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Portugal está a envelhecer. Porque continua o mercado financeiro a ignorá-lo?

Portugal está a envelhecer. Porque continua o mercado financeiro a ignorá-lo?

Durante décadas, a indústria financeira organizou-se em torno de uma lógica relativamente simples. As pessoas trabalhavam, constituíam família, compravam casa, acumulavam património e chegavam à reforma numa fase final da vida relativamente curta. Foi para essa realidade que se desenharam produtos, modelos de aconselhamento e estratégias comerciais. O problema é que essa realidade deixou de existir.
Portugal é hoje um dos países mais envelhecidos da Europa. O índice de envelhecimento atingiu os 192 idosos por cada 100 jovens e as projeções demográficas apontam para um agravamento desta tendência ao longo das próximas décadas. A população viverá mais anos, terá menos filhos e dependerá cada vez menos das estruturas familiares tradicionais que durante gerações asseguraram apoio, proximidade e cuidados.
A geração que hoje tem mais de 65 ou 70 anos é provavelmente aquela que mais beneficiou da valorização imobiliária ocorrida em Portugal nas últimas décadas. Muitos destes cidadãos compraram as suas casas quando os preços eram incomparavelmente mais baixos do que os atuais. Em Lisboa, Porto e em grande parte das capitais de distrito, esse património valorizou-se de forma extraordinária.
Mas existe uma diferença crucial entre possuir riqueza e conseguir utilizá-la. Diariamente encontramos pessoas que vivem em imóveis avaliados em centenas de milhares de euros mas que, simultaneamente, analisam com preocupação as despesas de saúde do mês seguinte, adiam obras de adaptação das suas casas, limitam consumos essenciais ou dependem financeiramente dos filhos para enfrentar necessidades inesperadas.
Não faz sentido que um país acumule uma enorme riqueza imobiliária nas mãos da sua população sénior e, ao mesmo tempo, aceite como inevitável que muitos desses proprietários enfrentem limitações financeiras incompatíveis com o património que possuem. O mais surpreendente é que esta realidade continua praticamente ausente do debate político.
Falamos frequentemente sobre o défice da Segurança Social, sobre a sustentabilidade das pensões e sobre a pressão crescente sobre o Serviço Nacional de Saúde. São discussões legítimas e necessárias. Mas raramente falamos da enorme quantidade de riqueza privada que permanece bloqueada em ativos imobiliários e que poderia contribuir para melhorar significativamente a qualidade de vida de quem os detém.
Talvez porque Portugal mantém uma relação quase emocional com a propriedade imobiliária. Durante décadas, a casa foi encarada como um símbolo de segurança, de ascensão social e de proteção familiar. E continua a sê-lo. Mas transformámos gradualmente esta visão numa espécie de dogma económico segundo o qual o principal propósito de uma habitação é ser preservada para transmissão futura.
Numa sociedade onde as pessoas vivem até aos 85, 90 ou mais anos, esta lógica merece, pelo menos, ser questionada. Será razoável que alguém passe os últimos vinte ou trinta anos da sua vida sentado sobre um ativo valioso sem conseguir retirar dele os benefícios que poderiam aumentar o seu conforto, a sua autonomia ou a sua tranquilidade? Será razoável que continuemos a considerar normal deixar património para o futuro enquanto adiamos necessidades importantes do presente?
Estas perguntas podem gerar desconforto porque tocam num dos pilares culturais da sociedade portuguesa. Mas precisamente por isso são perguntas que precisam de ser feitas. A própria noção de reforma está a mudar. A reforma já não representa necessariamente a fase final da vida. Para muitos portugueses, representa o início de um período que pode durar duas ou três décadas. Estamos a falar de um horizonte temporal suficientemente longo para exigir novas respostas financeiras, novos modelos de proteção e novas formas de transformar património em bem-estar.
No entanto, continuamos a observar uma indústria excessivamente focada na acumulação de riqueza e insuficientemente preparada para responder aos desafios da sua utilização inteligente.
É por isso que a verdadeira oportunidade da próxima década não está apenas na tecnologia financeira, na inteligência artificial ou nos novos instrumentos digitais. Está na economia da longevidade.
Está na capacidade de criar soluções que permitam aos portugueses envelhecer com maior liberdade de escolha. Na capacidade de transformar património em rendimento complementar, em cuidados de saúde, em assistência domiciliária, em adaptação da habitação ou simplesmente em mais qualidade de vida. Na capacidade de compreender que o envelhecimento não deve ser visto como um problema social a minimizar, mas como uma realidade económica à qual é necessário responder com inovação.
O envelhecimento da população não é apenas um desafio demográfico; é o maior teste de adaptação económica que Portugal enfrenta. Continuar a olhar para os seniores apenas pela lente das pensões é ignorar uma realidade muito mais profunda: existe uma enorme riqueza acumulada que permanece subaproveitada numa sociedade que precisa cada vez mais de liquidez, autonomia e qualidade de vida.
O verdadeiro desafio já não é ajudar os portugueses a construir património, mas permitir que possam usufruir dele de forma inteligente, segura e digna. Porque uma economia que não encontra soluções para uma população que envelhece não está apenas a falhar os seus cidadãos mais velhos, está a falhar o seu próprio futuro.

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