Fórmula E: António Félix da Costa deixou um aviso claro aos adversários
Vivemos tempos de extremos. Em que é moda falar grosso e alto, apontar o dedo sem segundas ponderações. Destacam-se os que, por usarem esse truque, são considerados diretos, frontais, sem medo de dizerem o que pensam, e das consequências. Com isso, o bom senso, o meio-termo e a convivência salutar, mesmo perante a discordância, parecem coisas do passado. É por isso que os tipos porreiros são cada vez mais algo fora de moda e são, muitas vezes, incompreendidos. António Félix da Costa deu uma lição importante na última corrida.
Félix da Costa é o verdadeiro tipo porreiro. Bem-disposto, simpático, de discurso simples, aberto e sem subterfúgios. A sinceridade com que fala é por vezes surpreendente e quem já falou com ele entende facilmente que é um homem de bem com a vida, sem vontade de entrar em guerras desnecessárias, focado em estar bem e ser feliz. Não é por acaso que é um dos pilotos mais queridos do paddock da Fórmula E. Mas nunca nos devemos esquecer que AFC é piloto de competição. Que chegou ao topo por mérito próprio, graças ao seu talento e capacidade de trabalho. E o caminho para o topo não se faz sem morder e fazer cara feia.
A sua ida para a Porsche parecia o capítulo principal de um livro já bem recheado de conquistas. A entrada na Fórmula E e o projeto de resistência logo ao lado pareciam dar ao português todas as armas para conquistar mais títulos. Mas a história não foi contada como esperávamos. Com alguma culpa própria, é certo, mas AFC foi confinado ao lugar de n.º2. O tipo porreiro que criava bom ambiente passou a ser apenas figurante quando também podia ser personagem principal. Algumas vezes com falta de sorte, outras vezes por demérito próprio, o piloto de Cascais nunca conseguiu impor-se verdadeiramente na Porsche. E a equipa raramente lhe deu armas para que a sua posição mudasse. E mesmo as portas para o Endurance foram sistematicamente fechadas. Talvez tenha faltado carinho e calor, numa estrutura demasiado fria e que encontrou na frieza de Pascal Wehrlein o conforto para chegar aos títulos que pretendia.
O divórcio acabou por se tornar inevitável e Félix da Costa saiu de forma digna, respeitando sempre a sua agora antiga equipa (como sempre fez), mas as feridas de uma relação com o alemão, que azedou muito no ano passado, ficaram visíveis. De tal forma que os confrontos em pista entre os dois foram sempre mais quentes que recomendável. Na sua publicação nas redes sociais, AFC deixou clara a sua posição: “na vida colhemos o que plantamos, como me ensinaram. Trata os outros como queres que te tratem a ti”.
Ontem, Félix da Costa deu uma lição importante para quem ainda duvidava disso. Cada ação tem uma reação e a simpatia não é sinónimo de impunidade. Antes de mais, importa realçar que defendeu com unhas e dentes os interesses da equipa e que não se tratou de uma vingança bacoca. Graças ao seu trabalho, a equipa conseguiu o título por equipas. AFC defendeu as suas cores, da sua equipa que o recebeu tão bem e o fez sentir em casa desde o início. Na Jaguar foi logo competitivo desde o arranque, conseguiu confiar na equipa e a equipa confiou nele. Uma relação que começou bem e já deu frutos. Terá havido uma ou outra manobra na qual o piloto de Cascais demonstrou excesso de zelo na forma como quis cumprir a sua missão? Talvez. Mas essa também foi uma forma de mostrar que o passado não estava esquecido. E que quando for preciso, é também capaz de ser frio e implacável.
A reação de Wehrlein é sintomática. Os dois protagonizam provavelmente a maior rivalidade da atualidade na Fórmula E. Faz parte e faz bem ao espetáculo. A promessa de vingança não fica particularmente bem a um bicampeão, mas terá sido recebida sem grande consternação do lado do piloto luso. Conhece bem o mundo das corridas e o que as lutas por vezes exigem. Mas também mostrou para os mais esquecidos que, para chegar aos seus objetivos, é bem capaz de morder. É dessa fibra que são feitos os campeões. Fica para a história a forma como se defendeu de ataques sucessivos, colocando até o seu colega de equipa na rota do título a certo ponto. Félix da Costa cumpriu a sua missão e deixou um aviso para quem o quis ver.
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