com os progressos na autonomia de capacidade em construir máquinas de semicondutores através da tecnologia DUV; constituindo uma ameaça para o nível de crescimento e sustentabilidade das margens das Big Tech norte-americanas”, disse João Lampreia.
O analista acrescenta que os números avançados recentemente pelas tecnológicas norte-americanas, além de “ressalvar” a entrada numa nova fase da corrida à IA, contribuíram também de “forma decisiva” para a recuperação do sentimento de mercado em torno do setor – acelerando mesmo alguma rotação dos fluxos de investimento para Hyperscalers e empresas de Software – as quais “não acompanharam” no período recente de forma proporcional a exponencial subida de alguns nichos de mercado mais expostos à temática de IA (Semicondutores). “A Microsoft sendo uma das líderes no segmento de Enterprise IA desempenhou um papel chave na recuperação do sentimento de mercado e de todo o ecossistema de IA, mas importa de seguida analisar em detalhe e de forma idiossincrática os números de cada uma das Big Tech norte-americanas”, considerou.
No caso da Microsoft “voltou a apresentar” os resultados mais consistentes entre as grandes tecnológicas. “As receitas trimestrais cresceram 18%, para 90 mil milhões de dólares, enquanto o resultado operacional aumentou ao mesmo ritmo. O principal motor continua a ser o negócio de cloud: a divisão Intelligent Cloud registou um crescimento de 32% das receitas e o Azure avançou 43%. Pela primeira vez, as receitas anuais do Azure ultrapassaram os 100 mil milhões de dólares, enquanto o número de utilizadores pagantes do Microsoft 365 Copilot superou os 30 milhões”, elencou.
“Estes números confirmam que o mercado empresarial está a passar da fase de testes da IA para a sua adoção em larga escala. Se anteriormente a Microsoft comercializava sobretudo infraestrutura de cloud, hoje monetiza cada vez mais serviços de IA integrados no dia a dia das empresas. Esta evolução consolida a Microsoft como uma das empresas mais bem posicionadas para beneficiar do atual ciclo de investimento em IA”, afirmou.
No caso da Alphabet, dona do Google, é colocada como “uma das grandes surpresas” desta época de resultados. “As receitas aumentaram 24%, aproximando-se dos 120 mil milhões de dólares. No entanto, o grande destaque foi o desempenho do Google Cloud, cujas receitas dispararam 82%, enquanto o lucro operacional mais do que triplicou, impulsionado pela forte procura por infraestrutura de IA e pelas soluções empresariais baseadas no Gemini. A administração revelou ainda que cerca de 90% das empresas da lista Fortune 100 já utilizam o Gemini Enterprise, enquanto a aplicação Gemini se aproxima dos 950 milhões de utilizadores ativos mensais. O negócio principal de publicidade continua igualmente sólido. Apesar das preocupações de que a IA generativa pudesse transformar o mercado das pesquisas online, o Google Search continua a crescer de forma consistente e as novas funcionalidades de IA têm contribuído para aumentar o envolvimento dos utilizadores. Há poucos anos, o Google Cloud era visto como um concorrente tardio no mercado da cloud. Atualmente, tornou-se um dos segmentos com maior crescimento em todo o setor tecnológico”, elencou.
No caso da Amazon é descrito como tendo alcançado “um dos melhores conjuntos de resultados” dos últimos anos. “As receitas totais cresceram 20%, enquanto o resultado operacional aumentou 43%. A Amazon Web Services (AWS) voltou a assumir o papel de principal motor do grupo, acelerando o crescimento das receitas para 37%, o ritmo mais elevado dos últimos 18 trimestres. O lucro operacional da divisão atingiu 16,6 mil milhões de dólares. A empresa revelou ainda que o negócio de IA da AWS já ultrapassa os 25 mil milhões de dólares de receitas anualizadas. A divisão responsável pelo desenvolvimento dos processadores próprios para IA já atingiu uma dimensão semelhante. Apesar destes resultados, a Amazon continua a ser uma das empresas que mais investe em IA. O investimento recorde em centros de dados e infraestrutura levou o fluxo de caixa livre para terreno negativo. Ainda assim, os investidores encaram este esforço financeiro como um investimento no crescimento futuro e não como um sinal de deterioração do negócio”, referiu a Freedom24.
Quanto à Meta os resultados mostraram um cenário “mais equilibrado” com as receitas a cresceram 28%, “impulsionadas” pelo aumento do número de impressões publicitárias e pela subida do preço médio dos anúncios. “Em contrapartida, o resultado operacional diminuiu e a margem operacional caiu de 43% para 31%, refletindo um aumento de 55% dos custos operacionais. Grande parte deste acréscimo resulta do investimento em IA, de despesas jurídicas e da reestruturação do negócio. Apesar desta pressão de curto prazo, a administração mantém a expectativa de que o resultado operacional supere o registado no ano anterior. O investimento previsto para este ano situa-se entre 130 e 145 mil milhões de dólares. Na prática, a Meta está a seguir uma estratégia semelhante à adotada anteriormente pela Microsoft e pela Amazon: sacrifica parte da rentabilidade atual para construir novas fontes de crescimento sustentado”, acrescentou a análise.
No caso da Apple teve “uma trajetória distinta” face às outras tecnológicas. “A empresa superou as expectativas dos analistas. As receitas trimestrais aumentaram 16,4%, para 109,4 mil milhões de dólares, o lucro líquido ascendeu a 29,8 mil milhões e as vendas do iPhone cresceram quase 22%. Os segmentos Mac e Serviços também contribuíram positivamente para estes resultados. Ainda assim, a atenção dos investidores concentrou-se sobretudo nas perspetivas futuras. A administração prevê um crescimento das receitas entre 9% e 11% no próximo trimestre, mas alerta para constrangimentos no fornecimento de chips avançados e memória, componentes essenciais para continuar a expandir as capacidades de IA. Ao contrário da Microsoft, Alphabet ou Amazon, a Apple ainda não demonstrou um nível comparável de monetização da IA. A principal vantagem competitiva continua a ser o seu ecossistema de dispositivos e serviços, enquanto o impacto do Apple Intelligence nos resultados financeiros permanece numa fase inicial. Por essa razão, os investidores começam a exigir mais da empresa. O forte desempenho do iPhone já não é suficiente; o mercado procura um novo motor de crescimento sustentável”, disse.
Comparando os resultados das principais empresas tecnológicas a corretora considera que se torna “evidente” que o setor está a entrar numa nova fase de desenvolvimento. “A primeira fase do ciclo da IA caracterizou-se por um crescimento sem precedentes do investimento. As empresas investiram centenas de milhares de milhões de dólares na construção de centros de dados, no desenvolvimento de modelos próprios, na aquisição de unidades de processamento gráfico (GPU) e na criação de infraestruturas de cloud. Estes investimentos levantaram dúvidas no mercado, uma vez que o seu retorno financeiro permanecia incerto. Agora, a situação começa a mudar”, referiu.
“A Microsoft está a transformar o Copilot num produto empresarial de utilização em massa. A Alphabet está a registar um rápido crescimento do Google Cloud e a integrar o Gemini em praticamente todos os seus principais serviços. A Amazon está a viver uma nova aceleração da AWS, impulsionada pela procura por infraestruturas de IA. Até a Meta já começa a sentir um impacto positivo da utilização da IA nos seus algoritmos de publicidade, apesar da pressão temporária sobre a rentabilidade. Por outras palavras, as maiores empresas tecnológicas estão a passar gradualmente da construção da infraestrutura de IA para a sua comercialização em larga escala”, acrescentou a análise aos resultados das grandes tecnológicas.
Foco muda no segundo semestre
Para a corretora na segunda metade do ano o foco do mercado “irá inevitavelmente” mudar. “Se até agora os investidores avaliavam as empresas sobretudo pela dimensão dos seus investimentos, o principal critério passará a ser a eficácia com que conseguem rentabilizá-los. O mercado acompanhará de perto a rapidez com que os novos produtos de IA se traduzem em receitas sustentáveis, se as plataformas de cloud conseguirão manter os atuais ritmos de crescimento e se as empresas serão capazes de manter níveis elevados de rentabilidade, apesar do contínuo ciclo de investimento”, acrescentou.
“Até ao momento, os resultados publicados permitem manter uma perspetiva construtiva para o setor. A procura por capacidade de computação continua significativamente superior à oferta, a adoção da IA generativa pelas empresas está a acelerar e as maiores tecnológicas dispõem de recursos financeiros suficientes para continuar a realizar investimentos de grande dimensão sem enfraquecer significativamente os seus balanços. A principal conclusão desta época de resultados é que a IA deixou de ser apenas uma história sobre o futuro. Para as líderes da Big Tech, já se está a tornar num verdadeiro motor de crescimento financeiro, reforçando significativamente os fundamentos que lhes permitem manter a sua posição de liderança no mercado durante a segunda metade de 2026″, concluiu a análise.
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