Para ler no avião, numa esplanada ou com horizontes a perder de vista
Começamos este texto por aquilo que já não se usa nos tempos que correm: uma citação. Antes de bradar aos céus e desistir de ler o que se segue, não resistimos a dizer que a citação em causa remete para um dos livros sugeridos para tornar o verão tão estimulante quanto um bom mergulho ou caminhada na natureza.
“Cada época define a liberdade de um modo diferente. Na antiguidade, liberdade significava ser-se um Homem livre, ou seja, não se ser um escravo. Na época moderna, a liberdade interioriza-se e torna-se autonomia do sujeito. É a liberdade de ação. Hoje, a liberdade de ação reduz-se a liberdade de escolha e de consumo.” Byung-Chul Han, Prémio Princesa das Astúrias de Comunicação e Humanidades 2025, “Não-Coisas. Transformações no Mundo em que Vivemos”, ed. Relógio d’Água.
E liberdade de escolha é, precisamente, concordar ou discordar dos autores que lemos. Designadamente de um texto cânone da civilização ocidental com cerca de 3 mil anos. Sim, “Odisseia”, atribuída a Homero e que poemos fruir através do épico trabalho de tradução de Frederico Lourenço, pela qual recebeu o Prémio D. Dinis da Casa de Mateus e o Grande Prémio de Tradução APT/Pen Clube. Se o filme de Christopher Nolan deu novo impulso à procura desta obra, aproveite o ímpeto e mergulhe na “Ilíada”, traduzida por aquele a quem foi atribuído o Prémio Pessoa. Ele mesmo, Frederico Lourenço. Ambos editados pela Quetzal.
Deixamos agora os épicos e partimos à descoberta da autobiografia de Benjamin Franklin. Tipógrafo e cientista antes de ser estadista. Símbolo de uma nação, participou na luta pela independência dos Estados Unidos e ajudou a desenhar a sua Constituição. Fundou instituições duradouras, sempre com a mesma ideia de base: deixar o conhecimento ao serviço da sociedade. Antídoto para os tempos que correm, publicado pelas Ideias de Ler.
Em “Walking Europe’s Last Wilderness”, Nick Thorpe relata a sua viagem a pé pelos Cárpatos, o segundo sistema montanhoso mais longo da Europa, partilhado por sete países: República Checa, Hungria, Polónia, Roménia, Sérvia, República Eslovaca e Ucrânia. No meio de paisagens deslumbrantes, ainda é possível avistar ursos pardos, lobos, linces, bisontes europeus e águias imperiais. Mas, as alterações climáticas, a guerra ou o abate ilegal de árvores têm colocado em perigo este frágil ecossistema. Um livro com a chancela da Yale University Press.
A autora escolheu os contos a incluir nesta coletânea. Uma seleção absolutamente caprichosa, pois são aqueles de que ainda gosta e que não se envergonha de assinar. Falamos de Luísa Costa Gomes e de “Triunfo do Triunfo e outros contos escolhidos”, editado pela Dom Quixote. Contos dispersos em periódicos e antologias são reunidos, pela primeira vez, em livro. Uns de veia mais abertamente satírica, como a noveleta que dá título à coletânea, outros de tom ambíguo, humor vago, à procura de definição. Chamem-lhe fantasista, também pode ser.
A intemporalidade de “Diplomacia” (ed. Gradiva), de Henry Kissinger, manifesta-se no modo como o autor explora os dilemas centrais da diplomacia – o conflito entre interesses nacionais e morais, a necessidade de pragmatismo frente aos ideais –, e a complexidade das relações multilaterais, desafios que continuam a orientar decisões políticas e estratégicas nos nossos dias. Uma obra que vai muito além da análise das relações internacionais do século XX.
No Verão abrasador de 1991, o último da era soviética, um grupo caricato reúne-se no apartamento do pintor Álik, em Nova Iorque, para o acompanhar nos seus últimos dias de vida. Às mulheres mais importantes da sua vida: Irina, o primeiro grande amor; T-shirt, a filha adolescente de ambos; Nina, a atual mulher; e Valentina, a amante, juntam-se amigos de longa data e emigrados russos recém-chegados que usam a sua casa como ponto de encontro da comunidade russa exilada. Está dado o tom, cerzido a humor, de “Funeral Divertido”, onde Ludmila Ulitskaya se diverte a satirizar a morte, o exílio e a complexidade das relações humanas. E nos diverte, a nós, leitores. Cortesia da Cavalo de Ferro.
Publicado há uma dezena de anos e recentemente reeditado pela Tinta da China em versão de bolso, “Um Gentleman Na Ásia”, de Somerset Maugham, é o relato de uma viagem que começa em Rangum, atual Birmânia, e termina em Haiphong, no Vietname. O escritor atravessou vários países, e ao longo do seu intricado percurso subiu o rio até Mandalay, e atravessou montanhas e florestas a cavalo até Banguecoque. Relatos de viagem são sempre bem-vindos e são ainda mais saborosos no estio.
Quantas vezes é possível recomeçar? Quantas partidas são necessárias para silenciar os fantasmas do passado? “Pontos de fuga”, acompanha a formação sentimental, cultural e política de um rapaz durante a ditadura militar brasileira. É o segundo volume da trilogia «o lugar mais sombrio», de um dos autores mais consagrados da literatura brasileira contemporânea, Milton Hatoum. A Companhia das Letras editou.
Eis uma sugestão para os fãs de Hugo Pratt, o criador de Corto Maltese: “Simbad”. Personagem de As Mil e Uma Noites, Simbad nasceu em Bagdade e cruzou os mares da África Oriental e do Sul da Ásia, determinado a fazer fortuna a qualquer custo. No entanto, tempestades, naufrágios e criaturas fantásticas frustram repetidamente os seus planos. Criada em 1963 para a revista infantil Il Corriere dei Piccoli, a adaptação do conto feita por Hugo Pratt aparece agora, em francês, com texto de Fabrizio Paladini e Marco Steiner, editado pela Casterman.
Não resistimos a terminar com a épica caminhada de John Pakenham que, no início da década de 1980, percorreu quase dois mil quilómetros pelo deserto vulcânico à volta do lago Turkana, no norte do Quénia, na companhia de membros das tribos locais Turkana e Samburu e dos seus esforçados burros. Flagelado pela sede e desidratação, calor abrasador, chuvas torrenciais geladas, aranhas venenosas e mosquitos implacáveis, ainda assim sobreviveu para contar a viagem no livro “Walks on the Wild Side”, da Eye Books.
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