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Há 10 anos, o WRC susteve um dos maiores choques da sua história: o adeus da Volkswagen

Há 10 anos, o WRC susteve um dos maiores choques da sua história: o adeus da Volkswagen

A tempestade em Wolfsburgo e o fim de uma era de ouro
Há notícias que chegam em surdina, roçando o rumor improvável antes de se abaterem como uma machadada fatal sobre a comunidade do desporto automóvel. No outono de 2016, o mundo dos ralis prendeu a respiração perante a confirmação que ninguém queria ouvir: o Grupo Volkswagen decretava o fim imediato do seu programa oficial no Campeonato do Mundo de Ralis.
PHOTO : @World
Quatro anos de hegemonia absoluta, coroados por doze títulos consecutivos entre construtores, pilotos e equipas, esfumavam-se numa decisão de gabinete ditada por novas prioridades estratégicas e pelos abalos financeiros do famigerado Dieselgate.
O Polo R WRC, essa máquina de precisão germânica que pulverizou recordes desde a sua estreia em Monte Carlo em 2013, recolhia aos quartéis de general com um pecúlio assombroso de 42 vitórias em 51 ralis e 621 triunfos em especiais. Era o fim de um monstro sagrado da competição, deixando para trás um vazio difícil de preencher e agitando as fundações do mercado de pilotos com ondas de choque que sacudiram todo o pelotão internacional.
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Memórias de betume e o luto no ‘paddock’A herança deixada pela estrutura liderada por Jost Capito não se media apenas através do frio e implacável reflexo das tabelas classificativas, mas sim pelo nível superlativo de profissionalismo que impuseram nas estradas de terra e asfalto do planeta. Rivais directos, como a Hyundai Motorsport, reconheceram publicamente o peso daquela ausência. «Eles têm sido competidores ferozes e uma grande inspiração para uma nova equipa que entrou no desporto, como nós», lamentava na altura o diretor de equipa Michel Nandan, ecoando o sentimento generalizado de um Parque de Assistência que perdeu a sua referência de excelência.
A máquina alemã não dava hipóteses. Sébastien Ogier, o timoneiro perfeito desta dinastia, elevou o engenho de Wolfsburgo ao estatuto de lenda, secundado com brio por Jari-Matti Latvala e Andreas Mikkelsen. Ver aquele enxame de Polo R a rasgar os troços com uma simetria cirúrgica tornou-se a imagem de marca de uma época dourada. Contudo, a necessidade corporativa de vir agulha para a eletrificação e para a rentabilidade dos carros-cliente silenciou os motores oficiais, deixando órfãos milhares de adeptos que choravam o fecho de um ciclo irrepetível.

O reatar do baralho e o destino dos deuses sem tronoCom o súbito desemprego de três dos melhores pilotos do mundo — Ogier, Latvala e Mikkelsen —, o mercado de transferências transformou-se num tabuleiro de xadrez altamente volátil. O tetracampeão francês tornou-se o centro de todas as cobiças, dividido entre as portas abertas da M-Sport de Malcolm Wilson – para onde acabou por ir, com o sucesso que se conhece – o cortejo da Citroën e a nova aventura da Toyota.O próprio Malcolm Wilson não escondia a obsessão: «Nunca foi segredo que ele sempre foi a minha escolha número 1 […] tudo farei para que ele não fuja desta vez». E não fugiu…Enquanto jovens promessas como Esapekka Lappi viam os seus futuros tremer com a chegada iminente destes tubarões livres no mercado, o WRC preparava-se para reescrever as suas regras e reequilibrar forças entre Ford, Hyundai, Citroën e Toyota. O império da Volkswagen tombava, mas o eco das suas vitórias continua a ressoar na memória coletiva como o padrão máximo de perfeição técnica e desportiva que os ralis já alguma vez testemunharam.
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