Daniel Vega: “A ambição internacional tem de começar localmente”
Santander, capital da Cantábria, Espanha, acolherá, a partir de 8 de setembro, a Coleção Banco Santander. As expectativas são altas, pois trata-se de um acervo pouco conhecido, construído ao longo de 160 anos, com obras desde a Renascença à contemporaneidade. Daniel Vega, diretor do novo centro cultural com a chancela da Fundación Banco Santander, partilha com o JE as ambições e singularidades deste novo projeto. Traz consigo a experiência de 28 anos no Guggenheim Bilbau, onde foi diretor de exposições e conservação, e liderou projetos de aproximação entre arte e tecnologia. Agora, o desafio é “criar um centro cultural profundamente enraizado em Santander, e na região da Cantábria, e também aberto ao mundo.”
Que papel terá o Faro na “marca cultural” da cidade?
O Faro Santander quer contribuir para o ecossistema cultural extraordinariamente rico da cidade, não competindo com o que já existe, mas acrescentando um novo espaço, novos públicos e novas possibilidades. Um lugar onde arte, cultura e tecnologia se unem, mas também onde as pessoas se encontram, participam e sentem que a cultura faz parte do seu dia a dia. O Faro pode ainda contribuir para o fortalecimento de Santander e da Cantábria como destino cultural no norte de Espanha, e para aumentar a sua visibilidade internacional. Para nós, essa ambição internacional tem de começar localmente. Uma instituição cultural torna-se relevante para além do seu território quando ganha significado para as pessoas que a rodeiam.
A Coleção Banco Santander foi constituída ao longo de 160 anos. Como a carateriza?
A coleção é, em muitos aspetos, um registo material da história da própria instituição. O arco temporal cobre mais de 160 anos e reúne um conjunto de obras muito diversificado, que abrange quase cinco séculos de arte e coloca a arte espanhola no centro da sua identidade. O que a torna especialmente interessante é, precisamente, essa diversidade de obras históricas extraordinárias de artistas como Ticiano, El Greco, Rubens, Velázquez e Goya, ao lado de artistas modernos e contemporâneos como Miró, Tàpies, Soledad Sevilla, Cristina Iglesias e Juan Múñoz. Não foi criada num único momento nem obedece a uma visão curatorial única. Diferentes períodos, gostos e circunstâncias moldaram-na gradualmente, reunindo grandes nomes dos Mestres Antigos Espanhóis e da pintura barroca, a par da arte moderna e da criação contemporânea. O Faro dá-nos a oportunidade não só de preservar este património, como também de o reinterpretar continuamente, tornando-o acessível a novos públicos.
Podemos dizer que o programa inaugural, “Obras-primas da Coleção Banco Santander”, define o tom para futuras abordagens a esta coleção ainda pouco conhecida?
O Faro vai permitir aproximar a Coleção Banco Santander ao público. É uma coleção extraordinária, mas que permanece relativamente desconhecida. O Faro será a sua casa permanente e, não menos importante, a coleção terá uma presença dinâmica no nosso programa. A exposição Obras-primas da Coleção Banco Santander, com curadoria de María Dolores Jiménez-Blanco, é o nosso ponto de partida, e coloca em diálogo quase cinco séculos de arte, desde Lucas Cranach, o Velho, a Juan Uslé. Ou seja, reúne artistas de períodos muito diferentes.
Esta ideia de gerar constantemente novas leituras é muito importante para nós. Uma coleção não é algo estático. Cada geração pode olhar para ela de forma diferente e fazer perguntas distintas. Queremos que o Faro seja o local onde isso acontece: onde a coleção possa ser investigada, interpretada e redescoberta a partir de múltiplas perspetivas.
As exposições “Leonora Carrington: el surrealismo sintomático” e “México Moderno en la Colección Gelman Santander” pretendem alargar o âmbito do Faro?
Muito, e de formas diferentes, mas complementares. A exposição México Moderno en la Collección Gelman Santander é uma das mais importantes coleções de arte mexicana do século XX, com cerca de cem obras de artistas de renome como Frida Kahlo, Diego Rivera, Rufino Tamayo, José Clemente Orozco, David Alfaro Siqueiros, Gunther Gerzso e Francisco Toledo. Já a exposição de Leonora Carrington funciona de uma forma diferente, pois liga um episódio importante da biografia de Carrington a Santander – a cidade onde pintou “Down Below” e “Villa Pilar”, em 1940 – à trajetória internacional de uma das mais importantes artistas surrealistas. E também reflete um outro objetivo do Faro: investigar e gerar novo conhecimento. A recuperação de “Villa Pilar”, que nunca foi exibida anteriormente, é um excelente exemplo. Juntas, estas exposições ilustram o propósito do Faro: queremos olhar para fora de Santander, mas também mostrar que histórias com raízes na cidade podem ter impacto internacionalmente.
A sua experiência no Guggenheim Bilbau terá um papel decisivo na internacionalização do Faro?
Cada experiência profissional molda a forma como se aborda um novo projeto, e trabalhar num ambiente cultural internacional dá-nos, inevitavelmente, uma noção abrangente da importância das redes, da colaboração e das relações a longo prazo.
O Faro Santander tem de desenvolver a sua própria identidade. Partimos de um contexto muito particular: um edifício histórico extraordinário, uma importante coleção de arte, uma cidade com uma forte tradição cultural e uma relação muito clara com o seu território. A nossa dimensão internacional não passa por reproduzirmos outro modelo. Antes resultará da construção de colaborações sólidas e do desenvolvimento de projetos que possam gerar diálogo entre Santander e o mundo. Queremos que o Faro esteja ligado internacionalmente, mantendo-se enraizado na Cantábria.
Haverá parcerias com museus e centros de arte em Espanha e em todo o mundo?
Absolutamente. A colaboração é fundamental na forma como entendemos o Faro. Queremos trabalhar com artistas, museus, universidades, centros de investigação e organizações culturais a nível local, nacional e internacional. Esta abordagem já é visível no nosso programa inaugural. “Leonora Carrington: el surrealismo sintomático”, por exemplo, foi coorganizada com o Freud Museum em Londres e representa a nossa primeira colaboração internacional. A exposição
Da mesma forma que o programa público em torno de “México Moderno na Coleção Gelman Santander” envolve colaborações com a Fundación Casa de México e o Instituto Cultural do México, em Espanha. Vemos as parcerias não apenas como uma forma de fazer circular exposições, mas também como uma oportunidade para partilhar conhecimento, investigação e diferentes perspetivas.
As instituições portuguesas, públicas e privadas, estão no seu radar para empréstimos de obras, por exemplo?
A nossa ambição é construir uma forte rede de relações com instituições culturais tanto em Espanha e também internacionais. Geograficamente, Portugal faz parte desse panorama cultural mais amplo. Estamos muito abertos a explorar futuras colaborações, seja através de exposições, empréstimos, investigação ou programas públicos. Para nós, a questão mais relevante é sempre o que uma colaboração pode acrescentar: ao projeto, aos artistas e coleções e, em última análise, ao nosso público.
São palavras suas: “O Faro Santander pretende aproximar a arte, a tecnologia e a cultura a todos os públicos.” Pode dar-nos algumas pistas sobre o papel que a tecnologia vai ter no Faro?
A tecnologia é uma parte importante do Faro, mas não a vemos como um fim em si mesmo. Estamos interessados no que acontece quando os artistas usam a tecnologia para criar novas linguagens, experiências e formas de compreender o mundo. Um exemplo. O Cubo é uma ambiciosa instalação digital que ocupa dois andares do edifício. O seu interior possui um sistema de projeção imersiva de 360 graus, enquanto o exterior é coberto por cerca de 400 metros quadrados de superfície LED. Tornar-se-á uma plataforma onde artistas, tecnólogos e investigadores poderão explorar e experimentar em conjunto a forma como a tecnologia está a mudar a maneira como criamos, como nos relacionamos uns com os outros e como nos compreendemos a nós próprios.
Na inauguração, o Cubo vai apresentar “Antes de Faro Santander”, três experiências audiovisuais interligadas que exploram a memória coletiva do edifício e da cidade. A experiência vai desde uma viagem imersiva, com início em 1857 até à realidade virtual, permitindo aos visitantes experienciar a recriação histórica de alguns dos espaços mais emblemáticos do edifício. Portanto, sim, a tecnologia pode ser uma ponte, mas acima de tudo queremos que seja uma ferramenta criativa: uma outra forma de contar histórias, gerar conhecimento e envolver o público.
O edifício leva a assinatura do arquiteto britânico e Prémio Pritzker, David Chipperfield. Arte e arquitetura podem ter um efeito poderoso. O que podemos esperar desta aliança no futuro?
No caso do Faro, a arquitetura não é simplesmente um depósito de arte. Faz parte da própria experiência cultural. O ateliê David Chipperfield Architects transformou um edifício historicamente associado ao uso institucional e privado num espaço cívico aberto. O símbolo mais poderoso dessa transformação será, talvez, o grande arco central – hoje coluna vertebral do edifício –, pois torna a circulação visível e cria um vaso comunicante entre a cidade e o mar.
A arquitetura permite ainda a coexistência de experiências muito distintas: cerca de 3.000 metros quadrados de espaço expositivo distribuídos por cinco pisos, espaços para famílias e experimentação, um auditório, tecnologia imersiva e, no topo, espaços com vista para Santander e a sua baía.
Existe uma outra dimensão importante: a sustentabilidade. O Museu obteve a certificação BREEAM Outstanding com uma pontuação de 92,96, a classificação mais alta até à data para um museu ou centro cultural, segundo a documentação do projeto. A reabilitação combina a reutilização da estrutura histórica com energia geotérmica, sistemas termicamente ativados, telhados verdes e reutilização de água da chuva, além da recuperação de mais de 95% dos resíduos de construção.
Em última análise, espero que a relação entre arte e arquitetura no Faro Santander seja experienciada, mais do que apenas observada. O edifício foi transformado e, se antes era um local que as pessoas observavam essencialmente do exterior, agora é um local onde podem entrar, que podem explorar e tornar seu. Esse é, para mim, um dos aspetos mais relevantes de todo o projeto.
Consulte aqui a programação do Faro Santander.
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