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Portugal tem combinação única para atrair hubs e startups

Portugal tem combinação única para atrair hubs e startups

Portugal tem-se vindo a consolidar como um hub de inovação na Europa, devido ao seu ecossistema dinâmico de startups, ao forte talento de engenharia e à presença de centros de desenvolvimento de multinacionais globais.
Os dados mostram que em 2025 o país ultrapassou as cinco mil startups ativas, o que se traduz num crescimento de 8% face ao ano anterior. Mas o que torna Portugal tão apelativo para as startups?
Para perceber o que Portugal tem de tão especial para as startups, o Jornal Económico (JE) foi questionar startups de várias áreas que estão instaladas em terras lusas.
Nico de Luis, co-founder & COO da Shakers, plataforma espanhola que liga empresas a trabalhadores independentes especializados, refere que em Portugal “convergem vários fatores de uma forma verdadeiramente rara no contexto europeu”. O responsável destaca o talento, com bases sólidas em engenharia e em inglês e uma boa cultura de colaboração. “Para empresas jovens, que acompanham atentamente cada euro gasto, esta combinação de qualidade e eficiência de custos significa que é possível fazer mais com o financiamento disponível”.
Outro aspeto destacado é a geografia. “A partir de Lisboa, conseguimos fazer uma chamada de manhã com Berlim e outra à tarde com Nova Iorque, tudo no mesmo dia de trabalho”, indica.
Apesar destes fatores serem importantes, o COO destaca uma vantagem, que considera ser “subestimada”, a energia. “Existe uma abertura genuína, um entusiasmo pelas novas ideias e novos empreendedores, que se sente logo no momento em que se chega”, refere.
Estes fatores juntos foram os apontados pelo Global Talent Cities Index 2026 da Savills para colocar Lisboa na 19.ª posição “das cidades que estão a ganhar peso nas decisões de localização de empresas internacionais”, aponta Gil Azevedo, diretor executivo da Unicorn Factory Lisboa.
O diretor aponta ainda que a estes fatores aliam-se o crescimento da inovação no país “com mais investidores, mais capital, mais fundadores experientes e uma maior ligação a redes globais”.
O desempenho de Portugal, em termos de inovação, está acima da média dos países classificados como Inovadores Moderados na União Europeia (UE) no European Innovation Scoreboard 2025, estando nos 90,7% face a 85,9% da média.
“Hoje existe uma perceção muito mais positiva do que há uma década. O empreendedorismo deixou de ser visto como uma alternativa marginal e passou a ser encarado como uma carreira legítima e desejável”, aponta Filipa Pinto Carvalho, cofundadora da AGPC, uma sociedade de advogados que funciona como uma plataforma one-stop-shop de apoio a investidores estrangeiros.
Apesar da boa classificação, Márcia Pereira, founder e CEO da Bandora, especializada na otimização energética e gestão inteligente de edifícios, refere que apesar da inovação estar a ser cada vez mais valorizada em Portugal, ainda continua “a ser encarada por muitos como um extra, não como uma prioridade estratégica”.
“Ainda vejo que há bastante medo do risco e alguma dificuldade em transformar investigação científica em soluções com impacto económico, muito devido, entre outros fatores, à falta de recursos financeiros para impulsionar as boas ideias no mercado”, salienta.
Essa falta de recursos financeiros é notada mesmo com o apoio público. “O apoio público tem sido visível em vários instrumentos promovidos: a Startup Portugal como entidade nacional de promoção, a Lei das Startups, o Tech Visa e o Startup Visa para reter e atrair talento, ou o acolhimento de eventos como a Web Summit, que ancora Portugal no mapa global”, indica Tomás Penaguião, partner da Bynd Venture Capital, uma sociedade de capital de risco portuguesa.
Apesar de as startups olharem para esta vontade do Governo português em impulsionar a inovação com bons olhos, consideram que é necessário simplificar e haver maior agilidade nos processos. “A competitividade dos ecossistemas de inovação depende muito da facilidade com que as empresas conseguem crescer, contratar talento e escalar operações”, refere Francisco Sommer, operations manager do SITIO, startup de soluções de espaços de trabalho partilhados.
Mesmo com esta vontade de apostar na inovação e de ser um hub atrativo para as startups, estas ainda enfrentam desafios ao estarem em Portugal, estando o principal ligado à escala.
“Temos ambição e capacidade técnica, mas ainda somos frágeis no caminho entre o seed – o início – e a escala internacional”, declara Tomás Penaguião.
Nico de Luis salienta que “o acesso a capital para fases mais avançadas de crescimento continua a ser mais limitado do que em cidades como Londres, Paris ou Berlim, o que leva algumas empresas a procurarem financiamento no estrangeiro quando chega o momento de escalar o negócio”.
O desafio da escala é uma das coisas que falta fazer para as startups conseguirem alavancar ainda mais. Mas para conseguir ter esta escala é importante “uma estratégia nacional que una esforços entre as várias entidades. Esta estratégia tem de incluir instrumentos que promovam o investimento privado nas várias fases de crescimento de startups, iniciativas que permitam uma maior ligação a mercados internacionais e mecanismos que facilitem a criação de inovação a partir da investigação desenvolvida nas universidades”, afirma Gil Azevedo.
Outro dos desafios apontados pelas startups é aproximar a ciência das empresas. “O nosso país tem equipas de investigação de excelência em inúmeras áreas, mas continua por explorar o seu enorme potencial de aplicação no mercado propriamente dito”, menciona Márcia Pereira.
Apesar dos desafios, que muitas vezes são transversais a outros países, Portugal tem potencial para estes hubs continuarem a crescer, contudo este dado não deve ser adquirido. “Portugal beneficia atualmente de uma reputação internacional muito forte, mas outros países estão a competir ativamente pelos mesmos empreendedores, investidores e empresas”, aponta Filipa Pinto Carvalho.
Tomás Penaguião considera que na próxima fase de crescimento a competitividade vai ser determinada pela “capacidade de criar condições para que empresas tecnológicas escolham crescer cá e não apenas nascer cá”. “Isso implica continuar a investir em talento, simplificar processos, facilitar o acesso a capital e criar políticas públicas consistentes e mais previsíveis”, indica.
Embora Portugal esteja na “berra” para as startups e para os hubs, qual é a vantagem que isto traz para o país? A vinda destas inovações para Portugal tem um impacto para além da criação de empresas. “São motores de desenvolvimento económico, atraem investimento, ajudam a reter talento qualificado e contribuem para a descentralização da inovação”, declara Francisco Sommer.
Em termos económicos, estas empresas geram um volume de negócios de cerca de 2,85 mil milhões de euros e empregam perto de 28 mil pessoas. Só em Lisboa, nos últimos anos, foram anunciados mais de 17 mil postos de trabalho.
Para além destas vantagens, mais óbvias, as “startups aceleram a transferência de conhecimento entre universidades e mercado, atraem investimento, criam emprego qualificado e ajudam a fixar o talento”, afirma Márcia Pereira.
“Para um país da dimensão de Portugal, a inovação é uma das formas mais eficazes de competir globalmente sem depender apenas da escala. Cada startup internacional que escolhe Portugal contribui para posicionar o país como uma plataforma de inovação e não apenas como um mercado consumidor”, conclui Nico de Luis.

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