A carregar agora

Veneza já tem mais camas para turistas do que habitantes. O turismo de massas está a transformar as cidades europeias

Veneza já tem mais camas para turistas do que habitantes. O turismo de massas está a transformar as cidades europeias

Durante décadas, Veneza foi uma cidade onde se vivia. Hoje, é cada vez mais uma cidade onde se passa. Durante o dia, Veneza continua cheia. As pontes, os canais e as praças recebem milhares de visitantes, enquanto hotéis, restaurantes e lojas beneficiam de um dos maiores fluxos turísticos da Europa. Mas, quando a multidão desaparece, fica uma pergunta cada vez mais difícil de ignorar: quantas pessoas ainda vivem realmente na cidade?
A questão ganhou novo destaque depois de o jornal espanhol elEconomista ter chamado a atenção para uma realidade particularmente simbólica: a capacidade de alojamento destinada aos visitantes já supera o número de residentes no centro histórico de Veneza.
Não se trata apenas de uma disputa por espaço. É uma transformação demográfica. Segundo dados citados por diferentes órgãos de comunicação social e autoridades locais, o centro histórico veneziano tem hoje menos de 50 mil habitantes. Em meados do século XX, eram várias vezes mais. A Reuters recordou, em 2024, que cerca de 72% dos habitantes tinham desaparecido do centro histórico ao longo de 70 anos.
Ao mesmo tempo, o número de visitantes atingiu níveis extraordinários. O El País apontou para cerca de 34,5 milhões de visitantes em 2025, contra aproximadamente nove milhões uma década antes.
É esta desproporção que está a alterar a própria natureza da cidade.
Mais camas para turistas, menos casas para quem vive
O crescimento do turismo não é, por si só, uma má notícia. Veneza obtém receitas importantes com os visitantes e uma parte significativa da economia local depende directa ou indirectamente desta actividade.
O problema surge quando os alojamentos destinados a turistas começam a competir directamente com as casas destinadas aos residentes.
Apartamentos que anteriormente eram arrendados a famílias podem tornar-se mais rentáveis como alojamento de curta duração. O comércio adapta-se a uma clientela temporária. Os preços sobem. E os trabalhadores que precisam de viver na cidade começam a procurar casa noutras zonas.
É uma dinâmica que pode acabar por alimentar-se a si própria: quanto mais residentes saem, mais espaço fica disponível para actividades destinadas aos visitantes; quanto mais a cidade se especializa no turismo, menos serviços quotidianos oferece a quem nela vive.
A Reuters descreveu precisamente este dilema quando noticiou os protestos de moradores venezianos contra a transformação da cidade num espaço semelhante a um parque temático. Em 2024, Veneza tornou-se a primeira cidade do mundo a cobrar uma taxa de entrada a determinados visitantes de um dia, numa tentativa de gerir as multidões.
Mas controlar o número de turistas durante algumas horas não resolve necessariamente o problema da habitação. É essa a batalha seguinte.
O problema deixou de ser apenas Veneza
Veneza é o caso extremo, mas não é um caso isolado. Em Florença, as autoridades estão a alargar as restrições aos novos alojamentos turísticos de curta duração para lá do centro histórico classificado pela UNESCO. A medida prevista para 2026 abrange mais de 103 mil imóveis, numa tentativa de reduzir a pressão sobre a habitação numa das cidades italianas mais visitadas. A Reuters descreveu a decisão como uma das maiores intervenções deste género em Itália.
Florença já tinha proibido novos alojamentos de curta duração no centro histórico em 2023. A nova estratégia procura impedir que a pressão simplesmente se desloque para os bairros imediatamente exteriores.
A questão é particularmente sensível porque o turismo constitui uma fonte essencial de emprego e receitas para a cidade. O objectivo das autoridades não é acabar com o turismo, mas impedir que a actividade turística retire demasiado espaço à habitação permanente.
É uma distinção importante. A Europa não está a discutir se deve receber turistas. Está a discutir quanto turismo consegue suportar sem expulsar os próprios habitantes.
Dubrovnik quer controlar os visitantes antes que seja tarde
Na costa croata, Dubrovnik tornou-se outro laboratório desta nova política turística.
A cidade medieval recebe um enorme número de visitantes, muitos dos quais chegam através de navios de cruzeiro. Para reduzir os picos de concentração, Dubrovnik adoptou medidas destinadas a distribuir melhor as chegadas.
O programa “Respect the City” procura controlar os fluxos turísticos e reduzir o impacto dos visitantes sobre o centro histórico. Segundo a Euronews, o porto espera receber em 2026 mais de 661 mil passageiros de cruzeiro, distribuídos por 461 escalas.
A estratégia passa por evitar que demasiados navios cheguem simultaneamente e por gerir melhor a circulação dos visitantes.
A ideia é simples: se não for possível reduzir significativamente o número total de turistas, pode pelo menos tentar-se impedir que todos cheguem ao mesmo tempo e aos mesmos lugares. É uma solução diferente da adoptada por Veneza, mas parte do mesmo diagnóstico.
Atenas também trava o alojamento local
Na Grécia, Atenas está a seguir outro caminho: limitar a expansão dos alojamentos turísticos de curta duração nas zonas mais pressionadas.
O Governo grego decidiu suspender novas licenças para alojamento de curta duração em três distritos centrais da capital. A medida foi apresentada como uma resposta à pressão simultânea do turismo e da crise habitacional.
A suspensão foi entretanto prolongada para 2026 nas três zonas centrais abrangidas. O problema é particularmente delicado numa cidade onde o turismo continua a crescer, mas onde os residentes enfrentam também um mercado imobiliário cada vez mais caro.
A mesma tensão começa a surgir noutras cidades e ilhas gregas. Em Paros, por exemplo, cerca de 15 mil residentes permanentes convivem com aproximadamente um milhão de chegadas anuais de passageiros. O Financial Times chamou recentemente a atenção para a pressão que este crescimento turístico está a colocar sobre infra-estruturas como a gestão de resíduos. O problema deixa assim de ser apenas imobiliário. É também ambiental.
E Lisboa?
Portugal não está perante uma situação comparável à de Veneza. Lisboa continua a ter uma população residente muito superior à do centro histórico veneziano e não pode ser descrita como uma cidade que esteja a desaparecer por causa do turismo.
Mas alguns dos mecanismos são semelhantes. A OCDE, no seu estudo económico sobre Portugal publicado em 2026, identifica o crescimento dos alojamentos de curta duração como um dos factores que pressionam o mercado habitacional, embora sublinhe que os efeitos variam muito de zona para zona.
Em Lisboa, o número de anúncios de Airbnb passou de 18.277, em Setembro de 2019, para 21.181, em Dezembro de 2024. A OCDE calcula que estes anúncios representavam cerca de 7,6% de todas as habitações da área urbana. A organização cita ainda estudos que encontram uma relação entre a concentração de alojamentos de curta duração e os preços da habitação a nível local.
Isto não significa que cada alojamento local esteja a provocar um aumento das rendas. Mas significa que, em determinadas zonas, uma parcela significativa do parque habitacional passou a estar ligada ao mercado turístico. E é precisamente a concentração geográfica que importa.
Nas zonas históricas de Lisboa, onde a oferta habitacional é limitada e a procura turística é elevada, pequenas alterações podem ter consequências muito maiores do que na periferia.
A comparação deve, por isso, ser feita com cuidado. Lisboa não perdeu 70% dos seus habitantes como aconteceu no centro histórico de Veneza. Não tem uma população residente reduzida a algumas dezenas de milhares de pessoas nem recebe dezenas de milhões de visitantes numa área tão pequena como a cidade italiana.
Mas Lisboa está a enfrentar simultaneamente uma crise de habitação e uma enorme procura turística. E a combinação pode ser explosiva.
Um relatório recente do Financial Times colocou Portugal entre os países europeus que enfrentam uma das maiores insuficiências de habitação. O jornal destacou Lisboa como um dos mercados onde a pressão sobre as rendas é particularmente elevada e referiu também o uso de apartamentos para alojamento turístico como um dos factores que reduzem a oferta disponível para residentes.
A questão é especialmente importante porque o turismo deixou de estar concentrado apenas nos grandes hotéis. Hoje compete também pelo mesmo apartamento que poderia ser arrendado a uma família, pelo mesmo edifício onde poderia viver um professor, um enfermeiro ou um funcionário de um restaurante e pelas mesmas ruas onde antes existiam negócios destinados sobretudo aos moradores.
A cidade que funciona para quem?
É aqui que a história de Veneza se torna relevante para Lisboa. O turismo gera emprego. Gera receitas fiscais. Mantém restaurantes e hotéis. Ajuda a financiar a conservação do património. Em muitas cidades europeias, é uma actividade económica indispensável.
A própria Reuters sublinha que a expansão do turismo pode ter efeitos muito positivos quando é acompanhada por uma estratégia adequada. O problema, segundo os exemplos analisados pela agência, surge quando o crescimento é mais rápido do que a capacidade das cidades para o absorver. A pergunta deixou, portanto, de ser “turismo ou não turismo”. É outra.
Que tipo de cidade queremos construir para a próxima década?
Uma cidade onde os turistas possam visitar os monumentos, comer nos restaurantes e dormir nos hotéis, mas onde continuem a existir escolas, mercearias, médicos, famílias e comércio de bairro? Ou uma cidade onde cada vez mais casas sejam transformadas em alojamento temporário e cada vez menos pessoas consigam viver no centro?
Veneza mostra o que pode acontecer quando a balança se desequilibra durante décadas. Florença está a tentar corrigir o rumo através das restrições ao alojamento turístico. Dubrovnik procura controlar os fluxos antes que estes destruam a experiência urbana. Atenas limita novas licenças em zonas sob maior pressão. E Lisboa tenta encontrar o seu próprio equilíbrio enquanto enfrenta, ao mesmo tempo, uma crise habitacional e uma procura turística que continua elevada.
O turismo não está a desaparecer da Europa. Pelo contrário. O que pode estar a desaparecer, em algumas das cidades mais procuradas do continente, é outra coisa: a possibilidade de viver nelas. E esse pode ser o verdadeiro custo do turismo de massas.

Share this content:

Publicar comentário