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Lembra-se do Mitsubishi amarelo que conquistou a Finlândia? 20 Anos depois, Ricardo Teodósio recorda: “experiência espetacular”

Lembra-se do Mitsubishi amarelo que conquistou a Finlândia? 20 Anos depois, Ricardo Teodósio recorda: “experiência espetacular”

Vinte anos volvidos sobre aquele agosto de 2006, o Rali da Finlândia continua a ecoar na memória de Ricardo Teodósio como muito mais do que uma simples estreia: foi uma epopeia de três dias, escrita a falhas de travões, injetores soltos e uma determinação de ferro que o levou a recuperar 61 lugares numa das provas mais lendárias do calendário mundial.
O peso da história: Quando um algarvio se atreveu a voar nas lombas finlandesasCorria o mês de agosto de 2006 quando Ricardo Teodósio e o seu navegador Paulo Primaz aterraram na Finlândia com um objetivo claro: aprender, sobreviver e, se possível, deixar marca. A bordo do Mitsubishi Lancer Evo IX, preparado pela Gatmo e estreado exatamente naquela prova, a equipa Teodósio Competições não imaginava que estava prestes a viver uma das aventuras mais intensas da sua carreira.“Finlândia? Só queria mais dois dias de rali!”, confessaria Teodósio no final, num desabafo que traduzia perfeitamente o misto de satisfação e saudade que lhe ficou da experiência. O balanço final — 31.º lugar na classificação geral e 13.º entre os carros de Produção — esconde uma história muito mais rica de resiliência e superação.
A Saga do Evo IX: “Os mal-entendidos foram eles que arranjaram”Já depois da participação na Finlândia, Ricardo Teodósio travou uma batalha burocrática com a FIA que quase os impediu de competir… no Rali de Portugal de 2007: “Lembro-me, lembro-me de muita coisa. Lembro-me de termos começado o rali, o carro era a estreia do Evo 9. Evoluímos a partir do Evo 7 para o Evo 9, a FIA tinha permitido que se fizesse, mas depois isso deu mais à frente uma barraca de primeira apanha no Rali de Portugal de 2007”, recorda Teodósio.“Porque a FIA não tinha as coisas bem explícitas e eu, na altura, quando fiz a alteração do carro, perguntei-lhes: ‘Posso fazer a evolução do carro de 7 para 9?’. Eles disseram que sim, podia fazer porque dava. Tinha era que usar todas as peças do Evo 9. E assim foi, a gente fez tudo direitinho, com o meu pessoal, através da Gatmo, em França. Fizemos tudo, fomos para a Finlândia. Estava tudo certo, tudo direitinho.”
“Meses depois, quando chegamos aqui à nossa casa, no Rali de Portugal de 2007, os senhores da FIA queriam impedir-nos de correr, porque diziam que o carro era um 7, não era um 9. Arranjei uma confusão danada com a FIA, com o Comissário Técnico Chefe que lá estava na altura. Ele dizia-me que eu estava fora e eu dizia que não estava fora. Ele dizia: ‘Ah, vamos verificar o carro todo’. Verificaram-me o carro todo de uma ponta à outra e eu provei-lhes que o meu carro estava ‘direito’.”“Depois expliquei a outro elemento da FIA que tinha a ficha de homologação do carro mal feita, mal diferenciada, era simples, e o problema ficou resolvido. Os mal-entendidos foram eles que arranjaram.”

O inferno da 1ª Etapa na FinlândiaSem travões, sem gasolina e com a polícia finlandesa a ajudar! A primeira etapa começou com um “brilharete”: quarto tempo entre os carros de Grupo N na superespecial de abertura. Mas a sorte não duraria muito. “Logo no primeiro troço, logo saltaram duas fichas dos injetores. Fiquei com o carro em dois cilindros e, se não bastasse, numa zona que tinha um buraco daqueles valentes, mandei com a frente no chão e o carro dobrou as pontas das longarinas, subiu à frente. Deu-me ali pano para mangas, logo”, descreve Teodósio.
“Depois, se não bastasse esse problema, que parámos e resolvemos — eu vi qual era o problema: as fichas não tinham levado os ‘clipezinhos’. Resolvi o problema com braçadeiras de plástico, pus à volta do injetor e da ficha. Resolvi o problema, mas no troço a seguir fiquei sem travões. Eh, pá, fiquei sem travões! O meu irmão foi até comigo a tentar entregar-me óleo de travões. Entregou-me para eu me desenrascar, mas o tubo estava roto, atrás do lado esquerdo, e a gente não conseguia fazer nada, não tinha nada para vedar o tubo.”“Passamos esse troço, fizemos parte desse troço sem travões. No fim do troço, tinha de parar, tínhamos o controlo para parar, mas sem travões fomos parar uns 300 metros à frente do sítio que era para parar. Demos um cagaço àquela malta. O Paulo Primaz veio a correr para trás com a carta na mão, foi carimbar e explicou: ‘É pá, estamos sem travões’.”
“E pronto, fomos até à assistência. Entretanto, passamos um posto de abastecimento que estava escondido atrás de uma casa e nós não vimos. Chegamos à assistência sem gasolina, sem travões. A polícia na Finlândia é muito rígida e não me esqueço: estava numa fila de trânsito para ir para Jyväskylä, um polícia numa mota vem buscar-nos no meio do trânsito — mas não sei se estás a ver o filme. O polícia de mota a mandar andar atrás dele, para fugir ao trânsito, e nós sem travões. Foram várias vezes que o polícia esteve em risco de se sentar em cima do capot do Mitsubishi. Lá conseguimos chegar, o polícia ajudou-me muito, mas cheguei a 500 metros da assistência, sem gasolina. Tivemos que empurrar o carro, eu e o Paulo Primaz, até entrar no parque de assistência. Aí estava o meu irmão Vítor, o Rosalino, o Manel, toca de empurrar o carro. Tínhamos no máximo 15 minutos para não ser desclassificados, demorámos 14 minutos até entrar no parque de assistência.”
“Depois, foi reparar o carro, pôr o carro em condições. Saímos do parque da assistência 1 minuto atrasados, ou seja, queimamos os nossos 15 minutos, a tolerância acabou. Ou seja, ao fim dos primeiros quatro troços, já tínhamos queimado os minutos que todos tínhamos. Ou seja, pela frente tínhamos mais dois dias completos de rali e não podíamos atrasar porra de nenhuma. Estão a ver o filme!”

A heróica recuperaçãoCom o carro reparado, mas longe de estar a 100%, Teodósio e Primaz lançaram-se numa recuperação épica que os levaria a subir 61 lugares ao longo do rali: “Depois, a assistência, conseguimos reparar o carro. A seguir, fizemos o rali sempre a recuperar, já sem problemas no carro. O carro não estava a 100% ainda, porque tínhamos uma centralina que não estava a 100% e o carro não estava a andar o que deveria andar, nem a travar o que devia travar. Mas pronto, era a primeira prova em terra com o carro, era a Finlândia, a primeira vez, era tudo novo para nós: os saltos, os pontos de referência — que a gente não tinha, eram as árvores que não ajudavam muito, eram todas iguais —, depois aquelas lombas todas, aqueles enormes saltos que todos sabem que existem na Finlândia, são espetaculares, mas não tínhamos quaisquer referências.”
“Aprendi mais umas coisas novas, tinha mesmo que me guiar pelas árvores. Mas foi uma experiência espetacular. Fomos recuperando, recuperando, acabamos por fazer o 31º geral no rali, 14º do Grupo N. Mas se nós não tivéssemos tido as penalizações todas e se tirássemos os primeiros três troços da classificação, fazíamos 10º da geral no Grupo N e éramos o melhor estreante, rookie, pois era a primeira vez que fui à Finlândia.”
“Fiz uns tempos muito engraçados, andei a fazer quartos tempos à geral do Grupo N. E ganhei uma série de fãs na Finlândia. Dei — sei lá — mais de 1.000 autógrafos na altura, coisa que não era muito normal, a gente dar autógrafos. Mas com a minha maneira de ser e de estar nos ralis, conduzir daquela minha maneira, os finlandeses ficaram malucos com o carro amarelo. Andava tudo doido atrás de mim para tirar fotografias e autógrafos. Tiravam fotografias e à tarde apareciam com uma fotografia grande, com um poster, para eu autografar.”
“Penso que fizemos um bom rali e aprendemos muito, o que era o nosso principal objetivo. No final, só posso dizer que só tive pena que o rali não tivesse mais dois dias ou então que os reconhecimentos tivessem sido feitos com três passagens e não apenas com duas, pois, penso que, em qualquer desses casos, o resultado teria sido ainda melhor. Na verdade, fomos apenas três segundos por quilómetro mais lentos que os vencedores da Produção e, nos últimos troços, apenas dois, o que é bastante bom, pois, por exemplo, a primeira vez que o Xavi Pons guiou aqui, essa diferença era de quatro segundos!”, analisaria Teodósio.
O assustador ‘salto’ de velocidade“Das primeiras para as segundas passagens foi possível melhorar muito!” Um dos maiores desafios enfrentados por Teodósio foi a adaptação às notas de navegação finlandesas, onde as velocidades nos reconhecimentos eram drasticamente diferentes das da prova.“Chega a ser assustador! Às vezes chega a ser assustador passar em determinadas zonas, pois num sítio que nos reconhecimentos passamos a 80 km/h, na prova passamos a 160 km/h, o que acaba por significar que curvas que temos nas notas como sendo de terceira se transformam depois em curvas de quinta. Por isso é que das primeiras para as segundas passagens foi possível melhorar muito os tempos, já que, por exemplo, num local onde na primeira passagem atingi os 168 km/h, na segunda passei já a 183 km/h!”, descreve o piloto. “Difícil é também avaliar a velocidade de ataque de cada curva, porque nunca sabemos bem se não vamos entrar demasiado depressa. O problema é que, se travamos demasiado, perdemos 20 km/h de velocidade de ponta na reta seguinte!”
O legado que permanece: “era uma experiência que eu gostava de repetir”Para a história fica também a multa por excesso de velocidade — cerca de 115 euros — que a equipa não conseguiu evitar numa das muitas ligações que teve de percorrer. Mas, como o próprio Teodósio reconhece, “com um resultado tão positivo, quem é que quer ficar com más recordações?”.“Foi uma experiência espetacular. Era uma experiência que eu gostava de repetir”, disse Ricardo Teodósio, que na sua carreira fez três ralis em Espanha — dois em Madrid e um nas Astúrias — e a única vez que saiu da Península Ibérica foi para o Rali da Finlândia de 2006.
“Qualquer dia tenho que fazer um documentário na Netflix”, disse Teodósio, que, depois de lhe ter falado na possibilidade de poder fazer ralis como o Eifel ou o Legend no futuro, acrescentou: “Eu já tenho isso aqui mais ou menos em mente, fazer um Mitsubishi para ‘essas brincadeiras’. Já falei com o Paolo Diana, que me disse: ‘Quando quiseres vir correr para a Itália, fazer estes ralis, Sanremo, San Marino, diz-me, que é para eu orientar as coisas, para tu vires…’”.
O eco de um verão finlandêsDuas décadas depois, o Rali da Finlândia de 2006 permanece como um marco indelével na carreira de Ricardo Teodósio. Não foi apenas uma estreia – que acabou por ser única, até ver – foi uma declaração de intenções, uma prova de carácter e uma demonstração de que, mesmo com travões partidos, injetores soltos e a polícia no encalço, há momentos no desporto automóvel que transcendem os resultados e se gravam para sempre na memória de quem os viveu.O carro amarelo pode já não voar sobre as lombas de Jyväskylä, mas o espírito daquela aventura — a coragem, a resiliência, a paixão — continua tão vivo como no verão de 2006. E, como o próprio Teodósio confessa, “Finlândia? Só queria mais dois dias de rali!”.
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