O verdadeiro valor das finanças sustentáveis não está no preço
Durante anos, uma pergunta dominou as discussões sobre finanças sustentáveis: quanto é que fica mais barato?
É uma questão compreensível. O custo continua a ser determinante numa decisão de financiamento e qualquer empresa procura perceber se associar um empréstimo ou uma obrigação a objetivos de sustentabilidade pode reduzir a taxa de juro. Mas, muitas vezes, essa não é a pergunta certa.
Em muitas operações, a vantagem direta de preço é reduzida ou pode nem existir. Ainda assim, empresas, bancos e investidores continuam a recorrer a soluções de financiamento sustentável. A razão é simples: o seu valor vai muito além do custo.
Uma estrutura credível pode alargar as opções de financiamento, reforçar a reputação da empresa e melhorar a relação com bancos e investidores. E isto é tanto mais relevante quanto a forma como as instituições financeiras avaliam o risco está a mudar.
A regulação bancária europeia exige uma integração cada vez mais sistemática dos riscos ambientais, na gestão de risco. Isto não significa que a sustentabilidade substitua a análise de crédito. Fluxos de caixa, endividamento, rentabilidade, garantias e qualidade do negócio continuarão a ser decisivos. Significa, sim, que os bancos terão de compreender melhor a exposição dos clientes aos riscos de transição climática e a outros riscos de sustentabilidade.
Na prática, as conversas de financiamento tenderão a incluir mais questões sobre emissões, planos de transição, metas, governação, riscos operacionais e qualidade da informação. As empresas preparadas serão mais fáceis de avaliar; as restantes poderão enfrentar processos mais exigentes e demorados.
É aqui que surge uma das principais vantagens das finanças sustentáveis: a opcionalidade. Uma empresa com uma estrutura robusta pode dialogar com um universo mais alargado de financiadores. Não há garantias de financiamento, nem a sustentabilidade compensa uma fraca qualidade de crédito. Mas pode abrir portas que o financiamento convencional não abriria.
Há ainda uma dimensão de credibilidade. Muitas empresas comunicam ambições de sustentabilidade; menos conseguem demonstrar que são mensuráveis, materiais para o negócio e suportadas por compromissos concretos. O financiamento sustentável obriga a essa disciplina: definir indicadores, estabelecer metas e ligá-los à operação e à estratégia.
A validação externa, através de uma Second Party Opinion, reforça essa credibilidade. Não certifica que uma empresa é sustentável em todas as dimensões, mas demonstra que os compromissos associados ao financiamento foram avaliados de forma independente e à luz de princípios reconhecidos pelo mercado.
Isto melhora também o diálogo com as entidades financeiras. Para além da capacidade de reembolso e das condições da operação, passam a estar em cima da mesa riscos e oportunidades de longo prazo, governação, disciplina operacional e transparência.
Numa operação recente no setor da construção e engenharia, o ponto de partida era a expectativa de obter melhores condições de preço. O maior valor acabou por surgir noutro lugar: maior credibilidade, melhor articulação entre estratégia de negócio e compromissos de sustentabilidade e acesso a um universo mais amplo de bancos e instituições financeiras internacionais.
Ignorar este tema não significa perder automaticamente acesso a capital. O risco é mais gradual: perder opcionalidade. À medida que os financiadores incorporam estes critérios na avaliação de risco, empresas menos preparadas poderão tornar-se contrapartes mais difíceis, mais lentas e menos atrativas.
Por isso, a pergunta já não deve ser apenas se as finanças sustentáveis reduzem o custo de financiamento. A questão mais relevante é outra: podem melhorar o acesso da empresa a capital, reforçar a sua credibilidade e prepará-la melhor para a forma como o mercado financeiro está a evoluir?
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