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F1: Domínio da Mercedes afetado pela fiabilidade

F1: Domínio da Mercedes afetado pela fiabilidade

A história é feita de ciclos que, por vezes, repetem os mesmo padrões do passado, com nuances diferentes. Na F1 isso também acontece e o ano de 2026 é a prova disso, com a competição a voltar a ver os mesmo padrões que vimos em 2014, com a introdução das primeiras unidades motrizes híbridas. Na altura a Mercedes dominou, graças a uma unidade motriz mais capaz e em 2026 o cenário é idêntico.
A Mercedes chegou aos testes de pré-temporada com um monolugar sólido, rápido e que dava todos os indicadores de que se não seria a referência, estaria na luta pelos primeiros lugares. Apesar de algumas questões de fiabilidade, ficou claro desde início que os Flechas de Prata tinha preparado bem a entrada na nova era. A combinação entre o departamento de chassis em Brackley e a divisão de motores em Brixworth produziu carro com ecos do domínio absoluto que a Mercedes teve em 2014.
Um domínio quebrado apenas três vezes
O arranque da Mercedes confirmou os dados de fevereiro. A equipa começou com uma série de 6 triunfos consecutivos e apenas à sétima jornada a Ferrari quebrou a hegemonia germânica. O domínio da Mercedes só foi quebrado três vezes ao longo das primeiras onze corridas: pela Ferrari, em Barcelona, com Lewis Hamilton, e em Silverstone, com Charles Leclerc; e pela McLaren, na Hungria, com Lando Norris. A equipa termina a primeira metade da temporada com 379 pontos no Mundial de Construtores, uma vantagem de 72 pontos sobre a Ferrari, e oito vitórias em onze corridas. Em 11 sessões de qualificação apenas por uma vez a equipa não ficou na frente, e foi na Hungria, graças à pole de Lando Norris.

O calcanhar de Aquiles da fiabilidade
Mas o caminho para a perfeição ainda é longo e há um detalhe que tem travado o que já uma espetacular temporada até agora… a fiabilidade. Toto Wolff foi direto ao reconhecer o problema depois da avaria de Antonelli em Barcelona: “Fiabilidade não é suficientemente boa”. Ainda antes, no Canadá, Russell liderava e disputava a vitória frente a Antonelli quando uma falha na unidade motriz — mais tarde identificada como um problema na bateria — o obrigou a abandonar na volta 30, entregando a vitória ao companheiro de equipa.
George Russell tem sido o piloto mais afetado com pequenos problemas que, no final, custam muitos pontos, mas também Antonelli teve a sua dose de questões técnicas. A unidade motriz Mercedes, no seu conjunto, é fortíssima, mas a falta de fiabilidade foi sentida também nas equipas-cliente, especialmente na McLaren, tem sido impossível de disfarçar. Mas, do lado da Mercedes, esses problemas não foram suficientes para afetar os objetivos da equipa.
Wolff reconheceu ainda que a vantagem no campeonato, apesar de confortável, não é motivo para relaxar: “Mesmo que a diferença seja de 50 pontos, ainda há muitas corridas para disputar. Um ou dois abandonos podem inverter tudo drasticamente, e não temos sido excelentes em fiabilidade, por isso temos de continuar a maximizar cada dia, de sexta a domingo, e esperar que, no final, isso seja suficiente”.

Antonelli, a revelação que ninguém esperava tão rápido
Era uma questão de tempo até Kimi Antonelli se afirmar de forma inequívoca e imparável na F1. O talento que demonstrou na sua primeira temporada, apesar das dificuldades que sentiu, tornava evidente que a sua melhor versão dependeria apenas da sua maturação. No entanto, ninguém esperava que o jovem italiano vestisse o fato de candidato ao título tão cedo. Com seis vitórias, nove pódios, seis poles e 219 pontos ao fim de onze corridas, o jovem italiano lidera o Mundial de Pilotos com uma vantagem de 50 pontos sobre Lewis Hamilton e 59 sobre o próprio companheiro de equipa. Se todos esperavam pela versão mais madura de Antonelli para o ver chegar ao topo, essa maturidade tem sido servida em doses generosas pelo jovem prodígio. O ano tem-lhe sorrido e desde que iniciou a série de cinco triunfos consecutivos, nunca encontrou percalços consecutivos que o fizessem duvidar do caminho que segue. Mas há que dar todo o mérito a um jovem que tem conseguido fintar as dificuldades e tem percorrido este ano com uma leveza apenas comparável com a sua velocidade em pista. Antonelli é um caso sério e a continuar assim, pode tornar-se no mais jovem campeão de sempre. Mas a temporada ainda é longa e é cedo para pensar nisso.

Se Antonelli tem vivido um sonho, George Russell tem tentado sair do pesadelo que a sua temporada se transformou. Chegou a Melbourne, na primeira corrida do ano, já com a suspeita de que seria o grande candidato ao título, pela sua experiência e qualidade. O primeiro triunfo na Austrália parecia confirmar as suspeitas, mas tudo mudou daí para a frente. Uma sucessão de problemas foi afastando o britânico do topo, enquanto via ao seu lado Antonelli cimentar a sua liderança. Russell teve de lutar para manter a calma e encontrar soluções para os problemas que foi sentido, mas a certo ponto o #63 perdeu a compostura e ficou fragilizado. Corridas como Canadá e Mónaco logo de seguida são uma boa caricatura do que tem sido a sua época: com muitas dificuldades, algumas impostas, outras motivadas pela tensão que vai sentido. Russell, que vinha a ser o melhor piloto da Mercedes, mesmo ainda quando tinha Hamilton ao seu lado, está abaixo do que já demonstrou na equipa, mas esse abaixamento de forma também se deve às circunstâncias. Teve três semanas em agosto para recalibrar e encontrar-se. Está a 59 pontos do colega de equipa, mas ainda vai a tempo de recuperar. E esta segunda metade do ano será crucial para manter a sua posição de força na equipa. Se mantiver o mesmo nível, poderão começar a surgir dúvidas em seu redor.
Toto Wolff tem permitido que os dois pilotos lutem livremente entre si, desde que os interesses da equipa sejam respeitados — uma filosofia que gerou momentos de corrida espetaculares, sobretudo no Canadá, mas que também levanta questões sobre como gerir os dois lados da garagem. A equipa já esteve nessa posição e sentiu as agruras de um duelo que várias vezes foi para lá do limite. Wolff quer evitar ao máximo um “remake” da temporada 2016 e, até agora, tem sido fácil de gerir o duelo interno, até porque raramente Russell e Antonelli se têm encontrado em pista. Mas o cenário pode mudar.
Notas

Mercedes – Nota 9
Kimi Antonelli – Nota 9,5
George Russell – Nota 8

Fotos: MPSA
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