O preço do que não aprendemos
Os resultados do PISA 2025, divulgados a 8 de setembro, confirmam aquilo que já se desconfiava há anos, com uma dureza pouco habitual. Portugal obteve 460 pontos em matemática, o pior resultado desde que entrou no estudo, 462 em leitura, também um mínimo histórico, e 482 em ciências. Face a 2015, ano do melhor desempenho português de sempre, a queda em matemática ultrapassa os 30 pontos. Os resultados regressaram a valores próximos de 2006, anulando duas décadas de progresso.
O que torna isto difícil de engolir, sobretudo para quem olha para a educação como investimento e não apenas como despesa, é que não pode ser explicado pela falta de dinheiro. Portugal dedica cerca de 4,3% do PIB à educação e mais de 10% da despesa pública total, valor acima da média europeia nesta segunda métrica. O problema não é a ausência de recursos, é a forma como são afetados e a incapacidade de os transformar em aprendizagem efetiva.
Há ainda outro dado que devia preocupar qualquer economista antes de preocupar qualquer pedagogo, a desigualdade de origem socioeconómica explica hoje 17% da variação dos resultados a matemática em Portugal, contra 12% na média da OCDE. Entre os alunos mais desfavorecidos, 53% não atingem o nível mínimo de proficiência, contra 14% entre os mais favorecidos. Isto significa que o sistema educativo português, em vez de corrigir desigualdades de partida, está a amplificá-las, e está a fazê-lo com dinheiro público.
Para um país que enfrenta escassez de mão de obra qualificada e uma produtividade estruturalmente baixa, este não é um problema pedagógico isolado, é um problema de competitividade. As empresas que hoje procuram trabalhadores capazes de resolver problemas, interpretar informação complexa ou lidar com ferramentas digitais avançadas vão encontrar, dentro de poucos anos, uma geração que chegou ao mercado de trabalho com competências mais frágeis do que a geração anterior. Isso tem custo, em formação interna, em erros operacionais, em produtividade perdida, e esse custo será pago pelas empresas e pela economia no seu conjunto, muito depois de o relatório do PISA ter deixado de ser notícia.
A tentação natural, perante estes números, é pedir mais dinheiro. Mas a experiência portuguesa dos últimos anos mostra que aumentar a despesa sem mudar a forma como ela é gerida não resolve nada. O que falta não é apenas orçamento, falta uma estratégia de afetação de recursos orientada a resultados, com metas claras, avaliação séria do que funciona e coragem política para reformar aquilo que não funciona, mesmo quando isso incomoda interesses instalados.
O Governo comprometeu-se a inverter esta tendência até 2029. É um horizonte razoável, desde que venha acompanhado de decisões concretas já a partir de agora. Cada ano de atraso não é apenas um ano perdido na escola, é um ano de capital humano mais fraco a entrar numa economia que precisa exatamente do contrário.
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