A carregar agora

Evergrande: errar, corrigir e aprender

Evergrande: errar, corrigir e aprender

A condenação à prisão perpétua de Hui Ka Yan, fundador da Evergrande, encerra simbolicamente um dos capítulos mais extraordinários do capitalismo chinês recente. A empresa chegou a acumular mais de 300 biliões de dólares (cerca de 257 mil milhões de euros) em passivos. Mas Hui não foi condenado porque sua empresa fracassou. Foi responsabilizado por crimes financeiros praticados durante a expansão de um império que, por muito tempo, parecia grande demais para cair.
O episódio oferece três grandes lições sobre o capitalismo e a responsabilidade empresarial. A primeira é que ser grande demais para quebrar (“too big to fail”) não pode significar ser grande demais para responder por seus atos (“too big to jail”). O Estado pode precisar proteger compradores de imóveis, preservar a estabilidade financeira e impedir que a quebra de uma companhia contamine toda a economia. Isso, porém, não significa proteger seus controladores. A China não apenas permitiu o colapso da Evergrande, como também responsabilizou Hui, outros executivos e instituições envolvidas. Até mesmo a empresa de auditoria, PricewaterhouseCoopers (PwC),  uma das chamadas “Big Four” do mercado de contabilidade global, foi severamente punida pelo governo chinês.
A segunda lição é que o capitalismo pressupõe risco, mas também responsabilidade. Fracassar faz parte da atividade empresarial; fraudar, esconder passivos ou utilizar indevidamente recursos de terceiros, não. A legitimidade do mercado desaparece quando os ganhos permanecem privados, enquanto as consequências da irresponsabilidade são transferidas à sociedade.
A terceira lição é mais complexa: não existe responsabilidade empresarial sem responsabilidade institucional. A Evergrande não acumulou centenas de bilhões de dólares em passivos escondidos do Estado e do sistema financeiro. Bancos emprestaram, governos locais venderam terrenos, auditores examinaram balanços e reguladores acompanharam sua expansão extraordinária. Se a empresa chegou a essa dimensão, houve também uma falha sistémica.
Mas é justamente aqui que talvez apareça a lição mais interessante da experiência chinesa: sistemas fortes não são aqueles que nunca erram, mas aqueles capazes de reconhecer seus erros, corrigir incentivos e aprender com eles.
A China começou a restringir a alavancagem excessiva das incorporadoras, mudou as regras de financiamento, interveio para reduzir o risco de contágio e puniu administradores e até instituições responsáveis pela fiscalização das contas das empresas. O processo foi doloroso e está longe de ser concluído. Mas revela uma tentativa de autocorreção.
Essa talvez seja uma característica decisiva para avaliar instituições. Nenhum sistema económico consegue eliminar erros, excessos ou crises. A questão é: quanto tempo leva para reconhecê-los e qual a sua capacidade de mudar quando percebem que determinado modelo chegou ao limite.
Punir Hui Ka Yan demonstra capacidade de enforcement. Impedir o surgimento da próxima Evergrande demonstrará qualidade institucional. A lição chinesa, portanto, não é que seu capitalismo não falha. A questão relevante é o que se faz depois da falha.
E aqui a China ensina uma grande lição ao mundo: quanto mais rapidamente um sistema identifica as suas próprias contradições, responsabiliza quem deve ser responsabilizado e modifica os incentivos que geraram o problema, maior é sua capacidade de adaptação. Errar revela as fragilidades de um sistema. Corrigir revela a sua força. Aprender determina a sua sobrevivência.

Share this content:

Publicar comentário