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Setembro de 2026

Setembro de 2026

A guerra da Ucrânia continua sem solução. As suas repercussões extravasam largamente o quadro geográfico em que se desenrola, e afectam em particular a Europa, induzindo uma alteração fundamental nos conceitos fundamentais que governam as políticas externa e de defesa do Continente desde o fim da União Soviética.
Mas não é o único factor da instabilidade que atingem a Europa. Os europeus têm historicamente grande capacidade de gerar os seus próprios conflitos internos. Foi o reconhecimento dessa capacidade que levou a que depois da II Guerra Mundial se impulsionasse um cenário para tornar quase impossível o desenvolvimento de novos conflitos militares entre a França e a Alemanha, contantes nos últimos séculos e com rápida expansão ao resto da Europa. Foi esse o objectivo que levou ao processo de integração económica, que evoluiu para a União Europeia – um espaço onde as pessoas, as mercadorias, os serviços e os capitais podem circular livremente, eliminando as fronteiras e as barreiras internas, reduzindo as tensões e garantindo a paz.
A construção europeia não é, assim, uma reacção contra qualquer factor externo. É um processo de, respeitando as diferenças e reforçando as sinergias internas, criar uma nova maneira de viver e estar na Europa.
Claro que a Europa continua a ter necessidades de defesa externa. E por décadas a Europa aproveitou as especiais circunstâncias criadas pela rivalidade existente entre os EUA e a URSS. Para os EUA, mais do que uma garantia de paz para os europeus, a NATO era um instrumento fundamental da estratégia de contenção do seu então principal rival. Por isso, durante muito tempo, embora algo a contragosto, os EUA suportaram a parte de leão dos encargos com a organização.
Actualmente o Mundo é multipolar, e o principal adversário dos EUA passou a ser a China, que está do outro lado do Mundo. E a NATO deixou de ser um instrumento fundamental da política externa americana, para ser vista como uma organização de defesa da Europa. E se é assim, então a Europa que pague pelo menos a parte que lhe cabe nesses encargos, posição que já vem sendo afirmada, com maior ou menor ênfase, desde a presidência de  Barack Obama.
Entretanto a liderança da Rússia tem vindo a multiplicar afirmações no sentido de que não receia um confronto militar com a Europa, considerando que as sanções adoptadas pela Europa em apoio à Ucrânia constituem actos de agressão que não poderão ficar sem resposta.
Torna-se, assim, urgente que a Europa adopte medidas concretas para reforçar a sua capacidade defensiva. O aumento de despesa em defesa é inevitável. E é desejável, porque disso depende a nossa sobrevivência a prazo. É urgente discutir este tema.
E, contudo, continuamos não discutir publicamente alguns temas interessantes e preocupantes.
Perdemos tempo a avaliar moções de censura inúteis, que culminam em pronunciamentos histriónicos e populistas, e a reclamar contra os preços dos combustíveis. Mas sabemos que para reduzir receitas do ISP ou do IVA o Governo tem de aumentar outros impostos ou reduzir as despesas sociais. O que aconteceria se as TVs perguntassem ao público qual das duas opções prefere?
Insisto que é necessário discutir que Estado temos e que Estado queremos. Só assim se pode conceber uma verdadeira reforma do Estado, que não é uma mera reorganização de serviços. Se a curto prazo vamos ter de tomar decisões sobre a sobrevivência do País e da União, é bom que não percamos tempo a discutir ninharias.

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