Europa precisa de 24,7 mil milhões para adaptar redes de carregamento ao crescimento dos carros elétricos
A utilização mais inteligente da capacidade existente nas redes elétricas pode permitir à Europa poupar 10,6 mil milhões de euros em investimento até 2030, ao mesmo tempo que facilita a expansão da mobilidade elétrica, segundo um estudo da Siemens divulgado esta quarta-feira, 9 de setembro.
O estudo, encomendado conjuntamente pela EIT Urban Mobility, ChargeUp Europe e Associação Europeia dos Fabricantes de Automóveis (ACEA), estima que seriam necessários 24,7 mil milhões de euros de investimento nas redes de distribuição elétrica até 2030 para acompanhar o crescimento previsto dos veículos elétricos (VE).
Esse montante poderá, no entanto, baixar para cerca de 14,1 mil milhões de euros através da utilização de sistemas inteligentes de gestão do carregamento dos veículos elétricos, permitindo evitar cerca de 10,6 mil milhões de euros de investimento.
A análise, intitulada Electricity Grids in Europe, avaliou o impacto do crescimento dos automóveis ligeiros e de passageiros 100% elétricos nas redes de distribuição de eletricidade dos 27 Estados-membros da União Europeia e de três países do Espaço Económico Europeu.
O modelo foi aplicado a 64 centros urbanos, representativos de seis tipos de cidades, tendo em conta diferentes formas de carregamento, incluindo em habitações, locais de trabalho, espaços públicos, durante viagens e em depósitos de veículos comerciais.
Segundo o estudo, o número de veículos elétricos a bateria nos 64 centros urbanos analisados deverá multiplicar-se por 3,8 até 2030, sendo necessário reforçar a rede elétrica em todas as cidades consideradas.
A maior pressão deverá verificar-se nas redes de baixa tensão, que deverão concentrar 77,7% do investimento físico necessário, sobretudo devido ao carregamento residencial dos veículos elétricos.
O estudo estima que entre 55% e 62% dos proprietários de veículos elétricos nas cidades analisadas terão acesso a carregamento residencial em 2030, o que deverá aumentar a importância das redes locais de baixa tensão no processo de eletrificação dos transportes.
As necessidades de investimento variam significativamente entre cidades. No caso da Península Ibérica, a estimativa apresentada pelo estudo aponta para cerca de 200 milhões de euros de investimento até 2030 em Barcelona e para cerca de 100 milhões de euros em Madrid, Sevilha, Valência e Saragoça, sem recurso a sistemas de gestão inteligente da carga.
Para Lisboa, a estimativa apresentada no estudo é de cerca de 500 milhões de euros, colocando a capital portuguesa entre as cidades da Europa do Sul com maior necessidade de investimento em reforço da rede de distribuição.
O estudo ressalva que estas estimativas ao nível das cidades são ilustrativas, sendo calculadas com base em indicadores como a população, o parque automóvel e a densidade da rede elétrica.
A comparação evidencia também diferenças dentro da própria Europa do Sul. Além de Lisboa, o modelo aponta para necessidades de cerca de 100 milhões de euros em várias cidades espanholas e italianas, enquanto outras cidades apresentam valores superiores ou inferiores, refletindo diferenças na dimensão dos parques automóveis, população e características das redes.
A necessidade de investimento varia igualmente entre regiões. A Europa Central representa a maior parcela das necessidades identificadas, seguida pelos países nórdicos, Europa de Leste e Europa do Sul.
O estudo alerta ainda que as cidades com menor acesso a carregamento privado em casa deverão depender mais da infraestrutura pública, tornando necessária uma maior coordenação entre a instalação de postos de carregamento e o planeamento das redes elétricas.
A adoção de carros elétricos deverá acelerar nos próximos anos. De acordo com o modelo da Siemens, em 2030 os veículos ligeiros de passageiros a bateria deverão representar 27,3% da frota na Suécia, 15,7% na Alemanha, 4,6% em Itália, 4,5% em Espanha e 2,5% na Polónia.
Nos automóveis comerciais ligeiros, a quota deverá atingir 22,7% na Suécia, 9,1% na Alemanha e 5,9% na Polónia. Neste último país, a frota de carrinhas elétricas deverá crescer quase dez vezes entre 2024 e 2030.
O estudo salienta que a gestão inteligente do carregamento permite controlar, em tempo quase real, a potência utilizada pelos veículos para evitar sobrecargas nos períodos de maior procura de eletricidade.
A combinação entre carregamento inteligente e digitalização das redes permite, assim, utilizar de forma mais eficiente a capacidade existente e reduzir a necessidade de reforços físicos. Contudo, os autores sublinham que estas soluções não eliminam a necessidade de investimentos nas infraestruturas elétricas.
“Os veículos são apenas uma parte da equação”, afirmou Sigrid de Vries, diretora-geral da ACEA, citada no estudo, defendendo que as redes elétricas devem acompanhar o crescimento dos veículos elétricos, sobretudo ao nível local.
Também Lucie Mattera, secretária-geral da ChargeUp Europe, salientou que o reforço das redes e a expansão da infraestrutura de carregamento “devem caminhar lado a lado”, embora exista “um potencial muito significativo de poupança” através da digitalização das redes e da gestão da carga.
Para Ralf Blumenthal, vice-presidente sénior para a Europa da Siemens Grid Software, a mobilidade elétrica e a modernização das redes “devem avançar em conjunto”, com as tecnologias digitais e o carregamento inteligente a permitirem maximizar a utilização das infraestruturas existentes.
O estudo conclui que a gestão inteligente da carga e o reforço físico das redes são medidas complementares, sendo necessários investimentos na rede em todas as regiões analisadas mesmo no cenário de utilização generalizada de sistemas inteligentes de carregamento.
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