De Queanbeyan ao topo: o legado de Mark Webber no automobilismo
Há histórias no desporto automóvel que transcendem vitórias e pódios. A de Mark Webber é uma delas. Da pequena cidade australiana de Queanbeyan, no interior da Nova Gales do Sul, ao lugar mais alto do pódio em Le Mans, passando pela Fórmula 1 e pelo regresso triunfal à resistência, o percurso do piloto australiano é um testemunho de resiliência, paixão e determinação.
O karting como génese de um sonho“Foi exatamente aqui, em Queanbeyan, que pilotei um kart pela primeira vez”, recorda Webber, evocando o momento em que tudo começou. “Amo a velocidade desde criança. Adorava aquilo. Ter aquele nível de independência e controlo ao volante com tão pouca idade era incrível.”
O kart tornou-se rapidamente uma obsessão. “Quando ele começou a andar de kart, desinteressou-se pela escola. O karting tornou-se uma paixão”, recorda o pai, Alan Webber, entre risos. “Acho que dirigi mais de 100 mil quilómetros nos primeiros dois anos apenas na Austrália. Sempre com pouquíssimos recursos. O custo de vida era alto. Eram tempos difíceis.”
A falta de meios, longe de o desmotivar, serviu de combustível. “Vi outras pessoas com muito mais recursos. Elas tinham muito mais dinheiro para investir, mas acho que isso me motivou a provar que eu também podia competir de igual para igual com elas”, confessa. “Houve momentos de muito sacrifício, mas que emoção para um pai! Eu simplesmente adorava aquilo.” Em 1993, o campeonato estadual foi conquistado. “Fiz um pequeno teste na Fórmula Ford, que era a porta de entrada para o automobilismo”, recorda. A partir daí, o caminho abriu-se.
A ascensão e o trauma de Le MansDois ou três anos depois, Webber já estava contratado pela Mercedes-Benz. Em 1998, no Campeonato FIA GT, o jovem australiano de apenas 21 anos liderava corridas e partilhava o pódio com lendas como Bernd Schneider. “A natureza das corridas é a resistência. O carro precisava ser fiável por longos períodos de tempo. A quilometragem que percorri trabalhando com ótimos colegas foi uma experiência fantástica”, recorda.
Mas 1999 trouxe o momento mais sombrio da sua carreira. Nas 24 Horas de Le Mans, durante os treinos, o carro arrancou a 300 km/h e levantou voo. “Muitas pessoas sabem como é levantar voo num avião. Foi a mesma sensação. Geralmente, num avião pousamos em segurança no final do voo, mas o carro não tem trem de aterragem. Pensei que era o meu fim”, recorda Webber.A mãe, Diane, recorda o susto: “Quando fui ao hospital, não sabia o que encontraria. Felizmente estava bem. Estava ferido, mas estavas ok. Foi brutal. Com certeza foi. Não gostei nada daquilo.”
A decisão foi imediata. “Naquele momento, tomei uma decisão. Nunca mais competiria naquele tipo de carro. Depois de Le Mans, em 1999, passei por um período desafiador. Eu era muito jovem, e minha carreira estava destruída. Eu estava abalado mentalmente, mas não queria terminar minha carreira daquela forma. Meu foco era voltar ao volante e entrar rapidamente na F1.”
A Fórmula 1 e o auge da carreiraA Fórmula 1 tornou-se o novo horizonte. “Correr na Fórmula 1 foi muito importante para mim. Foi uma experiência incrível competir com os melhores pilotos e ter êxito”, afirma. Ao longo da carreira, Webber subiu 42 vezes ao pódio e venceu nove Grandes Prémios. “Encerrar minha carreira na F1 em 2013, quando eu estava no topo, foi muito importante, mas eu ainda acreditava que tinha objetivos a realizar.”
O regresso à resistência, em 2014, com a Porsche, surpreendeu muitos. “Muitas pessoas estranharam a minha decisão, pois tive uma experiência muito difícil com carros desportivos no final dos anos 90”, reconhece. “Alguns familiares não ficaram muito animados: ‘Passamos por tudo aquilo e ainda queres competir?’ Era um projeto novo e empolgante, com novos colegas, então claro que eu queria continuar a competir.”
O título mundial de endurance e a redençãoEm 2015, na segunda temporada, a Porsche estava em ótima forma. “Tivemos vitórias expressivas, nas quais controlamos toda a corrida. Vencemos quatro corridas seguidas. Ninguém conseguia superar-nos”, recorda Webber.Mas o título só seria decidido nas 6 Horas do Bahrein, a corrida final. “Para a corrida do Bahrein, estávamos em excelente forma, lideravamos o campeonato e fizemos a pole position. Não tínhamos motivo para pensar que não conseguiríamos vencer”, diz.
O drama chegou cedo. “O carro tinha problemas, e o Timo precisou parar nos boxes. O atuador do acelerador estava com defeito. Nunca tinha acontecido connosco”, relata. “Se passássemos muito tempo parados, perderíamos muitos pontos, e isso seria catastrófico.”Caíram para a 19.ª posição. “Eu não podia acreditar. A situação era terrível, mas eu não deixaria a oportunidade escapar. O compromisso da minha família, que apoiou minha carreira desde minha juventude, e os desafios ao longo do caminho ensinaram-me a nunca desistir”, afirma Webber.“Basicamente, o carro aceitava 100% ou zero de aceleração, e eu precisava de usar toda a minha habilidade e experiência para levá-lo ao final. Perdi o motor novamente. Neel ultrapassou-me. Isso vai ser complicado. Preciso manter o foco. Até vermos a bandeira quadriculada, a corrida não acabou.”
Na última volta, a tensão era máxima. “Estamos bem, só precisamos alcançar a linha de chegada.” E conseguiram. “Foi um sonho. A equipa e os adeptos foram à loucura. Não podíamos acreditar que, apesar de tudo, tínhamos conseguido vencer.”
O legado e o regresso às origensHoje, Webber mantém viva a chama do karting. “Sempre tento ficar de olho nos jovens talentos. Ainda é minha paixão”, diz, na pista de karting que leva o seu nome, em Canberra. “Cresci em Queanbeyan. Para um garoto que assistia a corridas na TV, como eu, parece algo de outro mundo, mas poucos pilotos chegaram longe sem passar pelo kart. Nesta pista, eles podem começar a acreditar, experimentar, vir para cá com um kart e dar início ao sonho.”
Para um jovem piloto que ali treina, a presença de Webber é inspiradora: “Ter o Mark Webber aqui é muito importante para mim, porque me faz acreditar que posso chegar lá.”E o conselho do australiano é simples, mas profundo: “Tudo de bom. Deem tudo de si. Lembrem-se: é fácil ficar na média. Procurem ir além disso.”
“Por ter crescido numa cidade rural da Austrália, eu tinha poucas chances de alcançar meus objetivos, mas algo estava enraizado em mim: dar tudo o que eu tinha e aproveitar cada oportunidade”, conclui. “É preciso ter resistência para ser o melhor, porque as quedas são grandes e as vitórias são enormes, mas não há muita distância entre uma coisa e outra.”
O legado de Mark Webber não está apenas nos títulos ou nas vitórias. Está na capacidade de transformar adversidade em motivação, de regressar onde tudo começou para inspirar a próxima geração e de provar que, no automobilismo como na vida, a determinação pode superar qualquer obstáculo.
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