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O que acontece quando um teatro regressa a casa?

O que acontece quando um teatro regressa a casa?

Uma casa despojada dos seus habitantes e convidados provoca estranhas sensações. Nos últimos três anos, o Teatro Nacional D. Maria II, que trata o Rossio, em Lisboa, por ‘casa’, espraiou-se pelo país. Existiu fora de portas para que a requalificação dos espaços interiores do teatro pudesse decorrer. E a sua essência como teatro nacional ganhou força e expressão. Mapear talentos não era o objetivo, mas acabou por acontecer organicamente.
O diálogo fez-se com outras geografias que não a lisboeta. Alargaram-se comunidades. Teceram-se relações que irão conjugar-se no futuro. E aprendizagens também. Foi um périplo épico, a que deram o nome de Odisseia Nacional. Intenso, exigente, mas gratificante.
A poucos dias da reabertura do Teatro Nacional D. Maria II (TNDMII), a 18 de setembro, o JE fez três perguntas a Rui Catarino, presidente do Conselho de Administração do TNDMII, sobre o sumo que resultou destes três anos e o que podemos esperar neste regresso a casa. Não será, diz-nos, “um regresso ao ponto de partida.” A ambição é “ter uma casa e ter um país”.
O TNDMII teve de reinventar-se entre 2023-26. Quais as principais lições destes três anos fora de portas?
A principal aprendizagem foi percebermos de forma muito aguda que um teatro nacional é muito maior do que o edifício onde está instalado. Durante décadas, associámos naturalmente o D. Maria II à Praça do Rossio. Estes três anos mostraram-nos que a nossa missão não está circunscrita a uma sala de espetáculos, mas sim às pessoas e às comunidades que servimos, e que se alargaram muito.
Essa circunstância levou-nos a uma escala que provavelmente nunca teríamos experimentado desta forma se o edifício tivesse permanecido aberto. Em três anos trabalhámos em mais de 100 municípios, no continente e nas ilhas, desenvolvemos mais de 280 projetos e envolvemos cerca de 200 mil pessoas. Mas os números são apenas uma parte da história. O mais transformador foi trabalhar durante períodos prolongados com teatros municipais, autarquias, companhias, escolas e comunidades e perceber o impacto que uma instituição como o D. Maria II pode causar. Ser nacional não significa simplesmente fazer em Lisboa e depois circular.
Aprendemos também uma coisa menos confortável: trabalhar sem casa é difícil. É logisticamente pesado, exige enormemente das equipas e torna mais difícil criar continuidade com os públicos. Portanto, a conclusão destes três anos não é que o edifício deixou de ser importante. Pelo contrário. Percebemos melhor para que serve uma casa — e, ao mesmo tempo, tudo aquilo que um Teatro Nacional tem obrigação de fazer para além dela.
Talvez a mudança mais profunda seja esta: antes pensávamos sobretudo em como levar o D. Maria II ao país; hoje pensamos muito mais em como construir o D. Maria II com o país.
Os modelos de funcionamento foram repensados; pode dar-nos alguns exemplos?
Um teatro convencional organiza grande parte da sua atividade a partir de uma infraestrutura: temos salas, datas disponíveis, equipas e uma programação que ocupa esse calendário. Durante três anos deixámos, em grande medida, de poder funcionar assim. Tivemos de passar de uma organização centrada num edifício para uma organização em rede.
Isso parece uma alteração abstrata, mas teve consequências muito concretas. Um projeto em Loulé, no Funchal ou em Lamego não podia ser simplesmente uma réplica de algo concebido em Lisboa. Passámos a construir projetos, em resposta à diversidade do país, com teatros municipais, autarquias, estruturas artísticas, escolas, associações e comunidades locais, muitas vezes durante meses, e isso obrigou-nos a partilhar mais informação, recursos, capacidade de decisão e responsabilidade.
Mudou também a forma como pensamos a programação. No regresso ao Rossio queremos, por exemplo, contrariar alguma hiper-rotação de espetáculos e apostar em carreiras mais longas, sobretudo na Sala Garrett. Produzir uma obra exigente para a apresentar durante poucos dias nem sempre é a melhor utilização dos recursos públicos, nem dá necessariamente tempo para que encontre os seus públicos. Simultaneamente, queremos preservar outros espaços para maior experimentação e risco artístico.
E houve uma transformação das próprias equipas. Durante estes anos trabalharam sucessivamente numa pandemia, num teatro encerrado, numa programação dispersa pelo país e agora numa reabertura. Isso desenvolveu uma enorme capacidade de adaptação, mas também nos mostrou que flexibilidade não pode significar viver permanentemente em estado de exceção.
O desafio agora é talvez o mais interessante: reabrir um edifício profundamente renovado sem regressar simplesmente ao modelo organizacional que tínhamos antes de o fechar (e antes da pandemia). Não faria sentido termos um teatro de 2026 a funcionar como o teatro de 2019.
O que vai mudar na relação com o território?
A resposta simples é: não vamos regressar ao ponto de partida.
Mas isso também não significa tentar reproduzir todos os anos uma Odisseia Nacional com a intensidade de 2023. Seria dificilmente sustentável para a organização e correria o risco de transformar uma relação com os territórios numa sucessão de acontecimentos. O desafio agora é exatamente o contrário: passar da escala extraordinária destes três anos para relações mais continuadas, mais profundas e com maior capacidade de deixar consequências.
Algumas já estão em curso. Programas como o ATOS, o Boca Aberta, o PANOS ou o Próxima Cena continuam a trabalhar com municípios, teatros, escolas, artistas e comunidades no continente e nas ilhas. No ATOS, por exemplo, estamos já numa fase em que o objetivo não é simplesmente realizar projetos participativos nos municípios, mas contribuir para criar capacidade local para que essas práticas possam continuar sem depender permanentemente da presença do D. Maria II.
Isto traduz uma evolução importante, que foi alicerce da Odisseia Nacional: o objetivo não é o Teatro Nacional “levar cultura” ao território. Há criação, conhecimento e capacidade cultural em todo o país. O nosso papel é pôr recursos, competências, programação e capacidade institucional em relação com aquilo que já existe, contribuindo para reduzir assimetrias que continuam a ser muito significativas. O código postal tem de ser menos determinante para as possibilidades de participação cultural dos cidadãos.
Mas ser nacional também não significa estar todos os anos em todos os municípios. Significa que Lisboa não volta a ser o centro a partir do qual todo o resto do país é pensado como periferia. Por isso, o regresso ao Rossio não encerra a Odisseia. Encerra, isso sim, a necessidade de escolher entre ter uma casa e ter um país. Queremos as duas coisas: uma casa muito forte no Rossio e uma instituição com relações estruturais em todo o território.

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