Rui Rocha: “Os deputados fazem muitos floreados; estão habituados ao TikTok”
Na recente audição a Luís Neves, no Parlamento, um deputado sobressaiu pelas perguntas focadas: Rui Rocha. O antigo líder da Iniciativa Liberal colocou em evidência a incapacidade do ministro de responder a temas importantes e destoou de todos os outros deputados, palavrosos, e incapazes de produzirem perguntas concretas sobre assuntos específicos. O Jornal Económico foi saber como Rui Rocha preparou, e avalia, a sua intervenção.
Como se prepara uma audição parlamentar? Prepara apenas as perguntas ou antecipa também as respostas possíveis?
É fundamental estar preparado para as respostas. E, por isso, a preparação envolve, envolveu, bastante trabalho. Primeiro, análise de informação. Havia muitas notícias, muitos comentários, as intervenções públicas do ministro. E há uma coisa desafiante: o ministro é muito confuso (sorri) e só o trabalho de expurgar o que ele diz dessas confusões implica tempo. É importante fazer isto com uma equipa, que neste caso foi pequeníssima: eu e um assessor, o Diogo Meira, aqui do grupo parlamentar (da IL). Para mim, faz sentido dialogar, debater ideias, explorar ângulos. Isso é fundamental. E é preciso uma estratégia para responder à pergunta que me fez sobre antecipar as respostas. Aquilo que foi criticado em relação à intervenção de outros deputados tem a ver com isso. Quando se pergunta ao ministro se acha que tem condições para continuar no cargo, é elementar antecipar que ele vai dizer que tem, sim senhor, e que irá falar do seu trabalho. E não é isso que se deseja. O que se deseja é confrontá-lo com as contradições, com as coisas a que não responde, e não abrir a porta a que ele diga o que pretende. O fundamental é obter as respostas ou provocar os silêncios que também são relevantes.
Quando começa a inquirir alguém, já sabe exatamente que informação pretende obter no final?
Sim. No trabalho de que já lhe falei, cheguei a algumas convicções sobre situações a que o ministro não estava a responder porque não podia. E tinha essa intenção: fazer-lhe perguntas sobre assuntos a que ele não queria responder. Isso tem um valor em si mesmo.
O que é mais importante numa audição: fazer uma boa pergunta ou saber ouvir a resposta sem qualquer preconceito?
As duas coisas, obviamente. Mas, neste caso, o importante é mesmo fazer uma boa pergunta, fechada. Se for muito aberta a estratégia é má e permite fuga. O que fiz foi ser objetivo e, antes, tomar posição sobre o assunto. Isso obriga o outro lado a rebater ou, respondendo de forma insuficiente ou pelo silêncio, validar a minha posição. Neste caso, as perguntas, sim, foram muito importantes.
É frequente os deputados gastarem grande parte do seu tempo em considerações políticas antes de chegarem à pergunta. O senhor fez exatamente o contrário. Concorda que isto é recorrente na acção dos seus colegas deputados?
Há duas questões fundamentais. Uma é essa e já lá vou. Mas há outra. Para esta audição, tinha dezenas de possíveis abordagens mas tinha de ser conciso. De escolher bem as perguntas e podia ter feito pelo menos mais uma dúzia. Mas o tempo destas audições regimentais é limitado, às vezes até parece contido para não se poderem fazer as perguntas (sorri). Portanto, temos de saber porque estamos ali, até porque há registos diferentes. Quando estamos a fazer uma declaração cujo objetivo é chegar às redes sociais ela deve ser proclamatória. Neste caso, não. É diferente. Queremos respostas. Quem não está habituado a estes diferentes registos e apenas está habituado a fazer declarações para o Tik Tok não entende a diferença. Os deputados fazem muitos floreados, de facto.
Uma boa pergunta parlamentar deve ser curta? E deve conter opinião ou limitar-se aos factos?
Para ser uma boa pergunta parlamentar deve ser concisa, porque do outro lado também temos um político mais ou menos experimentado. Se fizermos uma pergunta muito rica em factos isso permite ao outro lado divergir para o que lhe interessa e não conseguimos a resposta pretendida.
Quando alguém não responde, qual é a melhor técnica: reformular a pergunta, confrontar com um facto ou simplesmente repetir exatamente a mesma pergunta?
O melhor para mim, como já lhe disse, é tomar posição, até para deixar o inquirido desconfortável. Por isso digo, antes das minhas perguntas, ‘a minha convicção é esta’. Depois, acho que faz sentido repetir para deixar claro a quem assiste que não há do lado de lá vontade de responder. Portanto, eu digo que a insistência perante uma falta de resposta produz o seu efeito.
Numa comissão parlamentar, o objetivo principal deve ser conseguir uma resposta ou, caso contrário, tornar evidente que o inquirido não consegue ou não quer responder. É isto?
É isso, porque tem um juízo político implícito.
Se tivesse de ensinar aos deputados três regras fundamentais para inquirir alguém numa comissão parlamentar, quais seriam?
Primeiro, investir tempo na preparação. Eu comecei a pensar nisto ainda em agosto, porque admiti que esta audição pudesse acontecer algures, embora o trabalho concreto tivesse começado na quarta-feira anterior e com muitas horas mesmo. Depois da preparação fazer uma triagem dos assuntos em função da complexidade e relevância. E, finalmente, a terceira regra, ter uma tese, deixando-a clara e dando à outra parte a oportunidade de a contrariar.
Em determinados momentos desta audição dei comigo a pensar que há deputados mais interessados em mostrar aquilo que pensam ou julgam saber do que em descobrirem aquilo que ainda não sabem. Estou a ser excessivo?
Já lhe disse que para mim faz sentido que um deputado manifeste a sua opinião em relação ao que se conhece ou julga saber. Eu fiz isso. Comecei por dizer que para mim Luís Neves não tem condições para continuar na função. Falei do tempo dele como diretor nacional da PJ e como ministro. Mas deve haver um equilíbrio e não ficarmos apenas por essa manifestação; devemos ir à procura da outra parte.
Ficou satisfeito com o seu desempenho ou acha que ainda poderia ter sido mais objectivo e eficaz?
Fiquei satisfeito porque a estratégia foi bem executada. Fiz uma introdução de um minuto com a minha convicção. Depois uma pergunta manifestamente para desequilibrar Luís Neves e causar-lhe desconforto, aquela sobre a maçonaria, depois de já ter referido o tanque e os bidões. Depois, sim, as perguntas que visavam provar que o ministro mentiu aos portugueses dentro de um tempo determinado…
…Está a falar das perguntas sobre quem foi o intermediário na compra das sulipas e quais as datas dos empréstimos bancários para a compra dos montes?
Sim. São dois assuntos simples, o das sulipas até pode parecer irrisório, mas eram situações fáceis de entender e que, em caso de não resposta do ministro, como aconteceu nas sulipas e toda a gente viu, criaria a ideia de que ele não estava a ser transparente. O caso dos empréstimos era o grande tema e corri um risco: ele dizer que os empréstimos eram anteriores à aquisição das propriedades. Ele não o disse. Foi um investimento de risco mas, face a tudo o que tinha em carteira, parecia-me o mais melindroso em todo este caso.
Faltou-lhe alguma pergunta?
Sim, por falta de tempo. O que é que ele fará se for constituído arguido?
Entende que conseguiu demonstrar que o ministro Luís Neves não está confortável e não responde às perguntas?
Absolutamente. Na minha tese, deixe-me dizer, os empréstimos do ministro foram contraídos à posteriori e as propriedades foram compradas com outro dinheiro e não com o dos empréstimos. Ou seja, há temas em que ele não consegue responder de forma rigorosa e verdadeira. Podemos concluir isso.
Share this content:



Publicar comentário