Economia Quântica: Quando deixam de funcionar as regras da economia linear (Parte I)
(Este ensaio é publicado em duas partes. A primeira analisa as ruturas económicas associadas à emergência da Economia Quântica; a segunda aborda a convergência tecnológica que as torna possíveis e as acelera, e os novos desafios de estratégia, liderança, segurança e governação daí resultantes.)
Durante mais de dois séculos, aprendemos a interpretar a economia através de relações relativamente estáveis. Para produzir mais, era necessário mobilizar mais trabalho e mais capital, ou aumentar a produtividade. Para crescer, uma empresa precisava contratar mais pessoas, adquirir mais ativos ou conquistar novos mercados. O trabalho gerava rendimento, o rendimento alimentava o consumo e a escassez sustentava os preços. Estas relações não desapareceram. Mas começam a deixar de ser suficientes para explicar o que está a acontecer.
A inteligência artificial, a robótica, os agentes autónomos e a conectividade global já estão a alterar algumas das relações fundamentais entre produção, trabalho, escala, inteligência, escassez e valor. A esta transformação junta-se uma nova fronteira: as tecnologias quânticas. A sua convergência com a IA, os materiais avançados, a biotecnologia e as infraestruturas digitais cria um efeito multiplicador que poderá alterar não apenas a velocidade da economia, mas também a própria forma como o valor é criado. É neste contexto que emerge aquilo a que chamo Economia Quântica, um paradigma económico em que inteligência, tecnologia e capital podem ser escalados de forma crescentemente independente do trabalho e da dimensão organizacional, fazendo coexistir múltiplas possibilidades, novas formas de abundância e de escassez e relações menos lineares entre recursos, produção e valor.
No sentido mais direto, a Economia Quântica corresponde aos novos mercados, indústrias e cadeias de valor possibilitados pela computação, comunicação, deteção e restantes tecnologias quânticas. Mas proponho aqui uma segunda lente sobre o conceito.
A primeira transformação ocorre entre o trabalho e a produção.
Durante praticamente toda a história económica, aumentar significativamente a capacidade produtiva exigia mais recursos. Mesmo quando a tecnologia permitia produzir mais com menos trabalhadores, existia uma relação relativamente previsível entre pessoas, capital e capacidade produtiva.
A IA é hoje a manifestação mais visível dessa rutura. Uma empresa com 20 pessoas pode já mobilizar dezenas ou centenas de agentes digitais para analisar informação, desenvolver software, produzir conteúdos, pesquisar mercados, apoiar clientes ou monitorizar operações. A robótica poderá progressivamente transportar essa capacidade para o mundo físico e a computação quântica ampliar classes específicas de otimização, simulação e descoberta. O verdadeiro salto económico não está em qualquer destas tecnologias isoladamente, mas no efeito multiplicador da sua convergência.
Quando agentes de IA passarem a interagir autonomamente entre si e humanoides começarem a executar tarefas físicas em escala, teremos de fazer uma pergunta aparentemente simples: o que significa dimensão empresarial?
As próprias classificações europeias de dimensão empresarial continuam a considerar, entre outros critérios, o número de trabalhadores. Mas fará sentido medir da mesma forma uma organização com 50 pessoas e outra com 50 pessoas apoiadas por milhares de agentes digitais?
Mas, com este novo paradigma, surge uma segunda transformação: a inteligência torna-se, ela própria, um fator de produção escalável.
A economia habituou-nos a considerar o trabalho, o capital, os recursos e a tecnologia. Mas o conhecimento continuava essencialmente incorporado nas pessoas ou em sistemas previamente construídos por elas. Agora, uma organização começa a adquirir capacidade de análise, raciocínio, criação e execução, quase como se comprasse capacidade computacional.
Pela primeira vez, a inteligência disponível numa empresa deixa de estar limitada pelo número de seres humanos que nela trabalham.
Também a lógica da decisão começa a mudar.
Tradicionalmente, o custo de executar obrigava a decidir primeiro. Estudava-se o mercado, definia-se um produto, aprovava-se o investimento e só depois se executava.
Quando criar software, testar campanhas, simular processos ou desenvolver diferentes soluções se torna radicalmente mais barato, podemos inverter parcialmente essa lógica. Uma empresa pode testar simultaneamente várias hipóteses e utilizar informação quase em tempo real para determinar quais devem ser abandonadas e quais merecem ser escaladas. Numa analogia com a superposição quântica, várias possibilidades podem permanecer abertas até que a informação disponível conduza à escolha.
Na economia tradicional, decidir precedia executar. Na Economia Quântica, experimentar pode preceder decidir.
A estratégia deixa de significar apenas escolher antecipadamente um futuro e passa também a significar gerir economicamente vários futuros possíveis. A novidade não está em utilizar probabilidades, algo que a economia sempre fez, mas em reduzir radicalmente o custo de manter diferentes opções abertas, experimentar e adiar compromissos irreversíveis até haver melhor informação.
Interdependência, escassez e abundância
A terceira mudança está na interdependência.
Um fabricante automóvel depende hoje de software, semicondutores, energia, dados, baterias, cibersegurança, Inteligência Artificial, cadeias logísticas e regulação. Uma restrição à exportação de chips pode afetar fábricas noutro continente. Uma decisão energética pode condicionar os centros de dados e a capacidade computacional. Uma regra europeia pode influenciar produtos tecnológicos desenvolvidos nos Estados Unidos ou na Ásia.
Tecnologia, economia, geopolítica, energia e regulação tornam-se cada vez menos separáveis. Um semicondutor já não é apenas um componente tecnológico. É também política industrial, segurança nacional, comércio internacional e poder económico.
É esta interdependência que torna a economia progressivamente não linear: acontecimentos relativamente pequenos podem gerar consequências desproporcionadas através de sistemas globalmente conectados. É também aqui que a analogia com o entrelaçamento se torna útil: não porque a economia obedeça às leis da física quântica, mas porque a tecnologia, a energia, a regulação, a geopolítica e os mercados deixaram de poder ser compreendidos isoladamente.
Existe, depois, uma quarta transformação, talvez ainda mais profunda: a relação entre escassez e abundância.
A economia foi construída sobre a escassez. Mas a tecnologia está a criar uma situação aparentemente paradoxal: abundância extrema e escassez extrema podem coexistir na mesma economia.
Gerar texto, imagem, código, análise ou determinados serviços intelectuais pode tornar-se progressivamente mais barato. A IA poderá aproximar parte do trabalho cognitivo de custos marginais muito reduzidos (a tender para zero) e a robótica poderá transportar gradualmente esse efeito para (todas) as atividades físicas. A Economia Quântica poderá, assim, não ser estruturalmente inflacionária nem deflacionária. Poderá ser ambas simultaneamente, dependendo dos recursos e dos setores em causa.
Ao mesmo tempo, a infraestrutura necessária para produzir essa abundância torna-se mais estratégica: chips avançados, energia, centros de dados, redes, matérias-primas, propriedade intelectual e capacidade computacional.
A abundância não elimina, portanto, a escassez. Desloca-a. E esta deslocação também pode alterar a dinâmica dos preços.
Durante décadas habituámo-nos a tratar a inflação como uma preocupação estrutural. Mas o que acontece quando áreas crescentes da economia passam a apresentar custos marginais persistentemente decrescentes?
A tecnologia produziu por diversas vezes efeitos deflacionistas. A internet reduziu radicalmente o custo de distribuir informação e o software permitiu replicar funcionalidades com custos adicionais mínimos. A IA pode alargar esse efeito a atividades cognitivas que até agora dependiam intensivamente de trabalho humano. Isto não significa uma economia integralmente deflacionária. Habitação, energia, recursos naturais ou determinados serviços continuarão (ainda) sujeitos a forte escassez. Mas poderemos entrar num novo paradigma em que setores estruturalmente inflacionários coexistem com setores estruturalmente deflacionários.
Por fim, a relação entre escala e recursos também começa a alterar-se.
Até agora, uma empresa dez vezes maior necessitava, em regra, de significativamente mais pessoas, ativos e estrutura. Na Economia Quântica, uma organização poderá multiplicar a produção sem aumentar proporcionalmente o número de trabalhadores. Poderá entrar em novos mercados com estruturas mínimas, criar software para uma necessidade específica e descartá-lo depois ou mobilizar centenas de agentes artificiais sem aumentar o emprego formal.
Não estamos apenas perante empresas mais digitais ou mais ágeis.
Estamos perante a possibilidade de alterar a própria natureza económica da empresa. Por isso, considero insuficiente descrever o atual momento apenas através de conceitos como transformação digital, adaptação ou velocidade.
A Economia Quântica coloca uma questão diferente: e se aquilo que estiver a mudar já não forem apenas as empresas, mas as próprias relações económicas através das quais as compreendemos?
Produção e trabalho deixam de crescer necessariamente em proporção. Escala económica e dimensão organizacional deixam de ser equivalentes. A inteligência deixa de estar confinada aos seres humanos. A abundância passa a coexistir com novas formas de escassez. O experimentar pode anteceder a decisão. E as forças inflacionárias e deflacionárias podem coexistir estruturalmente na mesma economia.
Durante muito tempo, perguntámo-nos como utilizar melhor a tecnologia na economia.
Talvez esteja a chegar o momento de inverter a pergunta: que economia emerge quando a tecnologia começa a alterar as próprias relações que a definiam?
É aí que começa a Economia Quântica.
E compreender estas novas relações é apenas a primeira parte do problema. A segunda é perceber a infraestrutura que as torna possíveis: da Inteligência Artificial e da robótica à computação, comunicação e deteção quânticas, e sobretudo a convergência entre todas elas. Porque é nessa convergência que se poderá jogar a próxima transformação da estratégia, da segurança, do poder económico e da liderança.
Share this content:


Publicar comentário