Luís Miguel Rego ergue 5º título e aponta desafios: “eventos como Rali dos Açores são fundamentais para a nossa economia”
Consagrado antecipadamente como campeão dos Açores de Ralis de 2026, Luís Miguel Rego alcançou o quinto título da carreira no automobilismo regional. Em entrevista à RTP Açores, o piloto açoriano abordou a conquista da temporada, o futuro das viaturas Rally2 no arquipélago e a delicada conjuntura económica ligada ao turismo regional, face ao tão esperado regresso da prova rainha, o Rali dos Açores, ao Campeonato de Portugal de Ralis e eventualmente, um dia ao Europeu de Ralis.
Crise no turismo e o futuro do Rali dos AçoresO piloto destacou o papel determinante que eventos desportivos de grande dimensão desempenham na economia açoriana, apontando o exemplo da Madeira como referência na maximização do turismo através dos ralis. Segundo o testemunho recolhido, a falta de garantias financeiras e a contração sentida no setor turístico colocam em risco a sustentabilidade de provas emblemáticas. Luís Miguel Rego sublinha que a organização de eventos desta envergadura, a cargo do Grupo Desportivo Comercial, debate-se com constrangimentos orçamentais profundos agravados pela conjuntura atual das acessibilidades aéreas e pela sazonalidade: “É uma luta já antiga e tem sido um trabalho, de certa forma, inglório até para o Grupo Desportivo Comercial, que tem lutado para trazer de volta esta prova emblemática ao Campeonato de Portugal de Ralis. O Campeonato da Europa, para já, é outro patamar, mas neste momento o ‘Nacional’ acho que está perfeitamente ao alcance. Mas, como é óbvio, sem uma garantia financeira de poder pôr na estrada um evento como este, a organização fica de pés e mãos amarrados.”Portanto, e face à crise, se assim se pode dizer, que atravessamos aqui no turismo, eventos como este, são fundamentais para a nossa economia. Basta ver o exemplar que temos aqui muito perto e que olhamos como exemplo e como referência no turismo, que é a Madeira, onde, pelo seu governo, é claramente uma realidade que o rali é um evento super importante.É um evento caracterizado como a época alta do turismo na Madeira. É um evento que move e movimenta muita gente, move a ilha toda, e um evento que, a nível de impacto direto na economia — já para não falar no impacto a nível de promoção —, é super importante. Portanto, acho que para nós, enquanto ilhas e enquanto Açores, também não deve ser diferente. Quando já tivemos uma prova como essa presente no Campeonato da Europa, o ERC, e vimos bem de perto o impacto que tem! Portanto, acho que ainda mais sentido faz termos este evento no Campeonato Nacional, com esse evento a decorrer, já não só pela vertente desportiva, mas também pela vertente económica e promocional que um evento com essa envergadura traz aos Açores.”Após a covid, em 2022, 23 e 24, quando houve um novo boom de crescimento no turismo, foram criadas estruturas incentivadas também, em certa parte, pelo governo, por apoios que o governo disponibiliza: a criação de unidades hoteleiras, a criação de alojamentos locais, a criação de inúmeras empresas à volta do setor do turismo que necessitam, digamos assim, de muitas bocas para alimentar, ou seja, necessitam de muitos turistas.O mínimo de crescimento, tendo em conta todas essas estruturas que foram criadas ao longo desses anos, torna logo notório um impacto bastante grande. E desde que saiu a Ryanair, não só o número de lugares que se perdeu, mas também aqui um custo bastante elevado nas passagens aéreas, isso tem feito chegar menos gente aos Açores e tem tido um impacto, não em todos os setores do turismo, mas em alguns com um impacto bastante significativo. E a pior parte, no entanto, ainda não chegou. Portanto, neste momento estamos na época alta. Aqui estamos um bocadinho adormecidos, digamos assim, porque a época alta, o verão, está sempre de ‘casa vendida’, como se costuma dizer.Eu até acho que, de certa forma, alguns dos empresários estão aqui um bocadinho adormecidos na sua reivindicação, digamos assim, mas acredito que a partir da primeira quinzena de setembro, assim que houver o regresso às aulas, nós vamos sentir de forma forte este impacto, esta crise no setor do turismo. E ainda não vi, e não vejo ainda, grande preocupação e preparação, digamos assim, de uma estratégia para combater esta sazonalidade, que vai ser cada vez mais vincada. E espero, naturalmente, que vão ser seis meses bastante longos até ao regresso do verão do próximo ano” disse à RTP Açores.
Balanço da época e a perda de competitividade nos Rally2Analisando a temporada de 2026, o piloto reconheceu que cumpriu o objetivo delineado de conquistar o título regional com uma viatura de última geração. Contudo, lamentou a escassez de concorrência direta na categoria máxima ao longo do ano. Para Luís Miguel Rego, a redução da presença de carros Rally2 no campeonato resulta de um ciclo negativo que afasta os investidores e enfraquece o espetáculo, apontando a necessidade urgente de os clubes e a Federação reavivarem o interesse das equipas e de patrocinadores históricos para evitar a estagnação da modalidade.
O peso da responsabilidade e o cenário nacionalDefender a continuidade dos carros de quatro rodas motrizes e garantir que a classe rainha não desapareça dos troços açorianos foi assumido pelo piloto como uma prioridade pessoal e profissional. Apesar de reconhecer o mérito de outros pilotos açorianos que brilham no panorama nacional, como Rúben Rodrigues, Luís Miguel Rego descartou uma mudança a tempo inteiro para o Campeonato de Portugal de Ralis, apontando os elevados custos logísticos e os impedimentos da sua atividade profissional no setor do turismo como obstáculos intransponíveis para uma transição completa: “Gostava muito, mas, infelizmente, a luta pelo CPR obriga a duas coisas que não são fáceis de conseguir realizar. Primeiro, eu preciso de um orçamento bastante avultado para conseguir discutir um campeonato que nos permita lutar pelas vitórias. E depois, outra coisa é ter disponibilidade, porque não basta só sair à terça-feira ou à quarta-feira para uma ilha para treinar dois dias de rali e estar pronto para o rali. Infelizmente, a minha vida profissional não me permite.Gostava muito, teria que ser uma volta de 180 graus na minha vida, mas que nesse momento é completamente impossível. Quem sabe um dia mais tarde, mas neste momento não há hipótese nenhuma disso acontecer”, disse Luis Rego que elogia o seu compatriota Rúben Rodrigues, que lidera o campeonato de Portugal: “O que eu referi é exatamente o que está a acontecer. Neste momento nós temos o Rúben Rodrigues a discutir o CPR, e na liderança do mesmo, e com as coisas muito bem encaminhadas. E espero que assim continue, e que vença, e que traga um título para os Açores. E só demonstra que os pilotos açorianos, mais uma vez, se tiverem as condições necessárias, têm todo o talento para poder discutir um Campeonato Nacional de igual para igual com os melhores a nível nacional.Portanto, o Rúben conseguiu montar muito bem o seu projeto. Não é o de agora, já o vem a fazer há cerca de três anos, a preparar esta participação. Tem o orçamento que é necessário, tem todo o apoio dos seus patrocinadores, conseguiu gerir o seu tempo pessoal para se poder dedicar a 100% a este campeonato, e os resultados estão à vista. Portanto, é dessa forma que se consegue lutar por um campeonato” disse Luís Rego que deixa também um repto, quando confrontado com o crescimento competitivo de Pedro Câmara Jr. e a possibilidade deste lutar no futuro pelo título açoriano de ralis: “Não me admirava nada. Era com muito gosto que isso acontecesse, que pudesse lutar com o Pedro Cãmara. Eu gostava muito que o Pedro e outros também que estão a crescer e a aparecer pudessem estar a correr e a discutir o campeonato com um Rally2. Era sinal de que o futuro da modalidade estava garantido. No caso do Pedro, acho que precisa só de que a estrelinha da sorte o acompanhe e o guie, porque no resto tem tudo. Portanto, acho que estamos bem representados no futuro”, disse Luís Miguel Rego.
FOTOS Instagram Luis Rego Jr.
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