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Reno e Danúbio secam e colocam logística, energia e indústria europeias sob pressão

Reno e Danúbio secam e colocam logística, energia e indústria europeias sob pressão

A seca está a deixar de ser apenas um problema ambiental para se transformar numa ameaça económica para a Europa. Os níveis excecionalmente baixos do Reno e do Danúbio estão a dificultar o transporte de mercadorias, a pressionar o setor energético e a criar novos riscos para indústrias fortemente dependentes das duas grandes vias navegáveis europeias.
O alerta é da Coface, que considera que as consequências do atual episódio de seca poderão prolongar-se para além das próximas semanas, numa altura em que várias economias europeias já enfrentam um contexto de crescimento fraco.
O caso mais extremo verifica-se no Reno. Na estação de medição de Kaub, na Alemanha, o nível da água caiu para apenas 8 centímetros a 18 de agosto, muito abaixo dos 78 centímetros a partir dos quais a navegação começa a ficar condicionada. O valor fica também abaixo do anterior mínimo histórico de 25 centímetros, registado em 2018, segundo a seguradora de crédito.
O impacto já se faz sentir no transporte de mercadorias. No início de agosto, algumas barcaças que circulavam no Reno transportavam apenas cerca de 20% da sua capacidade habitual. No Danúbio, os operadores foram igualmente obrigados a reduzir as cargas, com cortes que chegaram a 40% em algumas zonas da Roménia.
Menos água, mais custos
O problema ganha dimensão porque o transporte fluvial, apesar de representar uma parcela relativamente pequena do transporte europeu de mercadorias, é estratégico para vários países. Na Alemanha representa 5,4% do transporte de mercadorias, enquanto na Roménia chega aos 19,2%.
A substituição por estrada ou ferrovia também não é simples. Uma embarcação fluvial pode transportar quase 2.000 toneladas de mercadorias, contra cerca de 1.500 toneladas de um comboio de mercadorias e apenas 25 toneladas de um camião cisterna, salienta a Coface.
Quando os rios baixam, a capacidade de transporte diminui e os custos sobem. Durante a grande seca de 2018, o preço do transporte fluvial aumentou 2,5 vezes para granéis sólidos e até 4,5 vezes para granéis líquidos, devido às restrições de carga e às sobretaxas cobradas pelos operadores.
O Reno e o Danúbio são responsáveis, em conjunto, por cerca de 72% do transporte fluvial europeu, com o Reno a representar 60% e o Danúbio 12%, de acordo com os dados citados pela Coface.
Energia também fica em risco
A pressão não termina na logística. Na Europa Central, os baixos níveis do Danúbio estão a criar dificuldades adicionais ao setor energético, nomeadamente no funcionamento das centrais nucleares que dependem da água do rio para o arrefecimento.
Na Hungria e na Roménia, a situação afetou as operações das centrais de Paks e Cernavodă, respetivamente. São as únicas centrais nucleares dos dois países e representam cerca de 40% da produção de eletricidade da Hungria e 20,5% da Roménia.
Quando a produção é afetada, os operadores têm de recorrer a eletricidade importada ou a centrais a gás, aumentando os custos. Na Roménia, segundo a Coface, a eletricidade importada pode custar entre duas e 2,5 vezes mais do que a produzida internamente.
Os governos húngaro e romeno já adotaram medidas temporárias para reduzir o consumo de eletricidade por parte de grandes consumidores industriais. A indústria automóvel, química e de materiais de construção está entre as mais expostas, numa altura em que a redução da atividade industrial poderá agravar o impacto económico da seca.
BASF entre as empresas mais expostas
Na Alemanha, um dos setores mais vulneráveis é a indústria química, fortemente concentrada ao longo do Reno.
O complexo da BASF em Ludwigshafen é um dos exemplos apontados pela Coface. Cerca de 40% das mercadorias da unidade são transportadas por barcaça, o que deixa a empresa particularmente dependente das condições de navegabilidade do rio.
Uma nova descida dos níveis de água poderá dificultar ainda mais as ligações com os grandes portos de Amesterdão, Roterdão e Antuérpia, fundamentais para as cadeias de abastecimento da indústria química.
O risco surge num setor que já enfrenta dificuldades. A produção da indústria química alemã caiu cerca de 20% desde 2018, pressionada pelos elevados custos energéticos e pela perda de competitividade.
Um novo travão ao crescimento alemão?
O impacto da seca pode chegar também aos indicadores macroeconómicos. A Coface recorda que, durante o episódio de níveis extremamente baixos de água de 2018, o crescimento do PIB real da Alemanha foi reduzido entre 0,3 e 0,4 pontos percentuais.
A situação atual preocupa particularmente porque ocorreu mais cedo e com maior intensidade do que em 2018, segundo a economista da Coface Eve Barré.
“Os níveis baixos do Reno e do Danúbio mostram que os eventos climáticos extremos deixaram de ser apenas uma questão ambiental. Tornaram-se um fator económico capaz de afetar simultaneamente a logística, a energia e a atividade industrial”, afirma a economista.
E o problema poderá não terminar com o verão. No Reno, o período sazonal de níveis baixos costuma prolongar-se até ao outono, pelo que as perturbações poderão continuar nas próximas semanas.
Para a Coface, o episódio é também um sinal de uma vulnerabilidade estrutural crescente. A redução da cobertura de neve, o recuo dos glaciares e o aumento da frequência de ondas de calor extremas poderão contribuir para tornar episódios de níveis muito baixos dos rios mais frequentes.
Para as empresas, isso significa que a seca deixa de poder ser tratada como uma perturbação pontual. A diversificação das cadeias de abastecimento e a capacidade de responder a interrupções provocadas por fenómenos climáticos extremos passam a ser, cada vez mais, uma questão de competitividade económica.
 

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