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Fed prepara-se para subir taxas apesar dos pedidos explícitos de Trump em sentido contrário

Fed prepara-se para subir taxas apesar dos pedidos explícitos de Trump em sentido contrário

A Reserva Federal norte-americana deve voltar a subir juros esta quarta-feira, perante pressões inflacionistas que não abrandam, uma tendência de agravamento da dinâmica dos preços com uma expansão do conflito no Médio Oriente e um turbilhão nos mercados com um disparo nas yields soberanas. Ao contrário do que Trump vinha pedindo ainda antes de ser eleito, a primeira mexida nas taxas no mandato do novo presidente Kevin Warsh deverá ser uma subida.
A inflação em agosto manteve-se estável em relação aos 3,4% de julho, marcando assim novo mês acima do objetivo da Fed – um cenário que se mantém desde 2021, usando como medida o índice de preços no consumidor (IPC). Usando o indicador de preferência da Fed, o índice de gastos pessoais de consumo (PCE), o panorama é idêntico, com leituras acima de 2% desde o arranque de 2021.
Perante esta tendência, a autoridade monetária norte-americana vê-se com pouca margem de manobra para não subir taxas. A probabilidade implícita de mercado para uma subida de 25 pontos base (pb) está em 92,5%, de acordo com a FedWatch Tool, da CME Group, isto quando há um mês não passava dos 33%.
A análise do banco ING começa por referir que a leitura mais recente do indicador subjacente de preços ficou novamente muito acima dos 0,17% em cadeia necessários para, ao longo do tempo, fazer regressar a inflação ao objetivo de 2% da Fed. Em agosto, a inflação core ficou em 0,29% em relação ao mês anterior, isto medido pelo IPC.
Com base no PCE, a inflação core de agosto foi ainda mais alta, com 3,3% em termos homólogos.
A questão coloca-se agora no rumo da política monetária a partir daqui. Kevin Warsh tem-se destacado pela recusa em dar qualquer tipo de forward guidance, mas os mercados não deixarão de procurar pistas na sua conferência de imprensa quanto ao futuro dos juros.
A nota do ING projeta que a subida de setembro seja isolada e não o arranque de novo ciclo de aperto, ao contrário das expectativas de mercado, que apontam para duas ou três subidas de 25 pb nos próximos 12 meses. A visão dos analistas do banco, contudo, é que esta será “uma recalibração” pela Fed.
Já Paolo Zanghieri, economista sénior da Generali, relembra que setembro é também tempo de atualização das projeções macro, o que, na ausência de forward guidance, será interpretado pelos mercados como indícios implícitos de como se comportará a política monetária daqui para a frente.
“Depois dos comentários hawkish em Jackson Hole, Warsh será pressionado para clarificar a função reação da Fed e trajetória política. Mas toda a comunicação acarreta risco de mercado. Uma mensagem demasiado cautelosa pode agravar o desconto de credibilidade que está a ser dado às bonds depois de uma recompra do Tesouro que desiludiu. Um aviso musculado quanto à inflação pode aumentar as expectativas de um ciclo de subidas e empurrar as yields de curto prazo para cima. Poucos sinais, como nas duas primeiras reuniões de Warsh, reforçará a incerteza sobre a política monetária”, ilustra o analista.
Warsh e Trump em rota de colisão
Aquando da sua chegada à liderança da Fed, o mercado temia que Warsh cedesse às pressões recorrentes de Trump, que o nomeou, para baixar taxas. Agora, e face a uma inflação que não dá sinais de recuo à boleia do disparo energético causado pelo conflito iniciado por Washington no Médio Oriente, a sua independência face à Casa Branca enfrenta o primeiro teste real.
Na cerimónia de tomada de posse de Warsh, em maio, Trump elogiou o banqueiro e economista, encorajando-o a ser “totalmente independente”. Os cometários surgiram depois de meses de ataques a Jerome Powell, antecessor de Warsh na Fed, que Trump chegou a ameaçar com despedimento caso não sucumbisse aos pedidos para cortar taxas.
Mais recentemente, o discurso mudou ligeiramente. O presidente norte-americano ameaçou dar mais um passo na guerra comercial com o resto do mundo caso os juros diretores não baixem e, quando questionado sobre se a Fed irá aumentar os juros em setembro, foi telegráfico: “não sei”.
Num tom mais forte (e, entretanto, amenizado), Kevin Hassett, diretor do Conselho Económico Nacional, afirmou na passada sexta-feira na Bloomberg TV que Trump continuava a querer um corte de taxas. Caso este não se confirme, “o presidente terá algo a dizer sobre isso”. Com a credibilidade da Fed em jogo, Warsh vê-se encurralado politicamente e debaixo da mira da Casa Branca.

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