13% das ofertas de emprego online são para TIC. Portugal lidera na UE
Portugal é o país da União Europeia em que os anúncios de emprego online para especialistas em tecnologias de informação e comunicação (TIC) mais pesam no total. Os dados mostram que, nos últimos 12 meses até junho, 13,2% dos anúncios com oportunidades de trabalho em Portugal destinavam-se a este setor.
Os dados do Eurostat são trimestrais, mas acumulam um ano inteiro para mitigar efeitos sazonais. O gabinete de estatísticas europeu varre milhões de anúncios de emprego publicados em centenas de plataformas na internet para perceber, nomeadamente, em que países há maior procura de talento nas TIC. E, de acordo com as contas do Jornal Económico (JE), Portugal acaba por liderar o ranking pela primeira vez desde os dois primeiros trimestres de 2021, no pico da pandemia, quando as TIC chegaram a representar 20% dos anúncios de trabalho publicados online no país.
O valor deste período, que terminou em junho, é o mais elevado desde o quarto trimestre de 2022 (15,9%) e mais do dobro da média da UE (6,2%).
O número de anúncios para especialistas em TIC está a crescer de forma sistemática desde o segundo trimestre de 2025. Nos dados publicados este verão, a subida foi de 4,9% face ao ano anterior, num contexto em que apenas sete estados-membros registaram um acréscimo. Portugal é mesmo o único com subidas homólogas constantes ao longo dos últimos quatro trimestres.
Também a Área Metropolitana de Lisboa está em destaque nos dados europeus, com a terceira maior proporção entre as 242 regiões da UE: estes profissionais são procurados em 17,6% dos anúncios publicados. À frente tem apenas Ceuta e a Comunidad de Madrid e imediatamente atrás seguem-se Viena, Lazio (Itália) e Malta. Mesmo a região Norte, com 12,7%, tem aproximadamente o dobro da média europeia. Centro e Alentejo também ficam acima, embora com margens menores.
Maior crescimento do emprego em três anos
Estes não são, no entanto, os únicos dados que sugerem que o mercado de trabalho das TIC vive, em Portugal, um momento ascendente.
De acordo com outros dados do gabinete de estatísticas europeu, o país foi o que mais viu crescer o número de pessoas empregadas com formação em TIC de 2022 a 2025. Em três anos, o aumento foi de 59%, acima de Bulgária, Luxemburgo e Áustria.
E se a análise for mais alargada, abrangendo os especialistas TIC – independentemente da formação –, Portugal é o terceiro país com maior subida do emprego neste período, apenas atrás da Lituânia e da Croácia.
Para completar este puzzle, os serviços de TIC são hoje responsáveis por quatro vezes mais exportações do que há 10 anos, segundo o Banco de Portugal. Superam já os 5 mil milhões de euros, sensivelmente o mesmo do que o valor de bens exportados pela indústria têxtil.
Margem para crescer e ‘hubs’ tecnológicos
O mercado nacional beneficia, desde logo, de margem para crescer face a outros países, considera Ana Castro, que tem responsabilidades internacionais no Grupo Babel. “A Comissão Europeia identifica ainda em Portugal uma adoção de tecnologias avançadas – em particular cloud e inteligência artificial – abaixo da média europeia. Isso significa que existe mais espaço para digitalizar processos e modelos de negócio, gerando uma procura relativa por perfis TIC mais intensa do que em mercados onde essa transformação está mais madura”, explica a Chief Operations Officer (COO) do grupo Babel ao Jornal Económico (JE).
Depois, “há também um efeito de investimento e de internacionalização”. Ou seja, “Portugal tem reforçado infraestruturas digitais, serviços públicos digitais e financiamento para a transição digital, ao mesmo tempo que atrai projetos tecnológicos, centros de competências e operações que trabalham para mercados internacionais”. E quando essas equipas são criadas ou se expandem em Portugal, “a procura é contabilizada aqui, ainda que os produtos, clientes ou operações tenham escala europeia ou global”.
Também Cláudia Mendes, líder da Women in Tech Portugal, realça ao JE “a instalação dos ‘hubs’ de várias empresas internacionais”, num contexto de “‘boom’ da sustentabilidade, dos ‘data centers’, da energia, de todos os ‘hubs’ tecnológicos de suporte às grandes empresas instaladas em Portugal”, tornando-se “no hub tecnológico para a Europa”. Esta avalanche “vai fixar aqui muitos destes profissionais e a procura por muitos outros que temos de ter em ‘pipeline’ para fazer face a esta demanda, que ainda estamos a formar”.
O país tem sido, por isso, também “um polo atrativo para outros profissionais da Europa e de outros países fixarem a residência” em Portugal. “É habitual termos uma empresa internacional com várias nacionalidades em que a língua comum é o inglês e não o português. Já não há barreira linguística. É uma das vantagens que temos em Portugal”, acrescenta a Country Director da Women in Tech Portugal, organização sem fins lucrativos que visa reduzir a diferença de género nas áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (STEM na sigla inglesa).
Empresas americanas e não só
Cláudia Mendes dá o exemplo de empresas israelitas ou do Líbano “que vêm fixar-se em Portugal e criam estes ‘hubs’”, além das empresas norte-americanas, que “acabam por estragar um bocado o mercado às outras empresas, porque vêm com salários completamente diferentes dos praticados em Portugal e quase conseguem canibalizar o mercado”, lamenta a especialista.
Por outro lado, reconhece que “as empresas americanas que têm vindo a estabelecer-se aqui também são puramente tecnológicas”, o que leva os profissionais portugueses “a fixarem-se numa carreira diferente”. Antes, havia “umas carreiras mais ou menos estagnadas” e os profissionais “iam subindo, mas lentamente, e com projetos pouco apelativos”. Agora, no entanto, “essas empresas têm projetos muito atrativos, que também desafiam nossos profissionais a crescer profissionalmente”.
“As empresas com escala internacional podem ter uma vantagem”, complementa Ana Castro: “Conseguem trazer projetos, conhecimento e mobilidade de talento para Portugal, ao mesmo tempo que desenvolvem capacidades locais. Estas empresas oferecem projetos mais complexos, acesso a conhecimento especializado e percursos de carreira com maior exposição internacional”, frisa a COO do grupo Babel.
“Isso reforça a capacidade de atrair, desenvolver e reter talento, incluindo profissionais que valorizam a possibilidade de trabalhar a partir de Portugal em desafios com impacto além do mercado nacional”, salienta. “Num mercado de talento escasso, a capacidade de oferecer escala, aprendizagem contínua e projetos ambiciosos é tão determinante quanto recrutar”.
“Muito mais seniores do que juniores”
Cláudia Mendes sublinha ainda que o perfil procurado no setor das TIC continua a ser de “talento altamente qualificado”, com elevada especialização. “Se olharmos para os anúncios – e de vez em quando eu faço esse exercício para perceber como está o mercado em termos de procura – são áreas muito técnicas, que exigem muito mais seniores do que juniores”. Estão em causa, por exemplo, “programadores de uma tecnologia específica, muitos agora na área da inteligência artificial (IA), mas que conseguem fazer a conversão da tecnologia antiga para a nova”.
A ajudar esta dinâmica em Portugal estão os cursos, frisa ainda Cláudia Mendes, porque “são de tal forma abrangentes que conseguimos facilmente adaptarmo-nos às tecnologias introduzidas por estes grupos” internacionais. “Temos muito bons profissionais, com várias áreas de estudo na sua área académica. As nossas universidades estão preparadas para a aprendizagem contínua em diversas áreas”, considera.
“Durante muitos anos, houve um êxodo de bons profissionais nestas áreas para a Europa, por questões salariais e de carreira”, mas agora muitos continuam em Portugal, ainda que “requisitados para fora”, nota Cláudia Mendes.
“Há margem para esta procura continuar”
“Contrariamente ao que se dizia – que a IA iria destruir muitos empregos –, o que tudo isto vem mostrar é que realmente estamos a contrariar a tendência” que se perspetivava para a área, sublinha Cláudia Mendes.
Um estudo da Universidade de Stanford, atualizado em agosto, sustenta esta opinião, concluindo que não há sinais de destruição generalizada de emprego associada à IA. O que há, refere o estudo, é uma clivagem cada vez maior entre gerações, com os trabalhadores mais jovens a perder terreno nas profissões mais expostas à automatização de tarefas.
Uns meses antes, o Financial Times indicava que o número de ofertas de emprego para programadores nos EUA regressou aos melhores níveis em dois anos, num contexto de queda do mercado de trabalho — mais uma vez, com enfoque nos trabalhadores mais experientes.
No caso português, “há margem para esta procura continuar”, acredita Ana Castro, uma vez que “a inteligência artificial, a cibersegurança, a cloud, os dados e a automação ainda estão numa fase de crescimento”. A sustentabilidade dependerá, portanto, “de transformar esta procura em capacidade instalada: formar e requalificar mais pessoas, reter profissionais experientes e continuar a atrair talento internacional para as áreas em que a oferta nacional permanece insuficiente”.
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