Fed: Warsh reconhece que inflação continua elevada, mas reforça que não dá sinais quanto ao futuro
O presidente da Reserva Federal reforçou que olha sobretudo para tendências, não para leituras pontuais, na avaliação que faz da situação económica, mais uma vez recusando qualquer tipo de sinais quanto ao futuro. A decisão de subir juros vai contra a vontade de Trump, mas Kevin Warsh esquivou perguntas sobre como receberá a Casa Branca a notícia, reforçando que o banco central preserva a sua independência.
Após a decisão de subir juros em 25 pontos base (pb), a primeira subida desde 2023, Warsh explicou que a força da economia, as pressões inflacionistas e a situação geopolítica foram os principais determinantes da Reserva Federal, rejeitando que tenha sido a leitura da inflação em agosto ou do mercado laboral que garantiram a subida.
“Os mercados habituaram-se a esperar, por vezes em suspenso, por leituras pontuais. Essa não é a minha visão”, afirmou. “As tendências interessam; as leituras pontuais são ruído. A dependência de leituras pontuais é uma preocupação perigosa.”
Recusando novamente qualquer tipo de forward guidance, como tem sido seu apanágio, Warsh também chutou para canto questões quanto à taxa neutra, classificando-a como “útil academicamente”, mas sem “efeito operacional nas decisões” da Fed.
Além da decisão quanto aos juros, as projeções macroeconómicas dos membros do Comité Federal de Mercado Aberto (FOMC) também foram atualizadas – o que, na ausência de comunicação de Warsh quanto aos próximos passos, foi tomado pelo mercado como um sinal do caminho da política monetária.
A mediana da taxa terminal para este ano e o próximo foi revista em alta para 4,1%, ou seja, sugerindo que a maioria dos membros do FOMC vê mais uma subida de 25 pb este ano como provável. O famoso ‘dot-plot’, que traduz visualmente as projeções individuais dos responsáveis pela política monetária, indica que 16 dos 18 participantes na reunião esperam mais subidas este ano, com quatro a apontarem mesmo para mais duas subidas.
Esta visão é consistente com a revisão em alta da inflação este ano de 3,6% para 3,7%, bem como para 2028, de 2% (o objetivo de médio prazo do banco central) para 2,1%. Por outro lado, também as projeções para a inflação subjacente para este ano e 2028 foram revistas marginalmente em alta, reforçando a noção que a Fed teme uma inflação mais prolongada e persistente.
Ainda assim, o presidente da Fed não explicou como irá o banco central assegurar “um regresso mais rápido ao objetivo de 2%”, como se lê no comunicado desta quarta-feira, enquanto os membros do FOMC vão adiando a expectativa de uma inflação de 2%.
Silêncio de Trump (e Warsh)
Nomeado por Trump, que vem desde antes do seu regresso à Casa Branca a pedir cortes de juros, Kevin Warsh optou por alinhar com os mercados e voltar a subir taxas. Ainda assim, o banqueiro diz não ter comentários a fazer quanto à reação do presidente.
“Não tenho nada para vocês quanto a discussões com o presidente”, afirmou por mais do que uma vez quando questionado pelos repórteres.
Ainda assim, vários analistas estão a destacar o carácter unânime desta decisão, com 12 votos a favor e nenhum contra. Este parece ser um sinal de união do FOMC na luta contra a inflação e a pressão do ramo executivo, ao mesmo tempo que os seus membros individuais mostram a sua predisposição para reinar a pressão nos preços.
Do lado de Trump ou da Casa Branca também não houve comentários no imediato. Antes da reunião, o presidente norte-americano havia ameaçado dar mais um passo na guerra comercial com o resto do mundo caso os juros diretores não baixassem.
Num tom mais forte (e, entretanto, amenizado), Kevin Hassett, diretor do Conselho Económico Nacional, afirmou na passada sexta-feira na Bloomberg TV que Trump continuava a querer um corte de taxas. Caso este não se confirmasse, “o presidente terá algo a dizer sobre isso”.
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