Categoria de apoio ‘elétrica’ no WRC: debate, desafios, e a voz da comunidade
Há algum tempo que se fala da possibilidade da inclusão de uma categoria de apoio ao WRC… elétrica. Como se pode calcular, as reações da comunidade são muito divididas. A Opel já tem uma competição deste tipo, a GSE Rally Cup, sendo que a transição energética no desporto automóvel continua a gerar intenso debate, em especial, relativamente ao ruído, à segurança nas florestas e aos custos logísticos.
Resistência dos adeptos e os desafios técnicos dos elétricosA hipótese de introduzir viaturas elétricas no panorama internacional de ralis esbarra, desde logo, na forte ligação dos adeptos à vertente sensorial da modalidade.A ausência do característico som dos motores a combustão é vista como o principal entrave à aceitação de uma categoria deste género pelos espetadores nas especialidades de estrada, se bem que facilmente a FIA poderá resolver essa questão, e para isso basta alegar razões de segurança. E como o faria? Com a obrigatoriedade de geradores de som como alerta precoce. O som realista pode ajudar na experiência do público, enquanto a regulamentação técnica da FIA funciona estritamente como um dispositivo ativo de proteção de tráfego e peões em meio aberto.
Paralelamente, a tecnologia atual impõe exigências acrescidas em termos de segurança e logística. O peso das baterias exige estruturas reforçadas e sistemas de travagem de maiores dimensões, enquanto a atuação de equipas de resgate e o combate a incêndios em zonas florestais remotas representam desafios complexos e dispendiosos.Experiências anteriores noutras disciplinas revelam igualmente que a transição elétrica exige cautela. O Mundial de Rallycross (WRX) e a classe RX2e enfrentaram quebras de audiência e dificuldades de gestão ao tentarem impor a eletrificação total, o que levou a organização a reintroduzir os motores de combustão interna.
Regulamentos FIA e os projetos pioneiros em solo europeuApesar das reservas, o enquadramento regulamentar da FIA já contempla a abertura tecnológica. Com a entrada em vigor do regulamento WRC27, a partir de 2027 os construtores terão liberdade para homologar viaturas com motores a combustão alimentados por combustíveis sustentáveis, soluções híbridas ou propulsão 100% elétrica.No plano prático, a competição elétrica de ralis já começou a dar os primeiros passos através de troféus monomarca com homologação eRally5. O troféu ADAC Opel GSE Rally Cup constitui o exemplo mais visível no continente europeu, utilizando modelos como o Opel Mokka GSE e e-Corsa em provas de âmbito nacional e internacional.De igual forma, a Alpine desenvolveu a versão de competição do A290 para troféus específicos.
O que dizem as vozes da comunidadeAs opiniões recolhidas entre a comunidade e os intervenientes do desporto refletem a complexidade do tema, expondo argumentos contrastantes sobre o futuro da modalidade. “A natureza dos veículos elétricos adapta-se muito melhor ao Rallycross do que ao rali de estrada, pelo menos com a tecnologia de baterias e os padrões de segurança atualmente disponíveis”, defendem uns.Na mesma linha, sublinha-se a importância do fator emocional nas provas de estrada: “O som é uma parte fundamental dos ralis e do desporto automóvel em geral. Ouvir essas máquinas a rugir no meio da floresta é um espetáculo por si só, e é por isso que os elétricos vão falhar sempre neste ambiente”.
Por outro lado, perspetivam-se benefícios no que respeita à proximidade com o mercado automóvel de série. Há quem entenda que existem vantagens na criação de uma classe de apoio: “Eu assistiria com interesse. Uma classe de apoio seria o ponto de partida ideal para a eletrificação. Uma das melhores coisas dos ralis é que os carros são semelhantes aos que as pessoas normais têm na garagem”. Com o regulamento WRC27 a abrir portas a diferentes soluções de propulsão, caberá aos construtores e aos promotores decidir se o futuro do rali passará pela convivência entre o som dos motores tradicionais e a eficiência das novas tecnologias.”
Enquanto os saudosos da combustão continuam agarrados ao eco do passado e convictos de que «antes é que era bom», fechando a porta a qualquer mudança, os adeptos de mente mais aberta olham para tudo o que é evolução tecnológica — incluindo, mas não só, a eletrificação — não como o fim da essência dos ralis, mas como um novo próximo capítulo para manter a modalidade viva na estrada.
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