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Cinquenta anos de todos os futuros ainda por imaginar

Cinquenta anos de todos os futuros ainda por imaginar

E se furtarmos as palavras de Fernando Pessoa? “Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavrar. As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas.”
É com a imagem poderosa e sensual destas palavras que Pessoa inscreveu no “Livro do Desassossego” que entramos na nova temporada da Companhia Nacional de Bailado (CNB). Foi, precisamente, nesta obra que se inspiraram Marcelino Sambé e Daniel Cardoso para a criação de Desassossego, integrada no ciclo “Nova Criação”. Um espetáculo e uma só obra, construída em dois bailados distintos, que revelam diferentes formas de olhar Pessoa: a inquietação íntima, o desdobramento do eu, a solidão e a multiplicidade que atravessam a sua escrita.
“Nesta estreia absoluta, Marcelino Sambé e Daniel Cardoso convocam a dança como espaço de multiplicidade, introspeção e inquietação, traduzindo em movimento a riqueza poética e fragmentária do universo pessoano”, escreve Fernando Duarte, diretor artístico da CNB, num texto sobre a nova temporada da companhia. De 22 de outubro a 1 de novembro, Pessoa tomará conta do palco do Teatro Camões, em Lisboa.
Uma escolha, queremos crer, nada inocente. Uma obra maior de um nome incontornável e cimeiro da literatura ilustra o impulso criativo que tem caraterizado a CNB. E quando a companhia se prepara para celebrar meio século de existência, convocar o universo pessoano é sinónimo da sua abertura, versatilidade e apetência por surpreender o público, sem pôr em causa a sua identidade.
Como Fernando Duarte sublinha, “ao longo do seu percurso, a CNB construiu uma identidade onde a memória se transforma continuamente em impulso criativo. Esta nova temporada afirma-se como um território onde os ecos do passado ressoam com renovada vitalidade, projetando-se num futuro que se quer aberto, plural e surpreendente.”
Viagem entre memória e futuro
Como não somos reféns da ordem cronológica, propomos saltar no tempo para nos mantermos na linha das novas criações. Caso de “A extraordinária Companhia”, de Fernando Duarte, com composição musical original de Edward Ayres d’Abreu, interpretada pela Orquestra de Câmara Portuguesa sob direção do maestro Pedro Carneiro. Uma criação que liga passado e futuro, projetando “o entusiasmo e a ambição dos próximos cinquenta anos — e de todos os futuros ainda por imaginar.”
Não se trata de uma antologia, antes é uma homenagem às múltiplas dimensões da vida de uma companhia única — as pessoas, os artistas, as personagens, os ambientes, as sonoridades, as sensações e os caminhos que, ao longo do tempo, construíram uma história transformadora.
Os grandes clássicos, obviamente, também não poderiam faltar. Em dezembro, de 11 a 27, A Bela Adormecida sobe ao palco do Teatro Camões, mais de uma década depois da sua última apresentação, com coreografia de Ted Brandsen e música de Piotr I. Tchaikovski, sob direção musical de Antonio Pirolli. Uma nova leitura de uma das mais emblemáticas partituras de Carl Orff poderá ser vista entre 25 de fevereiro e 7 de março de 2027, integrada no ciclo “Grandes Mestres”. Agora na versão coreográfica de Edward Clug, em estreia em Portugal, interpretada pela Orquestra Sinfónica Portuguesa e pelo Coro Lisboa Cantat, dirigidos por Pablo Urbina.
A CNB prossegue com a sua política de ensaios gerais solidários, a par do ciclo “Vamos Falar de Dança”, conversas que antecedem os espetáculos e sempre com entrada livre, mediante inscrição prévia no site. A que se soma o ciclo “No Final Falamos”, conversas com artistas e direção artística, como o próprio nome indica, no final do espetáculo. As datas estão disponíveis no site da companhia, assim como todas as atividades que envolvem as escolas. A vertente novos públicos continua a ser um pilar da missão da CNB, reforçado na temporada 2026/2027 com uma nova criação especialmente dedicada ao público infantil e juvenil, Pedro e o Lobo. Pela primeira vez na história da Companhia, a célebre fábula musical de Sergei Prokofiev ganha corpo através da dança, pela visão do coreógrafo Andreas Heise. Em palco, a interpretação musical estará a cargo da Jovem Orquestra Portuguesa, sob direção do maestro Jorge Leiria.
Se o mote desta temporada é celebrar o “extraordinário percurso” da CNB, faz todo o sentido terminar dando a palavra ao seu diretor artístico. “Entre tradição e contemporaneidade, entre património e descoberta, a dança surge como linguagem capaz de atravessar o tempo e de reinventar o significado de extraordinário.”

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