F1: O regresso da esperança na Ferrari
A Ferrari procura títulos desde 2008 sem sucesso e quando se aproxima das duas décadas sem festejar, surge uma nova esperança. Depois de terminar 2025 apenas em quarto lugar do Mundial de Construtores, depois de ter contratado Lewis Hamilton, a equipa apostou de forma decidida nos novos regulamentos e a esperança de que o jejum termine aumentam… de forma ponderada.
Na época anterior, Fred Vasseur e a estrutura italiana tomaram a decisão de parar prematuramente o desenvolvimento do carro de 2025 para concentrar todos os recursos técnicos no projeto de 2026, uma decisão que já deu frutos. A Ferrari chegou aos testes de pré-temporada com um dos melhores chassis da grelha, senão o melhor, segundo análises do próprio paddock e com uma unidade motriz que ainda não está ao nível da referência, mas que já permitiu vencer por duas vezes.
Um carro inovador que inspirou cópias
Como já visto noutras temporadas, os testes de inverno foram positivos para a Scuderia. A equipa terminou como melhor tempo nos testes do Bahrein e apresentou argumentos de peso, desde a fiabilidade, à qualidade do chassi. A Scuderia surpreendeu com soluções técnicas arrojadas que rapidamente se tornaram referência para os rivais — da polémica asa traseira “macarena” a aleta de escape, ambas geraram alguma perplexidade inicial no paddock antes de inspirarem imitações elogiosas de outras equipas. Quando é dada liberdade aos engenheiros da Ferrari, longe da pressão, normalmente surgem soluções técnicas interessantes.
O ano começou com três pódios consecutivos: Charles Leclerc começou o ano com um terceiro lugar, o mesmo que Hamilton conquistou na segunda ronda, sempre atrás do duo da Mercedes. Mas Russell entrou na sua fase azarada na terceira jornada e a Ferrari viu outras equipas como companhia, como a McLaren. Foi preciso chegar a Miami para ver a Ferrari fora do top 3, um acontecimento pontual, com o regresso aos pódios, até a chegada do GP de Barcelona que deu a primeira vitória de Lewis Hamilton com as cores da Ferrari. A jornada seguinte (Áustria) deu novamente um pódio sem a Scuderia, compensado agora com o segundo triunfo do ano, assinado por Charles Leclerc na Grã-Bretanha. Leclerc voltou ao pódio em Spa e na Hungria, não vimos nenhum Ferrari no top 3.
A Ferrari tem sido regularmente a segunda melhor do pelotão, com um chassis de qualidade ao qual falta uma unidade motriz um pouco mais generosa na entrega de potência. No entanto, a fiabilidade tem sido outro dos trunfos da equipa: o único abandono por problema mecânico em toda a primeira metade da temporada foi uma falha na direção assistida de Leclerc em Barcelona. Resolvendo a falta de potência, a Ferrari certamente ganha mais ímpeto na luta pelo título.
Dividida em duas fases
Fred Vasseur resumiu bem a narrativa da temporada: “A primeira parte da temporada foi dividida em duas fases. A primeira foi até a Espanha, quando a Mercedes estava a voar, tendo somado algo como cem pontos a mais do que nós em quatro ou cinco jornadas. E, depois da Espanha, somamos mais pontos do que a Mercedes nessas quatro ou cinco corridas”.
A equipa termina a pausa de verão em segundo lugar do Mundial de Construtores, com 307 pontos, a 72 da líder Mercedes, uma diferença significativa, mas que não esmorece a esperança aos tifosi. Vasseur admitiu, contudo, que o ritmo de desenvolvimento será o fator decisivo na segunda metade: “O mais importante será conseguir manter o ritmo no desenvolvimento. […] Temos uma abordagem diferente, tentando trazer peças a cada corrida. E precisamos de manter esse ímpeto, porque ainda faltam 12 corridas”. Numa temporada em que há muitas novidades, quem conseguir entregar mais melhorias que realmente funcionem, pode ter sucesso no final.
O maior senão da temporada tem sido a execução em fins de semana de corrida, com a Ferrari a tomar decisões erradas em algumas provas, uma tendência que vêm de já há várias temporadas e que se mantém.
Hamilton reencontrou-se, Leclerc com altos e baixos
Lewis Hamilton vive a sua melhor temporada desde 2021. Depois de um início morno na sua segunda temporada em Maranello — um pódio na China seguido de dois sextos lugares consecutivos — o britânico “ligou o interruptor” no Canadá, confirmou a evolução em Mónaco e culminou com a vitória em Barcelona, a sua primeira pela Ferrari, tornando-se o vencedor mais velho da Fórmula 1 desde 1970, aos 41 anos. Hamilton creditou parte dessa transformação à relação construída com o seu engenheiro de pista, Carlo Santi, que apelidou de “o meu Bono italiano”, numa referência à ligação de longa data que tinha com Pete Bonnington na Mercedes. O próprio piloto resumiu a mudança em Mónaco: “Muitas peças se moveram, consegui mover muitas coisas no tabuleiro de xadrez, e reposicionar-me, penso eu, dentro da equipa”. Hamilton é atualmente vice-líder do Mundial de Pilotos, atrás de Kimi Antonelli, com uma desvantagem de 50 pontos.
Charles Leclerc tem tido uma temporada mais irregular. Começou forte, enquanto a Mercedes dominava, antes de um erro na última volta em Miami desencadear uma sequência complicada e um período de desconforto evidente com o SF-26 com queixas públicas. Ajustes feitos durante o fim de semana de Silverstone reergueram as suas perspetivas, culminando numa vitória que lhe escapava há quase dois anos, seguida de outra boa exibição na Bélgica. Leclerc explicou a montanha-russa da sua temporada: “Comecei a temporada muito à vontade com o carro e muito forte. Depois tive Mónaco e Montreal, onde sofri bastante, e depois voltou um pouco. Não é tão simples com estes carros, há tantas variáveis, que entender as implicações completas quando estás um pouco fora do ponto é mais difícil do que parece”.
Para muitos a melhor dupla da F1, Hamilton e Leclerc têm contribuído de forma segura e regular para o sucesso da equipa. O SF-26 não terá ainda os argumentos para se bater com o W17 da Mercedes, mas os pilotos têm feito a sua parte. Este ano, com a novidade que é Leclerc a revelar mais dificuldades enquanto Hamilton está agora muito mais confortável com um carro que se adequa mais ao seu estilo. Se a Ferrari conseguir aproximar-se da performance da Mercedes, pode finalmente ver as vantagens de ter uma dupla deste calibre ao seu dispor.
Notas
Ferrari – Nota 8
Lewis Hamilton – Nota 8
Charles Leclerc – Nota 7
Fotos: MPSA e Ferrari
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