Portugal sem incentivos trava eletrificação dos camiões elétricos
Portugal continua a registar um atraso significativo na eletrificação dos veículos pesados de mercadorias, apesar da evolução positiva observada no segmento dos pesados de passageiros. O alerta é lançado pela ZERO – Associação Sistema Terrestre Sustentável e pela UVE – Associação de Utilizadores de Veículos Elétricos, que defendem um reforço das políticas públicas para acelerar a descarbonização do setor dos transportes.
As duas associações recordam que o Plano Nacional Energia e Clima (PNEC) estabelece como objetivo uma redução de 40% das emissões do setor dos transportes até ao final da década, face aos níveis de 2005, sendo a eletrificação dos veículos pesados considerada uma prioridade no Plano de Ação para a Eletrificação da União Europeia, apresentado em julho deste ano.
Segundo a ZERO e a UVE, a eletrificação dos veículos pesados continua a avançar em Portugal a um ritmo “muitíssimo tímido”, sobretudo no transporte de mercadorias, onde permanece praticamente inexistente. De acordo com os dados mais recentes do Instituto da Mobilidade e dos Transportes (IMT), relativos a 2024, apenas 0,1% dos veículos pesados de mercadorias eram elétricos, enquanto nos pesados de passageiros a percentagem ascendia a 3,8%.
Os dados do primeiro semestre de 2026 reforçam este atraso. Apenas 0,5% dos novos pesados de mercadorias com mais de 12 toneladas vendidos em Portugal eram elétricos, abaixo da média europeia de 2,3%. Nos Países Baixos esta quota atingiu 9,5%, na Dinamarca 8,8% e na Áustria 7%.
Nos camiões médios e carrinhas entre 3,5 e 12 toneladas, a quota portuguesa situou-se nos 17,4%, também abaixo da média europeia de 21,1% e bastante distante dos Países Baixos (69,8%), Dinamarca (57,1%) e Alemanha (29,8%).
Em contraste, o desempenho foi mais expressivo no transporte coletivo de passageiros. Os veículos elétricos representaram 55,4% das vendas de novos pesados de passageiros em Portugal durante o primeiro semestre de 2026, acima da média europeia de 28,6% e muito superior aos 12% registados no último trimestre de 2025. Ainda assim, o país permanece abaixo dos Países Baixos (69,6%) e da Dinamarca (60,3%), levando as associações a defenderem a continuidade dos apoios públicos após o fim do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR).
A ZERO e a UVE sublinham ainda que Portugal continua sem um programa nacional de apoio direto à aquisição de veículos pesados de mercadorias elétricos ou à instalação da respetiva infraestrutura de carregamento, ao contrário da maioria dos países da Europa Ocidental.
As associações salientam que um camião de distribuição regional que percorra cerca de 100 mil quilómetros por ano consome entre 33 mil e 35 mil litros de gasóleo, pelo que a eletrificação de apenas um veículo permite evitar anualmente um consumo de petróleo equivalente ao utilizado por mais de 30 automóveis ligeiros.
Na Europa, diversos países disponibilizam incentivos financeiros para a compra de pesados elétricos, benefícios fiscais, apoios à instalação de infraestrutura de carregamento, ligações à rede elétrica e reduções ou isenções de portagens. Segundo a ZERO e a UVE, uma empresa pode beneficiar de apoios que chegam aos 255 mil euros no Luxemburgo, cerca de 110 mil euros na Polónia e mais de 120 mil euros nos Países Baixos, enquanto na Alemanha e na Áustria os incentivos podem aproximar-se ou ultrapassar os 80 mil euros.
Em Portugal, os benefícios resumem-se atualmente a incentivos fiscais limitados.
“A ZERO e a UVE defendem um pacote integrado de incentivos à aquisição, à infraestrutura de carregamento e às respetivas ligações à rede elétrica, redução das portagens e prioridade administrativa à eletrificação das frotas, dirigido aos veículos de utilização intensiva e articulado com a transferência das mercadorias de longo curso para a ferrovia”, defendem as duas associações.
As organizações recordam ainda que, embora os veículos pesados representem apenas cerca de 2% da frota rodoviária europeia, são responsáveis por aproximadamente 27% das emissões de dióxido de carbono (CO₂) provenientes do transporte rodoviário.
Outro dos principais entraves identificados prende-se com a falta de infraestrutura de carregamento adequada para veículos pesados. Apesar de Portugal contar com mais de 15.500 pontos públicos de carregamento, incluindo 170 tomadas com potência igual ou superior a 350 kW, estas infraestruturas foram concebidas maioritariamente para veículos ligeiros e não oferecem, na maioria dos casos, espaço ou acessos compatíveis com camiões articulados.
A ZERO e a UVE assinalam, no entanto, que os primeiros postos públicos especificamente destinados ao carregamento de veículos pesados deverão entrar em funcionamento nos próximos dias, prevendo-se a existência de cerca de uma dezena de localizações até ao final de 2026. Ainda assim, consideram este número insuficiente para responder às necessidades do setor.
“As associações defendem a criação de incentivos específicos para a instalação de hubs de carregamento para veículos pesados, particularmente ao longo da Rede Transeuropeia de Transportes (RTE-T), em conformidade com os objetivos definidos pelo Regulamento AFIR.”
Além do reforço da infraestrutura de carregamento, a ZERO e a UVE defendem que a eletrificação dos pesados deve ser acompanhada por uma política de apoio ao armazenamento descentralizado de energia, através da instalação de baterias estacionárias, produção renovável local e sistemas inteligentes de gestão de energia, permitindo reduzir custos operacionais, necessidades de reforço da rede elétrica e maximizar a utilização de eletricidade renovável.
As duas associações propõem igualmente a criação de um programa nacional destinado a financiar carregadores de elevada potência, sistemas de armazenamento de energia, produção renovável local, postos de transformação, sistemas de controlo e ligações à rede elétrica, privilegiando plataformas rodoferroviárias, centros logísticos, portos, terminais de mercadorias e zonas industriais.
No plano financeiro, defendem ainda um reforço significativo do Fundo para a Mobilidade e Transportes e a mobilização do Fundo Ambiental para apoiar não apenas a aquisição de veículos pesados elétricos, mas também a infraestrutura de carregamento e os sistemas de armazenamento de energia.
“A ZERO e a UVE defendem um aumento muito significativo da dotação do Fundo para a Mobilidade e Transportes, que atualmente não financia a eletrificação de veículos pesados, e a mobilização do Fundo Ambiental para apoiar também a eletrificação dos pesados e adicionalmente o armazenamento distribuído de energia em localizações estratégicas.”
Segundo as associações, os recursos deverão ser alimentados por fundos europeus e por uma afetação progressivamente maior das receitas do Imposto Único de Circulação (IUC), do Imposto sobre Veículos (ISV) e do Imposto sobre os Produtos Petrolíferos e Energéticos (ISP), com o objetivo de financiar a transição energética dos transportes até meados da próxima década.
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